Vizinhos do Rei abre em Odivelas: há um novo reino de petiscos, vinho e memória à sombra de D. Dinis, num local de visita obrigatória.
Texto e Entrevistas: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso
Odivelas tem destas coisas: parece, por vezes, que passa discreta ao lado de Lisboa, mas basta entrar no largo certo para perceber que há cidades que não precisam de gritar. Guardam-se. Esperam. E, quando se abrem, fazem-no com aquele modo antigo das casas que sabem receber.
Foi nesse lugar de história, mesmo ali junto ao Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, que o Vizinhos do Rei se apresentou em pré-inauguração. A casa abriu com nova gerência no dia 12 de Junho. O espaço já existia, mas mudou-lhe a respiração. Mudou-lhe a intenção. Mudou-lhe a promessa.

Agora, quer ser mais do que restaurante. Quer ser uma mesa prolongada. Um pátio de conversas. Um ponto de encontro onde a comida portuguesa volta a ter o que nunca devia ter perdido: tempo, partilha e verdade.
Onde a história se senta antes da primeira garfada
Há uma solenidade natural naquele canto de Odivelas. Não é solenidade de museu, fria e distante. É outra coisa. É a sensação de que o passado passa por ali de mansinho, toca numa parede, dobra uma esquina e fica a escutar.
Ao lado, está o Mosteiro fundado por D. Dinis no final do século XIII, construído entre 1295 e 1305. Dentro dele repousa o rei. Cá fora, no presente, nasce uma casa que decidiu fazer da vizinhança com a História uma espécie de destino.

Por isso, o nome Vizinhos do Rei não soa a artifício. Soa a geografia. Soa a pertença. Soa a Odivelas a lembrar-se de si própria.
Pedro Martins, sócio e sommelier, fala do lugar com a emoção de quem não está apenas a inaugurar um negócio. Está a regressar a uma parte de si.
“𝐏𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐫𝐚𝐳ã𝐨, 𝐨 𝐬í𝐭𝐢𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐦𝐚𝐫𝐚𝐯𝐢𝐥𝐡𝐨𝐬𝐨. 𝐎 𝐦𝐨𝐬𝐭𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐦𝐚𝐫𝐚𝐯𝐢𝐥𝐡𝐨𝐬𝐨. 𝐎 𝐞𝐝𝐢𝐟í𝐜𝐢𝐨 𝐢𝐜ó𝐧𝐢𝐜𝐨. 𝐌𝐮𝐢𝐭𝐚 𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐧ã𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐞𝐝𝐢𝐟í𝐜𝐢𝐨. 𝐄𝐬𝐭á 𝐜á 𝐬𝐞𝐩𝐮𝐥𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐮𝐦 𝐫𝐞𝐢 𝐪𝐮𝐞 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐝𝐢𝐮 𝐬𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐚 𝐬𝐮𝐚 ú𝐥𝐭𝐢𝐦𝐚 𝐦𝐨𝐫𝐚𝐝𝐚. 𝐔𝐦 𝐝𝐨𝐬 𝐫𝐞𝐢𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐨𝐢 𝐃𝐨𝐦 𝐃𝐢𝐧𝐢𝐬.”
Mas a paixão de Pedro não vem apenas dos livros. Vem da rua. Da infância. Da cidade onde cresceu.
“𝐄𝐮 𝐬𝐨𝐮 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐝𝐨. 𝐍𝐚𝐬𝐜𝐢 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚, 𝐦𝐚𝐬 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐝𝐨 𝐞𝐦 𝐎𝐝ivela𝐬. 𝐕𝐢𝐦 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐜á 𝐯𝐢𝐯𝐞𝐫 𝐝𝐨𝐬 𝐦𝐞𝐮𝐬 𝐝𝐨𝐢𝐬 𝐦𝐞𝐬𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞. 𝐂𝐫𝐞𝐬𝐜𝐢 𝐚𝐪𝐮𝐢. 𝐅𝐢𝐳 𝐚𝐦𝐢𝐠𝐨𝐬 𝐚𝐪𝐮𝐢. 𝐓𝐞𝐧𝐡𝐨 𝐨𝐫𝐠𝐮𝐥𝐡𝐨 𝐢𝐦𝐞𝐧𝐬𝐨 𝐞𝐦 𝐬𝐞𝐫 𝐎𝐝𝐢v𝐞𝐥𝐞𝐧𝐬𝐞.”

A casa quer que se fique
Há restaurantes feitos para comer e sair. Este não parece querer isso. O Vizinhos do Rei quer o contrário: que a pessoa se sente, peça, prove, converse, peça outra coisa e se esqueça um pouco das horas.
A cozinha estará aberta durante a tarde, entre as 12h00 e as 22h00. E isso diz mais sobre o conceito do que qualquer frase bonita. A casa foi pensada para almoço, para jantar, mas também para aquele meio tempo tão português em que se bebe qualquer coisa, se petisca e se fala da vida.

Paulo, um dos sócios, explica a ideia sem grandes rodeios. A base é portuguesa. A alma é de petisco. A ambição é fazer bem, com identidade.
“𝐎𝐥𝐡𝐚, 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐚𝐪𝐮𝐢 é 𝐭í𝐩𝐢𝐜𝐨 𝐞 𝐛𝐨𝐦, 𝐨𝐤? 𝐂𝐨𝐦 𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐧ã𝐨 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐟𝐮𝐠𝐢𝐫 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐨 𝐩𝐞𝐭𝐢𝐬𝐜𝐨, 𝐦𝐚𝐬 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐩𝐞𝐭𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐨 𝐜𝐡𝐞𝐟, 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐨𝐜ê𝐬 𝐣á 𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐞𝐦, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐨 Frederico 𝐅𝐫𝐚𝐧𝐜𝐢𝐬𝐜𝐨.”
Nesta nova vida, o petisco não surge sozinho. Surge acompanhado. O vinho entra como personagem da refeição, sem arrogância e sem distância.

“𝐄 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐭𝐚𝐦𝐛é𝐦 𝐭𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐨 𝐏𝐞𝐝𝐫𝐨, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐦𝐞𝐥𝐢𝐞𝐫, 𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐪𝐮𝐞 𝐧ó𝐬 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫? 𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐜𝐨𝐦 𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐭𝐢𝐬𝐜𝐨𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐩𝐞𝐝𝐞𝐦, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐨𝐢𝐬𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐧ã𝐨 𝐡á 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨. 𝐍ó𝐬 𝐚𝐜𝐫𝐞𝐝𝐢𝐭𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞 𝐬𝐞𝐫 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐨𝐢𝐬𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐢𝐫𝐚 𝐚𝐭é 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚𝐬 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐞𝐫𝐞𝐦. 𝐎 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨 d𝐞 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐥𝐡𝐚.”
E, depois, há a frase que fica. Aquela que define melhor o espírito da casa do que qualquer manifesto.
“𝐈𝐬𝐭𝐨 é 𝐮𝐦 𝐞𝐬𝐩𝐚ç𝐨 𝐞𝐦 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐜𝐚𝐥𝐦𝐚, 𝐭𝐫𝐚𝐧𝐪𝐮𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐟𝐫𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐞 𝐛𝐨𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐢𝐝𝐚, 𝐞 𝐮𝐦𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐯𝐞𝐫𝐬𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐦 𝐨𝐬 𝐚𝐦𝐢𝐠𝐨𝐬 𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 de 𝐛𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐯𝐢𝐝𝐚.”
A tradição não fica à porta
A casa nova não renega a casa antiga. Isso importa. Há espaços que mudam de gerência e apagam tudo, como se a memória fosse incómodo. Aqui, não.
O Vizinhos do Rei sabe que aquele lugar já tinha nome na zona. E tinha, sobretudo, uma fama antiga: os caracóis.
Paulo lembra essa herança e deixa claro que ela não será traída.

“𝐀 𝐜𝐚𝐬𝐚 𝐯𝐞𝐢𝐨 𝐝𝐞 𝟏𝟗𝟓𝟎. 𝐃𝐞𝐬𝐝𝐞 𝟏𝟗𝟗𝟎, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐚𝐬𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐡𝐞𝐜𝐢𝐝𝐚 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐧𝐚 𝐳𝐨𝐧𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐚 𝐜𝐚𝐬𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐜𝐚𝐫𝐚𝐜ó𝐢𝐬. 𝐄 𝐧ó𝐬 𝐧ã𝐨 𝐪𝐮𝐞𝐫𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐯𝐢𝐫𝐭𝐮𝐚𝐫 𝐮𝐦 𝐛𝐨𝐜𝐚𝐝𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐚 𝐡𝐢𝐬𝐭ó𝐫𝐢𝐚 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐢𝐬𝐚.”
Portanto, haverá caracóis. Haverá esse gesto popular, solarengo e muito português. Mas haverá também outra leitura da casa, com a assinatura da cozinha e a ambição de servir melhor.
E, sobretudo, haverá Odivelas no prato.
A marmelada branca como identidade
Poucas coisas dizem tanto sobre um território como os seus sabores menos óbvios. No Vizinhos do Rei, a marmelada branca aparece como uma dessas marcas.
Não será apenas detalhe decorativo. Estará em entradas, pratos e sobremesas. Vai ter presença. Vai ter intenção.

“𝐎𝐥𝐡𝐚, 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚 𝐛𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚. 𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐩ratos principais 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚. 𝐄 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐬𝐨𝐛𝐫𝐞𝐦𝐞𝐬𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚 𝐛𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚.”
Há aqui qualquer coisa de muito feliz. A gastronomia, quando é séria, não precisa de se mascarar de luxo. Às vezes, basta olhar para aquilo que sempre esteve perto e dar-lhe palco.
O queijo Dom Dinis entra no mesmo caminho. Produto da zona, memória local, sabor com geografia. O restaurante quer trabalhar essas raízes sem as transformar em postal.

O chef e a cozinha de raiz
O chef Frederico Francisco olha para o projecto como quem reconhece uma oportunidade antiga. Uma casa de petiscos, sim, mas com cabeça. Com pesquisa. Com produto. Com mão.
A carta não será extensa. E isso, nos tempos que correm, pode ser uma boa notícia. Menos dispersão, mais foco. Menos ruído, mais sabor.
“𝐍ó𝐬 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐚𝐫 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐢𝐧𝐮𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐚 𝐮𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐣𝐞𝐭𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐱𝐢𝐬𝐭𝐢𝐚 𝐝𝐞𝐬𝐝𝐞 𝟏𝟗𝟓𝟓, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐚𝐬𝐚 𝐝𝐞 petiscos. 𝐀𝐪𝐮𝐢 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐚𝐫 𝐮𝐦 𝐭𝐰𝐢𝐬𝐭 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐦𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐢𝐬𝐚𝐬 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐦𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐚𝐬.”
O chef fala de produtos autóctones, de mercado local, de raízes do concelho. Fala de cozinha portuguesa com o respeito de quem sabe que a tradição não é prisão. É matéria-prima.

“𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐚𝐦𝐛é𝐦 𝐚𝐩𝐫𝐨𝐯𝐞𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐧𝐬 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐭𝐨𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐬ã𝐨, 𝐧𝐚 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐚𝐮𝐭ó𝐜𝐭𝐨𝐧𝐞𝐬 𝐝𝐚 𝐳𝐨𝐧𝐚 𝐝𝐞 Odivelas. 𝐒ã𝐨 𝐨 𝐪𝐮𝐞𝐢𝐣𝐨 𝐃𝐨𝐦 𝐃𝐢𝐧𝐢s, 𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚 𝐛𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚. 𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐚𝐥𝐠𝐮𝐦𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐢𝐧𝐚çõ𝐞𝐬 𝐜𝐨𝐦 𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐩𝐫𝐚𝐭𝐨𝐬.”
A praia antiga que regressa num gaspacho
Há ideias que, por si só, já dão vontade de pedir o prato. A do gaspacho do Vizinhos do Rei é uma delas.
Odivelas terá tido praia até ao século XVIII. A partir dessa memória, o chef criou um gaspacho que procura evocar esse imaginário. Não como reconstituição histórica. Mas como sensação.

Frescura. Verão. Lugar. Brisa possível numa cidade sem mar à vista.
“𝐍ó𝐬 𝐡𝐨𝐣𝐞 𝐭𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐮𝐦 𝐩𝐫𝐚𝐭𝐨 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨, 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐢𝐫𝐨. 𝐅𝐨𝐢 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐝𝐨 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐧𝐨 𝐫𝐞𝐬𝐭𝐚𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨. Odivelas 𝐣á 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐩𝐫𝐚𝐢𝐚, 𝐚𝐭é 𝐚𝐨 𝐬é𝐜𝐮𝐥𝐨 𝐗𝐕𝐈𝐈𝐈. 𝐄𝐧𝐭ã𝐨 𝐧ó𝐬 𝐜𝐫𝐢𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐮𝐦 𝐠𝐚𝐬𝐩𝐚𝐜𝐡𝐨, 𝐪𝐮𝐞 é 𝐮𝐦𝐚 𝐢𝐝𝐞𝐢𝐚 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐨𝐮 𝐦𝐞𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐪𝐮𝐞 é 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐫 𝐧𝐮𝐦𝐚 𝐩𝐫𝐚𝐢𝐚.”
É aqui que a reportagem começa a ganhar sabor. Porque uma casa só se distingue quando deixa de servir apenas pratos e começa a servir memória. Mesmo que seja uma memória reinventada, trazida à mesa numa colher fria.
Tasca, sim. Mas com outra luz
O chef não foge à palavra tasca. E ainda bem. A tasca portuguesa é uma instituição emocional. Foi nela que muita gente aprendeu que comer também é conversar, discutir, rir, ouvir e voltar.
A diferença está no olhar. O Vizinhos do Rei quer pegar nesses sabores familiares e dar-lhes outra apresentação, sem lhes roubar a alma.

“𝐍ó𝐬 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐚 𝐩𝐞𝐧𝐬𝐚𝐫 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐚𝐫𝐭𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐩𝐞𝐭𝐢𝐬𝐜𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐚𝐬𝐜𝐚, 𝐜𝐨𝐦 𝐮𝐦 𝐭𝐰𝐢𝐬𝐭 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐜𝐨𝐦 𝐮𝐦𝐚 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚çã𝐨 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐦𝐚𝐬 𝐨 𝐬𝐚𝐛𝐨𝐫 é 𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨.”
Na carta, a promessa passa por petiscos tradicionais, pica-pau, camarão, peixinhos da horta e caracóis, entre tantas outras coisas. As moelas, por agora, ficam de fora. Mas a cozinha de conforto, essa, está lá.
Frederico Francisco fala também dos sabores de infância. E, quando um chef fala de infância, convém escutar. Porque é aí que a comida deixa de ser técnica e passa a ser biografia.
“𝐌𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐬𝐚𝐛𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐟â𝐧𝐜𝐢𝐚, 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐬𝐚𝐛𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐟â𝐧𝐜𝐢𝐚. 𝐔𝐦 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐬 é 𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚, 𝐨𝐤? 𝐌𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚, 𝐧ã𝐨 𝐝𝐚 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐥𝐚 é 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐝𝐚 𝐡𝐨𝐣𝐞, 𝐦𝐚𝐬 𝐨 𝐬𝐚𝐛𝐨𝐫 𝐭𝐫𝐚𝐝𝐢𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐦𝐚𝐫𝐦𝐞𝐥𝐚𝐝𝐚.”

O vinho certo para o petisco certo
Pedro Martins traz à casa uma dimensão que pode fazer diferença: o vinho tratado com cuidado, mas sem cerimónia excessiva.
A garrafeira não quer esmagar o cliente com páginas intermináveis. A ideia passa por cerca de 35 referências, escolhidas para acompanhar a carta. Pouco, se for apenas número. Muito, se for bem pensado.
“𝐎 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐞𝐬𝐩𝐚ç𝐨 𝐧ã𝐨 𝐯𝐚𝐢 𝐭𝐞𝐫 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐟𝐞𝐫ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐯𝐢𝐧𝐡𝐨. 𝐀 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐚𝐩𝐨𝐬𝐭𝐚 é 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐮𝐦𝐚 𝐞𝐱𝐩𝐞𝐫𝐢ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐚𝐢𝐫𝐢𝐧𝐠 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐢𝐝𝐚. 𝐒𝐞𝐥𝐞𝐜𝐢𝐨𝐧á𝐦𝐨𝐬 𝐜𝐞𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝟑𝟓 𝐯𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐨𝐟𝐞𝐫𝐞𝐜𝐞𝐫 𝐚𝐨 𝐜𝐥𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞, 𝐚 𝐞𝐱𝐩𝐞𝐫𝐢ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐚𝐜𝐨𝐫𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐜𝐚𝐫𝐭𝐚.”
O desafio é bonito: levar a lógica de um pairing pensado ao universo aparentemente simples dos petiscos. Porque uns peixinhos da horta também merecem o vinho certo. Um pica-pau também pode encontrar companhia séria no copo.

“𝐏𝐨𝐫𝐭𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐞𝐧𝐡𝐚 𝐚𝐪𝐮𝐢, 𝐜𝐨𝐦e 𝐮𝐧𝐬 𝐩𝐞𝐢𝐱𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬 𝐝𝐚 𝐡𝐨𝐫𝐭𝐚, 𝐜𝐨𝐦e 𝐮𝐦 𝐩𝐢𝐜𝐚-𝐩𝐚𝐮, 𝐨𝐮 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐬𝐞𝐣𝐚, 𝐡á 𝐝𝐞 𝐭𝐞𝐫 𝐨𝐩𝐨𝐫𝐭𝐮𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐩𝐨𝐝𝐞𝐫 𝐞𝐱𝐩𝐞𝐫𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐞𝐬𝐬𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐯𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐜𝐞𝐫𝐭𝐨. É 𝐞𝐬𝐬𝐞 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐟𝐨𝐜𝐨.”
Portugal estará representado quase de norte a sul. Mas a carta poderá abrir portas a regiões internacionais, como Borgonha, Itália, África do Sul ou Austrália.
E haverá também surpresa.
“𝐄𝐮 𝐯𝐨𝐮 𝐝𝐚𝐫 𝐚𝐨𝐬 𝐜𝐥𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐚 𝐞𝐱𝐩𝐞𝐫𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐯𝐢𝐧𝐡𝐨𝐬 𝐝𝐢𝐟𝐞𝐫𝐞𝐧𝐭𝐞𝐬. À𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐯𝐚 𝐜𝐞𝐠𝐚. 𝐄 𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐭𝐢𝐫 𝐝𝐚í 𝐯𝐨𝐮 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐫 𝐚 𝐬𝐮𝐫𝐩𝐫𝐞𝐬𝐚.”
Preço justo, sem baixar a fasquia
A ambição do Vizinhos do Rei não passa por se fechar numa bolha de inacessibilidade. A casa quer qualidade, mas quer também que as pessoas venham. Que voltem. Que tragam amigos. Que façam do espaço parte dos seus hábitos.
Pedro Martins é claro nessa leitura. Odivelas não é o centro de Lisboa. E a casa quer respeitar esse contexto.
“𝐍ó𝐬 𝐪𝐮𝐞𝐫𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐚𝐫 𝐨 𝐦á𝐱𝐢𝐦𝐨 𝐩𝐨𝐬𝐬í𝐯𝐞𝐥 𝐝𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐚𝐨 𝐦𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫 𝐩𝐫𝐞ç𝐨 𝐩𝐨𝐬𝐬í𝐯𝐞𝐥 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐜𝐥𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞. 𝐏𝐫𝐞ç𝐨 𝐣𝐮𝐬𝐭𝐨, 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐩𝐫𝐞ç𝐨. 𝐎 𝐦𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐬í𝐯𝐞𝐥.”
Ainda assim, a exigência não desaparece. O preço justo não será sinónimo de descuido.
“𝐌𝐚𝐬 𝐚𝐭𝐞𝐧çã𝐨, 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐭é𝐫𝐢𝐚-𝐩𝐫𝐢𝐦𝐚 𝐝𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞, 𝐭𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐧𝐚 𝐜𝐨𝐦𝐢𝐝𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐧𝐚 𝐛𝐞𝐛𝐢𝐝𝐚.”
Paulo, por sua vez, assume que os primeiros tempos de uma abertura exigem afinação. Há sempre arestas. Há sempre aprendizagem. Mas há também vontade de chegar ao serviço pensado.
“𝐍𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐬𝐢𝐭𝐮𝐚çã𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐛𝐞𝐫𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐯𝐚𝐢 𝐡𝐚𝐯𝐞𝐫 𝐟𝐚𝐥𝐡𝐚𝐬, 𝐯𝐚𝐢 𝐡𝐚𝐯𝐞𝐫 𝐬𝐢𝐭𝐮𝐚çõ𝐞𝐬. 𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐢 𝐦𝐨𝐥𝐝𝐚𝐫 𝐨 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐨𝐬𝐬í𝐯𝐞𝐥 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐬𝐞𝐫𝐯𝐢ç𝐨 𝐚𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐧𝐡𝐞 𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐢𝐝𝐞𝐢𝐚𝐬. 𝐀𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐢𝐝𝐞𝐢𝐚𝐬 𝐞𝐬𝐭ã𝐨 𝐧𝐨 𝐬𝐞𝐫𝐯𝐢ç𝐨 𝐝𝐨 𝐭𝐨𝐩𝐨.”

Odivelas não precisa de pedir licença a Lisboa
Há uma frase que fica a pairar sobre esta inauguração: porquê vir a Odivelas, quando Lisboa tem tanta oferta?
A resposta talvez esteja no próprio espaço. Na sombra natural. Na esplanada. Na proximidade do mosteiro. No edifício que muitos ainda desconhecem. Na possibilidade de uma refeição sem o cansaço da cidade grande.
O Vizinhos do Rei não parece querer competir com Lisboa no seu próprio jogo. Quer jogar outro. Quer afirmar uma Odivelas com identidade, produto, história e capacidade de receber.
Pedro resume esse caminho sem delírios de grandeza. Não há aqui vontade declarada de destronar ninguém. Há, sim, vontade de fazer bem.
“𝐐𝐮𝐞𝐫𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐚𝐫 𝐨 𝐦á𝐱𝐢𝐦𝐨 𝐩𝐨𝐬𝐬í𝐯𝐞𝐥 𝐝𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞𝐬 𝐚𝐨 𝐜𝐥𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐞𝐦 𝐚𝐪𝐮𝐢. É 𝐬ó 𝐢𝐬𝐬𝐨. 𝐓𝐫𝐚𝐛𝐚𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐦 𝐩𝐫𝐚𝐳𝐞𝐫. 𝐍𝐮𝐦 𝐬í𝐭𝐢𝐨 𝐦𝐚𝐫𝐚𝐯𝐢𝐥𝐡𝐨𝐬𝐨 𝐨𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐦𝐨𝐬.”
Talvez seja essa a melhor definição da casa: trabalhar com prazer. Servir com prazer. Cozinhar com prazer. Receber com prazer.
E, do outro lado, permitir que o cliente também se sente com prazer.
Um reino feito de mesa, sombra e conversa
Na pré-inauguração, o Vizinhos do Rei deixou a sensação de estar a nascer com uma ideia muito clara. Não quer ser apenas novidade. Quer ser hábito.
Há casas que se impõem pelo aparato. Outras ganham-nos pelo modo como nos fazem imaginar o regresso. Esta pertence, pelo menos na intenção, ao segundo grupo.
A sua matéria não é apenas o prato. É a mesa. Não é apenas o vinho. É a conversa que o vinho prolonga. Não é apenas a esplanada. É a vontade de ficar mais um pouco. Não é apenas D. Dinis ali ao lado. É Odivelas a perceber que também pode ter o seu pequeno reino gastronómico.
No fim, talvez seja isso que se pede a uma casa destas: que não nos deslumbre apenas. Que nos acolha.
E o Vizinhos do Rei parece querer fazer precisamente isso. Abrir a porta, pousar o pão, encher o copo, trazer o petisco e lembrar-nos que há poucas coisas tão portuguesas como estar à mesa, sem pressa, com gente de quem se gosta.
Informação útil
O Vizinhos do Rei fica no Largo Dom Dinis 15C, 2675-336 Odivelas.
O restaurante está aberto todos os dias, das 12h00 às 22h00.
Contacto: 910 242 324
E-mail: gerencia@vizinhosdorei.pt

