Rock in Rio Lisboa despede-se com Rod Stewart, Cyndi Lauper, Rema e mais de 300 mil festivaleiros da edição deste ano.
O Rock in Rio Lisboa fechou mais uma edição no Parque Tejo, depois de dois fins de semana marcados por públicos diferentes, géneros cruzados e nomes de várias gerações.
Entre o rock veterano de Rod Stewart e Cyndi Lauper, a energia de Rema, a festa de CeeLo Green, o regresso dos 4 Non Blondes e a força nacional de Xutos & Pontapés, Valete e Carlão, o festival voltou a mostrar uma programação sem fronteiras rígidas.
No final, mais de 300 mil festivaleiros passaram pelo recinto. O reencontro com o público português está marcado para junho de 2028, nos dias 17, 18, 24 e 25.
Rod Stewart afastou receios e não falhou Lisboa
A noite de 27 de junho trouxe de volta o rock ao centro do festival. Se alguém ainda dizia que já não havia rock no Rock in Rio, esse sábado contrariou a ideia.
Depois de um cancelamento recente nos Estados Unidos, existia algum receio em torno da presença de Rod Stewart em Lisboa. Contudo, o cantor britânico subiu ao Palco Mundo e entregou aquilo que ainda podia dar.
Aos 81 anos, Rod Stewart mostrou a voz rouca, as poses de sempre e um alinhamento construído sobre clássicos. A plateia cantou temas como “Infatuation”, “Having a Party”, “It’s a Heartache”, “Tonight I’m Yours (Don’t Hurt Me)” e “It Takes Two”.
Também passaram pelo concerto “The First Cut Is the Deepest”, “I Don’t Want to Talk About It”, “Hot Legs”, “I’d Rather Go Blind”, “Young Turks”, “Rhythm of My Heart”, “Jolene”, “Maggie May”, “Have I Told You Lately” e “Baby Jane”.
Depois, “Da Ya Think I’m Sexy?” e “Love Train” fecharam a actuação.
A banda acompanhou o ritmo, com destaque para a violinista Adrianna Thurber Shaw. Houve ainda momentos ligados às raízes escocesas do artista, com gaitas de foles em palco.
Cyndi Lauper brilhou com irreverência e mensagem
Contudo, a noite rock não se fez apenas de Rod Stewart. Cyndi Lauper surgiu como uma das grandes figuras do dia.
A cantora norte-americana, aos 73 anos, entrou em palco com crista, energia e uma banda quase toda composta por mulheres.
No final, cantou “Shine” no chão e ergueu o punho em “True Colors”, com um arco-íris no ecrã gigante. A mensagem foi directa: “não tenham medo”.
Mais tarde, em “Girls Just Want to Have Fun”, usou um vestido de grandes bolas vermelhas, fruto de uma colaboração com Yayoi Kusama.
Cyndi Lauper dedicou o momento a quem tenta “empurrar as nossas irmãs para baixo” e desejou que as meninas possam crescer “livres” e “viver as suas melhores vidas”.
Também não faltaram “The Goonies ‘R’ Good Enough”, “Change of Heart” e “Time After Time”. Esta última ganhou força com o crepúsculo, a Ponte Vasco da Gama e a lua no enquadramento.
4 Non Blondes abriram caminho ao dia de rock
Antes, o Palco Mundo já tinha recebido os 4 Non Blondes, num regresso que deixou marca.
Linda Perry brincou com o calor e lançou a pergunta ao público: “Are you guys hot? Are we hotter?”.
A resposta veio em forma de entusiasmo. A banda apresentou temas novos e antigos, mas toda a gente esperava “What’s Up”.
Quando o hino chegou, Linda Perry percorreu o palco, desceu para cantar com fãs e levou a filha para uma fotografia. A menina acabou por cantar um refrão, para surpresa da própria mãe.
A vocalista fez ainda questão de lembrar a ligação familiar a Portugal, referindo que o pai era “português”.
Antes, tinha deixado outra nota sobre o regresso aos palcos: “Estive 25 anos fechada num estúdio a fazer música para outras pessoas. É óptimo estar aqui”.
The Wailers, GNR e Xutos deram força aos palcos secundários
Enquanto o Palco Mundo vivia momentos de nostalgia rock, os palcos secundários também tiveram peso.
The Wailers actuaram no Palco Super Bock e levaram a mensagem reggae ao recinto. O vocalista Mitchell Brunings perguntou: “Ainda se lembram da mensagem, Lisboa? Paz, amor, unidade”.
Depois, reforçou a ideia de comunidade: “A questão com a união é que não a conseguimos alcançar sozinhos.”
No Palco Music Valley, GNR trouxeram um alinhamento forte, com “Efectivamente”, “Asas”, “Pronúncia do Norte”, “Popless”, “Quero Que Vás Pró Inferno”, “Morte ao Sol”, “Sexta-feira (Um Seu Criado)”, “+ Vale Nunca” e “Oculto Sangue”.
Rui Reininho ainda brincou com o regresso ao festival: “Até daqui a 20 anos”.
Mais tarde, os Xutos & Pontapés deram um dos concertos mais fortes da noite. Tim olhou para a adesão do público e comentou: “Não sei qual é melhor palco, se o outro [principal], se este”.
No fim, a sensação de muitos ficou resumida numa frase ouvida no recinto: “Soube a pouco”.
Shaggy dividiu, Joss Stone convenceu
Nem tudo, porém, teve o mesmo impacto.
Shaggy ocupou o Palco Mundo com um concerto que dividiu opiniões, muito assente na interacção com o público feminino e num registo mais previsível.
Já Joss Stone, no Palco Super Bock, mostrou outro fôlego. A cantora aproximou-se do público desde o início, trouxe groove e voz poderosa.
O concerto ficou ainda marcado por um pedido de casamento em palco, apadrinhado pela artista.
Último dia trouxe trap, afrobeat, rap britânico e música portuguesa
No domingo, 28 de junho, o Rock in Rio Lisboa despediu-se com uma programação mais global e menos centrada no rock.
O Palco Mundo abriu com Matuê, que levou trap brasileiro, estética gótica e uma forte resposta do público mais jovem. No final de cada tema, o som de uma arma a ser carregada e disparada fazia a transição para a música seguinte.
No Palco Super Bock, Valete apresentou-se como representante do “verdadeiro hip hop português”, acompanhado pelos Jazz Swingers.
A frase que orientou o espectáculo foi clara: “o jazz é a memória do futuro”.
Entre temas como “Roleta Russa” e “Fim da Ditadura”, o rapper deixou ainda uma mensagem à plateia: “O medo é inimigo do homem”.
Valete juntou passado, futuro e convidados
Valete levou ao Rock in Rio uma nova leitura dos seus clássicos, aproximando rap e jazz.
Logo na “Intro”, com Emmy Curl em vídeo, apresentou o conceito. Depois, procurou explorar a ligação entre o rap e a música afro-americana.
Para “Salvação”, chamou Prodígio ao palco. Os dois terminaram a clamar “Linha de Sintra”, celebrando uma geografia comum.
Também Bonús subiu ao palco para recordar “Canal 115”.
Mais tarde, Valete dedicou “Mulher que Deus amou” à antiga namorada, Raquel, e explicou a importância dela na sua carreira: “Foi ela que pagou o meu primeiro disco. Se não fosse ela, podia não estar aqui hoje”.
Rema transformou o Palco Mundo em festa
Ao final da tarde, Rema estreou-se em Portugal e confirmou o peso internacional do afrobeat.
Logo no início, avisou: “Rema representa o afrobeat”.
Depois, definiu o ambiente que queria criar: “Quando isto começa, deixa de ser um festival ou um concerto. É uma festa do Rema.”
O artista nigeriano não exigiu que o público soubesse tudo de cor. O convite foi mais simples: “Não precisam de saber as letras. Estamos aqui pelas vibes.”
Noutro momento, reforçou a mesma ideia: “Não importa se não sabem as minhas canções de cor, eu só quero que se divirtam”.
Temas como “Charm”, “Soundgasm” e “Baby (Is it a Crime)” puseram a multidão a dançar. Porém, “Calm Down” foi o momento mais esperado e cantado.
Já perto do fim, Rema tentou prolongar o concerto: “Acham que conseguimos mais cinco minutos para uma última canção?”.
A resposta acabou por vir em música, com “OZEBA”, do álbum “Heis”.
CeeLo Green fez uma das festas da noite
No Palco Super Bock, CeeLo Green fechou a noite com uma mistura de estilos, memórias e versões.
A actuação juntou pop, hip-hop, funk, rock, música de dança e até metal. A banda ajudou a manter o ritmo e o público aderiu sem grandes reservas.
A selecção passou por referências aos INXS, Pet Shop Boys, Motörhead, Megadeth, Blur, Nirvana, Bon Jovi, White Stripes e Daft Punk.
Também houve espaço para “Don’t Cha”, das Pussycat Dolls, escrita por CeeLo Green, e para “FUCK YOU”, que ecoou pelo recinto.
No ecrã, uma instrução resumia o espírito da actuação: “Smile more”.
Para a despedida, surgiu uma bandeira portuguesa em palco e ouviu-se “Magalenha”, de Sérgio Mendes, composta por Carlinhos Brown.
Carlão estreou novo espectáculo e chamou Carolina Deslandes
Também no domingo, Carlão apresentou no Palco Music Valley o universo de “Quinta-Essência – 75/25”, álbum editado em março.
O artista descreveu o disco como “um apanhado de tudo o que tem sido referência e influência na música e na vida”.
Em palco, cruzou hip-hop, rock, crioulo e memórias pessoais. “Passo a Passo”, “MAIS!” e “Na Batalha” abriram caminho para um concerto de contrastes.
Depois, surgiram “Ver-te Dormir”, “Nair Ki Fla” e “Oh Nha Nené”. Ao arriscar o crioulo, Carlão pediu: “Desculpem o meu crioulo”.
Carolina Deslandes entrou mais tarde em palco e chamou-lhe “uma das lendas da música portuguesa”.
Os dois cantaram “Lose Yourself”, de Eminem, antes de passarem por “Precipícios” e “Os Tais”.
Carlão deixou aviso político no Music Valley
Depois do momento com Carolina Deslandes, Carlão voltou a endurecer o tom.
Em “Na Loucura”, recuperou versos de crítica social: “Subimos o Montenegro, caímos na desventura/ À espera de um milagre sonhando com a fartura”.
Depois, deixou um alerta: “A ditadura já esteve mais longe, e há aviso”.
Já no fim, antes de “Corta e Cola”, brincou com a falta de tempo: “Já não temos tempo para mais uma, pode ser meia?”.
A resposta veio em 34 segundos de intensidade, com a canção mais curta do novo álbum.
Central Cee e 21 Savage fecharam com menos impacto
No Palco Mundo, Central Cee estreou-se em Portugal com “Doja”, tema que se tornou viral no TikTok.
Apesar da pouca interacção e de uma presença mais contida, conseguiu manter o público junto ao palco.
O encerramento ficou reservado para 21 Savage, mas começou com atraso. O rapper entrou cerca de 20 minutos depois da hora prevista, enquanto o DJ tentava segurar a plateia.
Durante a espera, ouviram-se temas de Travis Scott, Drake, Backstreet Boys e até músicas ligadas aos jogadores da Seleção Nacional.
No público, surgiu a pergunta: “Então, o 21 não vem?”.
Quando finalmente entrou, 21 Savage não conseguiu recuperar totalmente o entusiasmo. À medida que o concerto avançava, várias pessoas começaram a abandonar o recinto.
Balanço final aponta para mais internacionalização
O quarto dia terá contado com cerca de 50 mil espectadores, segundo a organização, abaixo dos 75 mil registados no sábado.
Ainda assim, no total da edição, mais de 300 mil festivaleiros passaram pelo Rock in Rio Lisboa.
Na conferência de encerramento, Roberta Medina sublinhou a ambição de atrair mais público estrangeiro nas próximas edições, destacando o impacto do festival na restauração, nos transportes e na hotelaria de Lisboa.
Assim, o Rock in Rio despediu-se do Parque Tejo com um cartaz que juntou memórias, estreias, festa e alguns contrastes.
Agora, ficam as datas do regresso: 17, 18, 24 e 25 de junho de 2028.
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