Caso das crianças abandonadas em Alcácer: alegado plano na carrinha da GNR, interrogatório prolongado e futuro dos menores ainda incerto

Caso das crianças abandonadas em Alcácer: alegado plano na carrinha da GNR, interrogatório prolongado e futuro dos menores ainda incerto, é o que se sabe.

Foto: Imagem meramente ilustrativa

O caso das duas crianças francesas abandonadas em Alcácer do Sal continua a ganhar novos contornos. Marine Rousseau, de 41 anos, e Marc Ballabriga, de 55, foram detidos em Fátima e levados para o Tribunal de Setúbal, onde são suspeitos dos crimes de violência doméstica e exposição ou abandono.

Entretanto, surgiram novos dados sobre o comportamento do casal, o perfil dos suspeitos, a chegada do pai das crianças a Portugal e o futuro ainda indefinido dos dois irmãos.

Alegado plano durante a viagem para tribunal

Segundo a informação divulgada, Marine e Marc terão conversado durante a viagem numa carrinha da GNR, entre Fátima e Palmela, antes de seguirem para o Tribunal de Setúbal.

Durante esse trajeto, de cerca de 160 quilómetros, o casal terá combinado uma estratégia para o interrogatório. A intenção seria fazer-se passar “por doidinhos”.

A conversa terá sido ouvida por militares da GNR. Os suspeitos terão acreditado que não estavam a ser compreendidos, mas um militar percebeu o diálogo e acabou por depor à chegada a Palmela.

Esse testemunho já terá sido utilizado nos interrogatórios.

Comportamento errático antes e à chegada ao tribunal

Este dado poderá ajudar a explicar parte do comportamento atribuído a Marc Ballabriga. Nas instalações da GNR de Palmela, o padrasto das crianças foi descrito como “descompensado”.

Segundo a mesma informação, terá esmurrado equipamentos e gritado com Marine. Também foi referido que os dois estiveram “aos gritos um para o outro”, visivelmente “alterados”.

Já à chegada ao tribunal, o comportamento voltou a chamar a atenção. Marc gritava “Je vous amais” (“Amo-vos”) e Marine entrou a cantar.

A operação de segurança no Tribunal de Setúbal envolveu PSP e GNR. As entradas dos detidos foram controladas ao detalhe, devido ao impacto público do caso.

Interrogatório continua e medidas de coação ficam por conhecer

Marine Rousseau e Marc Ballabriga estiveram cerca de oito horas no Tribunal de Setúbal, depois de terem chegado por volta das 16h05 de sexta-feira. Saíram já depois da meia-noite, cerca das 00h15 deste sábado.

Como o interrogatório se prolongou, as medidas de coação ainda não foram conhecidas. A leitura ficou prevista para as 10h00 deste sábado, 23 de maio.

Segundo a CMTV, Marine optou por não prestar declarações. Já Marc terá demonstrado vontade de apresentar a sua versão dos factos.

O casal pernoitou no posto da GNR em Palmela. À saída do tribunal, foram ouvidos gritos.

Crimes em causa e eventual prisão preventiva

Marine e Marc são suspeitos de violência doméstica e exposição ou abandono dos menores. Pelos crimes em causa, poderão enfrentar penas entre dois e cinco anos de prisão por cada um.

Contudo, a análise das medidas de coação não é linear. Em direto de Setúbal, a jornalista Sofia Garcia explicou que existem dúvidas quanto ao enquadramento jurídico.

“A prisão preventiva é aplicada em crimes com moldura penal superior a cinco anos e nenhum destes reúne essas condições. No entanto, existem aqui agravantes.”

Além disso, as medidas devem ser avaliadas de forma individual, uma vez que a relação de cada suspeito com as crianças é diferente.

Sofia Garcia acrescentou ainda:

“Se for considerado o crime de ofensa à integridade física, a moldura penal para de cinco para oito anos”

A jornalista destacou também “o alarme social” e o “perigo de fuga” como fatores que podem pesar na decisão.

Entretanto, França emitiu um mandado de detenção internacional. Assim, caso fossem libertados, os suspeitos poderiam ser imediatamente detidos para serem levados ao Tribunal da Relação.

Crianças estão com família de acolhimento

Zacharie e Barthelemy, de três e cinco anos, foram encontrados por Alexandre Quintas numa estrada entre Alcácer do Sal e a Comporta, depois de terem sido abandonados.

Inicialmente, foram levados para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Depois da alta hospitalar, foram entregues a uma família de acolhimento, sob responsabilidade da Embaixada de França.

O pai das crianças já terá chegado a Portugal. Ainda assim, segundo a informação divulgada, tinha “direito de visita limitado e supervisionado”.

O Tribunal de Setúbal informou, em nota, que caberá às autoridades francesas iniciar o processo de regresso dos menores. Só depois haverá uma decisão em Portugal, respeitando regras processuais como “o princípio do contraditório e a obtenção de elementos probatórios”.

Na mesma nota, é referido que “As crianças residiriam com a mãe em França”.

Pai será avaliado antes de ver os filhos

Apesar de já estar em território português, o pai dos dois irmãos será sujeito a uma avaliação antes de poder estar com os filhos.

A situação levantou dúvidas pelo facto de ter viajado para Portugal três dias depois do abandono. Ainda assim, o processo segue dependente das decisões das autoridades competentes.

O futuro dos menores continua, por isso, incerto. Não está definido se regressarão a França, se ficarão temporariamente em Portugal ou se será encontrado outro enquadramento familiar.

Testemunhas estranharam ausência de reação no almoço

Antes do abandono, a família terá almoçado em Alcácer do Sal. Segundo testemunhas, houve comportamentos que chamaram a atenção.

Uma dessas testemunhas referiu:

“os meninos chutaram a bola para a estrada, e eles [mãe e companheiro] nada fizeram”

A ausência de reação terá surpreendido quem estava no local.

Detenção num café em Fátima

Marine e Marc foram detidos cerca de 48 horas depois, num café em Fátima. A proprietária do estabelecimento, Izabel Santos, contou no “Dois às 10” que o casal chegou por volta das 09h00.

“Chegou um casal de imigrantes franceses aqui, sentaram-se nesta mesa e pediram-me o pequeno-almoço: um galão, uma chávena grande de café e bolos. Sentaram-se normalmente, sorridentes, tranquilamente, como se nada se tivesse passado”, relatou.

A dona do café explicou ainda que o comportamento do casal acabou por gerar desconfiança.

“Começámos a desconfiar, porque as horas foram passando e eles continuaram aqui sentados, a brincar um com o outro. Ele estava com muita labuta no telemóvel e ela escrevia numa agenda. Ia ao carro, voltava e escrevia novamente na agenda.”

Depois, acrescentou:

“Só sei que eles estavam calmamente, tranquilamente, sorridentes um com o outro e a brincar com todos os clientes que chegavam”

Uma cliente que falava francês chegou a conversar com os suspeitos. Ao perguntar a Marc onde morava, este terá respondido:

“Eu moro no mundo”

Perfil de Marine Rousseau e Marc Ballabriga

Marine Rousseau é descrita como sexóloga e, segundo informação baseada no seu perfil no LinkedIn, terá estudado Psicomotricidade e depois Sexologia, na Universidade Paris Diderot.

Em França, apresentava-se como especialista em consultas presenciais e por videoconferência, com trabalho direcionado para traumas e educação sexual. Promovia apoio “no despertar sexual, ao ritmo de cada paciente”.

Também dirigia conteúdos “aos pais, avós, tios e tias, a cada membro das famílias e a todas as pessoas que queiram explicar a sexualidade, quer seja às crianças, aos adolescentes ou aos jovens, respeitando sempre a sua sensibilidade e o seu nível de desenvolvimento”.

A TVI avançou ainda que Marine tinha uma aula marcada para quinta-feira, 21 de maio, precisamente o dia em que foi detida.

Marc Ballabriga, antigo sargento da polícia, nasceu em Perpignan. Em 2010, demitiu-se depois de 15 anos de serviço. Nesse mesmo ano, foi condenado a nove meses de prisão com pena suspensa por violência doméstica, após queixa de uma ex-companheira.

Segundo a informação divulgada, atravessou uma depressão profunda e publicou nas redes sociais conteúdos ligados a teorias da conspiração. Também terá publicado um livro, “Renaissance”, sobre a luta judicial pela custódia da filha Emma.

Caso começou em França com ausência escolar

O processo terá começado em Colmar, França, no dia 11, quando o filho mais velho de Marine faltou à escola.

A ausência levou à emissão de um boletim de ocorrência. O presidente da câmara local, Éric Straumann, explicou:

“As autoridades iniciaram, então, as buscas”

Também foi avançado que Marine terá deixado em França outro filho menor, de 16 anos, sozinho em casa.

Emoção no local do resgate

No momento em que foram encontrados por Alexandre Quintas, os dois irmãos falavam francês. O padeiro procurou ajuda de alguém que dominasse a língua.

Um dos meninos falou por telefone com uma tradutora e, segundo o Correio da Manhã, terá ficado contente por pensar que falava com a mãe.

Essa reação emocionou quem estava presente, incluindo um militar da GNR que assistiu ao telefonema.

Agora, enquanto o tribunal avalia as medidas de coação e as autoridades francesas tratam do eventual regresso dos menores, o caso mantém Portugal em choque. Entre o alegado plano na carrinha, o silêncio de Marine, o histórico de Marc e o futuro incerto das crianças, há ainda muitas perguntas por responder.

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