Do underground português para os circuitos internacionais

Entrei na indústria da música muito cedo e comecei por fazer um pouco de tudo: pré-produção, produção no terreno, stage e road management, logística, entre outros. Ao longo dos últimos anos, passei por diferentes estruturas e funções dentro da área, e talvez tenha sido precisamente isso que me fez perceber rapidamente que o sucesso de um projeto não acontece apenas no palco, acontece em tudo o que existe à volta dele, no trabalho invisível e no esforço coletivo das bandas e de todas as pessoas envolvidas nas suas equipas. 

Nos últimos anos, tenho observado e acompanhado artistas e bandas portuguesas que procuram construir o seu espaço fora do país, muitas vezes com equipas pequenas, recursos reduzidos e uma enorme capacidade de adaptação. O resultado visível desse esforço coletivo é que hoje vemos projetos de géneros cada vez mais abrangentes e fora do que era tradicionalmente mainstream – rock, punk, hardcore, industrial, noise, eletrónica, entre outros – a circular por festivais, clubes e showcases europeus com uma naturalidade que, há alguns anos, parecia improvável. 

O crescimento dentro de circuitos DIY e independentes, mostra que existe uma nova geração mais conectada, mais informada e, acima de tudo, mais disponível para partilhar conhecimento, contactos e experiências. 

Os circuitos underground têm uma dinâmica muito própria. Funcionam através de relações humanas, confiança, continuidade e proximidade. Um concerto leva a outro, uma conversa gera uma colaboração futura, uma recomendação abre uma porta inesperada. E muito desse trabalho acontece também fora do palco: nas conversas depois dos concertos, nos contactos criados em festivais ou showcases, e nas relações que se constroem e mantêm a partir daí. Internacionalizar não passa apenas por “ir tocar lá fora”, mas por criar redes de confiança e construir relações duradouras. 

É precisamente essa partilha que tem sido uma das forças mais importantes da música underground portuguesa contemporânea. Existe uma consciência cada vez maior de que quantos mais artistas, managers, agentes, programadores e estruturas portuguesas estiverem presentes nestes contextos internacionais, mais forte se torna todo o ecossistema. A internacionalização deixa de ser vista apenas como uma conquista individual e passa também a ser um movimento coletivo.

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Em Portugal, o espaço continua a ser pequeno, os recursos limitados e as oportunidades escassas e, nesse contexto, a internacionalização deixa de ser apenas uma ambição e passa muitas vezes a ser uma necessidade para a sustentabilidade das bandas, e também de quem trabalha com elas. 

Ainda assim, a verdade é que a circulação internacional continua a ser exigente: os custos são altos, a precariedade mantém-se presente e o desgaste físico e emocional das tours faz parte da realidade de muitos projetos. No entanto, mantém-se uma enorme vontade de arriscar, de experimentar e de criar espaço para a música portuguesa. 

Foi também a partir deste contexto e desta vontade que este ano fundei a ATRITO, uma estrutura de management e produção criada com o objetivo principal de trabalhar projetos independentes e acompanhar estratégias de crescimento, planeamento e desenvolvimento de carreiras artísticas tanto a nível nacional como internacional. 

Nesse processo, torna-se importante que existam estruturas e plataformas como a WHY Portugal, que facilitem o contacto entre artistas e profissionais com agentes internacionais, a criação de relações entre os mesmos e a sua presença nos espaços onde muitas destas ligações começam. Essa presença continua a fazer diferença, especialmente para estruturas mais pequenas e para projetos que crescem fora dos circuitos mais convencionais da indústria. 

Acredito também que é essencial continuarmos a reforçar a ideia de comunidade dentro do próprio setor em Portugal. Falar mais entre profissionais, partilhar informação, criar redes de apoio e abrir espaço para novas pessoas e projetos. Porque muitas vezes é precisamente dessa entreajuda que nascem as oportunidades mais importantes. 

Talvez seja precisamente no underground, nesses espaços mais livres, colaborativos e menos formatados, que se esteja hoje a construir uma das redes mais interessantes da música portuguesa contemporânea. Uma rede feita de risco, criatividade, amizade, partilha e vontade de levar a música portuguesa cada vez mais longe.

Artigo de Nadine Saize 
Fundadora da ATRITO

Fotografia: Diana Mendes

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