Coala Festival: António Zambujo levou elegância e autenticidade à vila de Cascais no primeiro dia da segunda edição.
Texto: Rui Lavrador / Fotografias: Nuno Almeida
O cantor levou o Alentejo ao Coala Festival com um concerto irrepreensível que contou com a participação do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento.
António Zambujo: Um concerto com assinatura
No primeiro dia do Coala Festival Portugal, que decorreu no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, António Zambujo subiu ao palco e entregou aquele que foi, sem margem para dúvidas, o concerto mais refinado e coeso da jornada.
Com um alinhamento que fundiu tradição e sofisticação, Zambujo iniciou o espectáculo de forma simbólica: deu lugar, primeiro, ao Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, que interpretou a emblemática Moda do Chapéu Preto. Seguiu-se Trago o Alentejo na Voz, já com o artista em palco. Foi este o primeiro de vários momentos marcantes de um concerto que se distinguiu pelo rigor estético e pela qualidade musical.
Coala Festival: Entre a excelência musical e a ‘apatia’ do público
No entanto, o contexto não foi o mais favorável. O público presente demonstrou pouco foco, pouca cultura e escasso interesse pela música apresentada. A atenção dispersa, o ruído constante e o interesse no consumo de álcool marcaram negativamente o ambiente durante grande parte do espectáculo. Um público que foi para ali fazer-se notar pelos piores motivos. Apesar disso, na reta final, a plateia mostrou sinais de maior atenção, embora o comportamento global tenha deixado a desejar.
Ainda assim, Zambujo manteve-se fiel à sua linha artística. E bem! Com o suporte de uma banda irrepreensível — composta por João Moreira, João Salcedo, Francisco Brito, José Manuel Conde, André Santos e Bernardo Couto — apresentou canções como Guia, Sagitário e Brazaville, conduzindo o público por um universo sonoro intimista e profundamente português.
O poder da simplicidade
Ao longo do concerto, destacaram-se também temas como Reader’s Digest, Lua, Zorro, Algo Estranho Acontece e Visita de Estudo. Zambujo, com a sua reconhecida subtileza vocal, demonstrou mais uma vez a capacidade rara de transformar letras em emoções. Reinventando cada canção com nuances distintas, fez da sua voz um instrumento expressivo, simultaneamente sóbrio e envolvente.
A simbiose com os músicos em palco revelou uma cumplicidade artística sólida. Cada um teve espaço para brilhar individualmente, mas foi na coesão do grupo que a excelência se afirmou com clareza.
Final com raízes no cante
Por fim, o concerto terminou com Pica do 7, Rancho Fundo e Dá-me uma gotinha d’água, esta última novamente acompanhada pelo Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento. Assim, o regresso do colectivo alentejano à cena final criou um encerramento simbólico e emotivo, reforçando a ponte entre a tradição oral do sul e a música contemporânea portuguesa.
Em suma, António Zambujo protagonizou um concerto que reuniu bom gosto, entrega e autenticidade. Uma tarde em que a música falou mais alto, apesar do ruído da plateia.
Viva António Zambujo e a música de qualidade superior!
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