Pedro Chagas Freitas deixa carta aos pais de crianças no espectro do autismo: “Não procurem ser perfeitos”

Pedro Chagas Freitas deixa carta aos pais de crianças no espectro do autismo: “Não procurem ser perfeitos”, referiu.

Pedro Chagas Freitas voltou a usar as redes sociais para abordar um tema marcado por dúvidas, cansaço e, muitas vezes, solidão. Desta vez, o escritor dirigiu uma carta aos pais de crianças no espectro do autismo.

Sem apresentar respostas fáceis, o autor começou por afastar a promessa de que todos os momentos serão simples. Pelo contrário, reconheceu a exigência de um caminho onde nem sempre existem certezas ou soluções imediatas.

“Não vos vou dizer que tudo ficará bem”

Logo no início da publicação, Pedro Chagas Freitas recusou transformar a realidade destas famílias numa mensagem construída apenas para confortar.

“Não vos vou dizer que tudo ficará bem.

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Seria uma mentira confortável. As mentiras confortáveis são a principal droga de uma sociedade que foge de tudo o que não sabe controlar. O que vos espera não é um caminho recto, não há um Manual de Instruções. O que vos espera é uma caminhada. Às vezes vai ser bela, às vezes vai ser exaustiva. Vai ser sempre feita de perguntas para as quais ninguém tem respostas completas.”

O escritor prosseguiu ao contrariar a ideia de que uma criança no espectro do autismo vive afastada da realidade que a rodeia. Na sua reflexão, destacou antes uma forma diferente de sentir, observar e relacionar-se com o mundo.

“O vosso filho não vive ‘fora’ do mundo.

Vive num mundo próprio. O vosso filho não quebra nada; só não dança a música imposta. Haverá dias em que as palavras dos outros vos ferirão mais do que o silêncio, momentos em que amar parecerá insuficiente. Muitas vezes, não é. Isso não é fracasso; é humanidade.”

“O autismo não é uma tragédia”

Num dos pontos centrais da carta, Pedro Chagas Freitas defendeu que o problema não está no autismo, mas na incapacidade de muitas estruturas acompanharem diferentes necessidades e ritmos.

Escolas, locais de trabalho e relações surgem entre os exemplos usados pelo autor para retratar uma sociedade que nem sempre tem disponibilidade para compreender.

“O autismo não é uma tragédia.

O mundo fá-lo parecer. A tragédia está na rigidez das estruturas, na impaciência dos olhares, na velocidade absurda das escolas, dos empregos, das relações. O vosso filho não corre ao ritmo dos outros. Vê detalhes que os outros ignoram, sente vibrações que os outros não percebem, ou simplesmente não quer correr.”

Depois, o escritor abordou a comunicação entre pais e filhos. Para Pedro Chagas Freitas, nem todas as ligações precisam de acontecer através das palavras.

Ao mesmo tempo, reconheceu que o amor não impede o desgaste e que admitir o cansaço não diminui o papel desempenhado pelos pais.

“Amar uma criança no espectro é aprender uma língua sem dicionário.

A comunicação nem sempre acontece com palavras. O silêncio pode ser uma forma de presença. O amor, por maior que seja, não anula o cansaço. Não há mal algum em admiti-lo. Serão tentados, muitas vezes, a comparar. A imaginar como seria ‘se fosse diferente’. Não se culpem por isso. Pensar o que poderia ser não vos torna maus pais.”

Um apelo contra a procura da “normalidade”

Na parte final da carta, Pedro Chagas Freitas deixou um pedido direto aos pais. Em vez da procura constante pela perfeição, o autor destacou a importância da compreensão.

Também rejeitou que as crianças tenham de ser moldadas para corresponder ao que a sociedade estabeleceu como normal.

“Não procurem ser perfeitos.

Resistam à tentação de traduzir tudo em ‘normalidade’. O vosso filho não precisa de ser corrigido; precisa de ser compreendido.”

A solidão vivida por muitos pais foi outro dos temas destacados. O escritor alertou para os riscos de enfrentar todo o processo em silêncio e sem procurar apoio.

Por fim, descreveu a presença dos pais como uma âncora na vida da criança, mesmo quando não existem garantias ou reconhecimento pelo esforço realizado diariamente.

“Não se deixem engolir pela solidão.

A solidão dos pais é um silêncio perigoso. Não se deixem naufragar nele. Amar uma criança no espectro é uma forma rara, e bruta, de amor: não há garantias, não há medalhas. Há vocês e uma criança que sente a vossa presença como âncora. Aguentem-se aí, sim?

Com respeito absoluto,
Pedro”

Com esta carta, Pedro Chagas Freitas não procurou suavizar as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Optou antes por reconhecer o cansaço, a incerteza e a necessidade de compreensão, sem transformar nenhum desses sentimentos num sinal de fracasso.

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