João Braga emociona no Alta Definição ao recordar doença grave e fuga de Portugal em 1974, esta tarde na SIC.
Infância marcada por susto de saúde quase fatal
João Braga foi o convidado de Daniel Oliveira no programa Alta Definição, emitido na SIC, este sábado, 28 de fevereiro.
Logo no início da conversa, o fadista recuou à infância para partilhar um episódio que quase lhe custou a vida. Tudo começou com uma queda enquanto tentava alcançar guloseimas escondidas.
“Tenho memória de ver a Matilde, que era a empregada lá de casa, esconder umas guloseimas no armário de parede. E eu esperei que ela fosse lá para dentro, fazer a lide, e esgueirei-me ali acima, e quando estava quase a atingir o objeto que procurava, falhou um pé, caí de costas e fiz uma ferida, que ainda hoje é uma coisa complicada nos rins”, recordou.
Na altura, o prognóstico foi devastador.
“Naquele tempo era pior que complicado. Era quase uma sentença. Praticamente, foi o doutor Carlos Salazar de Sousa, que era o médico lá de casa, e disse aos meus pais, quer dizer, não disse tirem as medidas para o caixão, mas praticamente, foi assim uma coisa um bocadinho violenta”, confessou.
Durante a recuperação, João Braga passou longos períodos em tratamentos termais.
“Começou por marcar no meio de 30 dias anuais nas termas, porque só as águas é que tratavam daquele problema que eu tinha. Havia alegria em casa. A única coisa que não trazia muita alegria era no fim do ano, porque um dos meus irmãos não gostava de estudar, e o meu pai atribuía esse falhão ao estabelecimento onde nós estávamos na escola. E então mudava, ele achava que a culpa era da escola, não era, era o meu irmão que não gostava de estudar”, explicou.
O outono de 1974 e o exílio forçado
Mais à frente, a entrevista mergulhou num dos capítulos mais sombrios da vida do artista: o exílio em 1974.
João Braga revelou que, enquanto estava no Estoril, recebeu um telefonema a alertar para o que se passava na sua casa em Lisboa.
“Vieram duas caminhonetas, com jipes atrás, cheios de fuzileiros navais, e alguns tipos à paisana. Arrombaram a porta e levaram tudo o que tinhas dentro. Ali era o mandado de captura emitido pelo Movimento das Forças Armadas. Tinha o seu nome e a sua morada. Não tinha fotografia, nada, zero. Tinha lá uma coisa em branco, o motivo. Onde é que eu fiquei a saber que tinham arrombado a porta da minha casa e levado tudo o que lá estava dentro? Sem motivo”, relatou.
Sem compreender as razões, procurou ajuda junto de um amigo.
“Estou, António, é o João. E ele disse-me muito rapidamente, assim que possas, dê por onde der, pira-te daqui para fora. Para Marrocos, para Espanha, para onde tu quiseres. Mas não fiques aqui. E não voltes a ligar para aqui”, contou.
Após uma primeira tentativa falhada na fronteira, conseguiu escapar com a ajuda de amigas espanholas.
“Fui eu com mais três senhoras amigas. Fomos em três carros por causa das barricadas, se houvesse barricadas para terem tempo de voltar para trás. Consegui passar desta maneira”, revelou.
O exílio prolongou-se por dezassete meses.
“Foram dezassete meses. Eu não sabia se voltava. Não fazia a mínima ideia. Não me despedi de ninguém”, concluiu.
Assim, a entrevista revelou dois momentos decisivos na vida do fadista: um acidente infantil que quase terminou em tragédia e uma fuga forçada que o afastou do país num dos períodos mais conturbados da história recente portuguesa.

