Tânia Laranjo questiona debate sobre aborto: “O problema é o mês dez”, referiu num texto nas suas redes sociais.
Tânia Laranjo entrou no debate em torno da interrupção voluntária da gravidez com uma reflexão centrada no apoio prestado às mulheres depois do parto. A jornalista da CMTV assumiu-se como defensora da vida, mas recusou que essa posição termine no momento do nascimento.
Numa publicação nas redes sociais, a comunicadora questionou a utilização da expressão “pró-aborto” e criticou a transformação de uma decisão complexa numa disputa feita de rótulos.
Jornalista contesta expressão “pró-aborto”
Tânia Laranjo começou por questionar quem pode ser verdadeiramente definido daquela forma.
“Nos últimos dias ouvimos até à exaustão a expressão ‘pró-aborto’. Quem é, exatamente, pró-aborto? Há alguém a acordar de manhã a pensar: ‘Que bom, hoje talvez consiga convencer alguém a interromper uma gravidez’? Ou será que ‘pró-aborto’ é, muitas vezes, uma maneira bastante cómoda de transformar uma decisão difícil numa caricatura?”, escreveu.
A jornalista procurou, assim, afastar o debate de uma divisão linear entre dois campos e chamou a atenção para as circunstâncias enfrentadas por cada mulher.
“Eu sou pró-vida”
Ao assumir-se como “pró-vida”, Tânia Laranjo explicou que essa posição exige uma responsabilidade que se prolonga muito além dos nove meses de gestação.
“Eu sou pró-vida. Mas isso, para mim, tem uma consequência incómoda: tenho de ser pró-vida também quando a vida ainda não cabe numa ecografia. Tenho de ser pró-vida quando a mãe não tem dinheiro. Quando não tem casa. Quando está sozinha. Quando tem medo. Quando a gravidez resulta de violência. Quando já tem dois filhos e mal consegue alimentar os três. Quando não tem creche. Quando não tem apoio psicológico. Quando não tem família. Quando o pai desapareceu. Quando toda a gente lhe diz ‘tenha o bebé’ e depois, curiosamente, toda a gente desaparece no preciso momento em que é preciso pagar a fralda”, salientou.
A comunicadora colocou no centro da discussão as dificuldades económicas, a falta de habitação, a violência, a ausência de estruturas familiares e a escassez de apoio psicológico.
Apoio não pode terminar depois do nascimento
Tânia Laranjo criticou ainda a distância entre os discursos construídos durante a gravidez e os problemas enfrentados pelas famílias após o nascimento da criança.
“Nove meses dão para fazer discursos, cartazes, debates, slogans e vídeos emocionados. O problema é o mês dez. A renda continua a chegar. A criança continua a ter fome. A mãe continua a precisar de trabalhar. A creche continua a custar dinheiro. A depressão pós-parto está ali ao virar da esquina. E o Estado não pode aparecer nove meses depois com um ‘boa sorte, família tradicional’”, alertou.
Para a jornalista, uma política de defesa da vida deve incluir respostas sociais capazes de acompanhar as mães no quotidiano. Esse compromisso passa por áreas como habitação, emprego, saúde mental, alimentação e acesso a creches.
Tânia Laranjo pede coerência na defesa da vida
No final da reflexão, a comunicadora deixou uma pergunta sobre a capacidade coletiva para apoiar uma mulher que decide prosseguir com a gravidez.
“Se queremos falar de defesa da vida, então falemos da vida toda. Não apenas da vida que ainda não fala, não vota, não pede creche e não manda faturas. Talvez a verdadeira prova de coerência não seja perguntar à mulher se ela aceita levar a gravidez até ao fim. Talvez seja perguntar-lhe: ‘Se aceitares, nós estamos preparados para não te deixar sozinha?’. A resposta, essa, já sabemos qual é”, concluiu.
