Pedro Chagas Freitas relata episódio na autoestrada e admite erro: “Não julgues antes de compreender”, pediu.
Pedro Chagas Freitas partilhou nas redes sociais um episódio vivido durante uma viagem de automóvel, que começou com irritação e terminou com um pedido interior de maior compreensão.
O escritor seguia pela faixa da direita, numa autoestrada, quando outro veículo se aproximou demasiado da traseira do seu carro. Como existiam duas faixas livres, interpretou a atitude do outro condutor como provocação ou condução agressiva.
A reação foi imediata. Contudo, poucos minutos depois, percebeu que tinha julgado a situação sem conhecer o que realmente estava a acontecer.
Condutor seguia com uma criança a sangrar
Segundo o relato, o outro automóvel manteve-se próximo até ambos saírem para uma estação de serviço. Pedro Chagas Freitas preparava-se para confrontar o homem, mas acabou por reparar em duas crianças sentadas na parte traseira.
Uma delas estava a sangrar do nariz. O pai tentava apenas chegar rapidamente a um local onde pudesse parar e prestar auxílio ao filho.
Na publicação, o escritor descreveu todo o episódio:
“Colou-se de repente à traseira do meu carro na autoestrada. Eu ia à direita, tranquilo. Havia as outras duas faixas livres. Mas aquele carro encostou-se ao meu. A noite cerrada. Vociferei, claro. Porque raios haveria de estar encostado a mim se tinha as outras duas faixas livres para andar, para ultrapassar? Dediquei algumas palavras à mãe dele. Fiz gestos com os braços que duvido que ele, na escuridão, tenha conseguido ver. Passaram trezentos metros, meio quilómetro, talvez. Vi a saída para uma estação de serviço. Saí. Queria ver-me livre dele, daquela luz forte a entrar-me pelo vidro. Ele saiu também, atrás de mim, ainda juntinho. Parei em frente à bomba. Ele parou ao meu lado. O coração a bater forte. Quando me preparava para sair do carro para tirar satisfações, para libertar o meu nervosismo, percebo tudo: na parte de trás do carro daquele homem que conduzia sozinho, estavam duas crianças nas suas cadeirinhas. Uma delas estava a sangrar. Era só isso que aquele pai queria: sair o mais rapidamente possível para resgatar o sofrimento do seu filho. Foi por isso que se encostou a mim, à direita: sabia que a estação de serviço era já ali. Estava a socorrer o menino, a transpirar. Perguntei se precisava de algo, ele disse que não. Ficou ali, de lenço de papel na mão, a tentar estancar o sangue que saía daquele nariz pequeno, indefeso. Segui caminho, sem conseguir estancar em mim a necessidade, urgente, de preferir a compreensão antes de partir para o conflito, a humanidade antes do belicismo. Tentarei, tentarei sempre.”
“Não julgues antes de compreender”
O momento levou Pedro Chagas Freitas a reconhecer que a primeira leitura dos acontecimentos estava errada. O comportamento que lhe pareceu injustificável tinha, afinal, uma explicação ligada à urgência de um pai.
Ao acompanhar a publicação, o escritor resumiu a reflexão numa frase: “Não julgues antes de compreender.”
O relato termina, assim, como um alerta para a facilidade com que se atribuem intenções aos outros, sem conhecer o medo, a preocupação ou a urgência que podem existir do outro lado.
Veja a publicação AQUI.
