Entrevista a Miguel Bandeirinha após a Grande Noite do Fado: “Esta vitória sabe a conquista”, assinalou o fadista.
Fotografias: Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.
Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Miguel Bandeirinha ainda trazia a noite no corpo quando falou ao Infocul.pt by ARDglobal. A vitória na categoria masculina da Grande Noite do Fado de Santa Maria Maior, no Teatro São Luíz, não lhe chegou apenas como prémio. Chegou-lhe como confirmação.
A representar o Grupo Desportivo da Mouraria, o fadista natural do Porto, e residente em Gaia, subiu ao palco com uma casa histórica às costas. Levou a voz, mas também levou um bairro, uma tradição e uma ideia de fado que não se mede apenas pela geografia.
Na memória imediata da vitória, a primeira imagem não foi de si próprio. Foi dos que vieram antes.
“A primeira imagem que me passou pela cabeça foi recordar os grandes nomes do passado que outrora venceram a Grande Noite do Fado, que é agora a Grande Noite do Fado de Santa Maria Maior, e perceber que o meu nome se junta ao deles na história desta noite tão emblemática.”
Uma vitória com vida, luta e caminho
Depois da conquista, Miguel Bandeirinha escreveu que o prémio “sabe a vida, sabe a luta, sabe a caminho”. Ao Infocul.pt by ARDglobal, explicou o que cabe dentro dessa frase.
“Uma vida dedicada à cultura, ao fado e ao gosto pela portugalidade. A luta por um lugar, pelo respeito e pelo reconhecimento. Um caminho pessoal de encontros, aprendizagens, inseguranças, vitórias, derrotas e superações.”
Este não é, para o fadista, apenas um prémio de talento. É também uma marca de resistência.
“Este prémio foi um misto de ambos. Foi uma confirmação a mim mesmo de tudo aquilo que sempre acreditei que eu era fadista, foi uma prova à resistência no mundo artístico, que muitas vezes me fez crer na dúvida de mim mesmo, do meu propósito e daquilo que canto. Esta vitória sabe a conquista.”
Ainda assim, no instante em que ouviu o nome, Miguel não se sentiu sozinho. A vitória teve o seu rosto, mas trouxe muitas mãos invisíveis.
“Senti que havia muitas pessoas comigo naquela palco. Apesar de ser eu quem estava no palco, senti-me acompanhado por todas as pessoas que fizeram parte desta caminhada. Foi um momento muito individual, mas também profundamente coletivo.”
O Coliseu, os colegas e o peso da noite
Antes do resultado, estar na Grande Noite do Fado já era suficiente para sentir a responsabilidade do momento.
“Estar na Grande Noite do Fado já era, por si só, uma enorme honra. Independentemente do resultado, sentia que estava a participar numa das mais importantes celebrações do Fado, rodeado de pessoas que partilham o mesmo amor por esta arte.”
A competição foi renhida, mas Miguel Bandeirinha prefere recordar a partilha. No palco, viu identidades diferentes a servir a mesma canção.
“Havia muito talento em palco e cada fadista trouxe a sua identidade e a sua forma de sentir o Fado. Mais do que uma competição, senti que foi uma oportunidade de partilhar experiências, convívio e recordações.”
Por isso, fez questão de aplaudir os restantes participantes. Para Miguel, esse gesto também revela a forma como olha para o fado.
“Sim, deixo um aplauso a todos aqueles que partilham o mesmo gosto que eu pela canção nacional, por todos aqueles que, tal como eu, lutam pelo seu futuro. E porque acredito que a noite foi feita de grandes talentos, de muitas almas emprestadas ao fado, e porque defendo que todos temos o nosso lugar.”
Mouraria: uma casa, uma herança, uma responsabilidade
Miguel Bandeirinha representou o Grupo Desportivo da Mouraria. A responsabilidade não lhe passou ao lado. Pelo contrário, entrou com ele no palco.
“A responsabilidade de representar um bairro que, como diz a canção, ‘é o mais boémio, é o mais fadista’. E agradeço o convite aos seu dirigentes pela confiança depositada no meu fado.”
A Mouraria não é apenas um lugar no mapa de Lisboa. No fado, é mito, memória e pertença.
“A Mouraria carrega uma identidade muito própria dentro do universo do Fado. Estar associado a este bairro trouxe-me um sentido acrescido de pertença e responsabilidade. Em palco, senti que representava não apenas uma instituição, mas também uma herança cultural profundamente ligada às raízes do Fado.”
Quando se canta por uma coletividade histórica, a voz deixa de ser apenas individual. Miguel sente isso de forma clara.
“Quem canta fado, empresta a voz à alma de todo um povo, à alma de um país, à alma de toda uma história. Da Mouraria, vem-nos a lenda da Severa, vêm-nos refrões e clássicos que todos cantam. Da Mouraria, chega-nos o fado da sua gente e a história das suas ruas e recantos.”
A ligação ao Grupo Desportivo da Mouraria nasceu de um convite e de uma confiança depositada no seu percurso.
“Fui convidado pelo Grupo Desportivo da Mouraria porque alguns dos seus membros seguem e reconhecem o meu trabalho. E assim, consideraram e viram em mim competência e alma para os poder representar.”
Um fadista do Norte a vencer em Lisboa
Miguel é natural do Porto e vive em Gaia. Vencer uma grande noite ligada ao fado alfacinha traz, por isso, uma leitura especial.
“Vencer uma Grande Noite do Fado, na cidade onde dizem que o fado nasceu, sendo eu do Porto, sublinha que o fado não tem fronteiras geográficas. Desde que o fado foi considerado Património Imaterial pela Unesco em 2011, é um baluarte maior e uma bandeira de Portugal no mundo. Do Minho ao Algarve, o fado ‘bebe’ e comunga de todos os sotaques, de todos os trajes, de todas as histórias e anda na boca de toda a gente que o quer representar com dignidade.”
Entre o Norte e Lisboa, existe também uma ponte pessoal.
“Sim, há uma ponte emocional. As minhas raízes são do Norte, mas tenho família em Lisboa. Ao longo do meu percurso fadista, criei laços com artistas, fadistas e músicos, que muito deram ao meu fado, e só reforçaram esta ponte e abraço entre ambas as regiões.”
O homem antes do fadista
Fora do palco, Miguel Bandeirinha garante ser menos solene do que a imagem que pode passar quando canta.
“Fora do palco, sou muito menos sério do que as pessoas imaginam quando me veem a cantar. Gosto de conviver, de estar com amigos, de partilhar boas conversas e de desfrutar das coisas simples da vida. No fundo, sou uma pessoa que tem a felicidade de poder viver uma grande paixão através do Fado.”
O fado, porém, entrou cedo. Primeiro pela vida familiar. Depois, como destino impossível de separar.
“O Fado surgiu aos 6 anos de idade através dos negócios da família ligados ao fado, e foi ganhando um lugar de destaque na minha vida.”
Não houve, diz, um dia exato em que percebeu que o fado era essencial. Foi acontecendo.
“Não houve um momento único ou uma decisão consciente. Foi algo que se foi revelando ao longo do tempo. À medida que cantava e me aproximava cada vez mais do Fado, percebi que não era apenas um género musical de que gostava, mas uma forma muito especial de expressar emoções, contar histórias e compreender melhor a mim próprio. Quando dei por mim, o Fado já fazia parte da minha vida de uma forma impossível de separar.”
As vozes que o marcaram ajudam a explicar esse caminho.
“Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Anita Guerreira, Beatriz da Conceição, Frei Hermano da Câmara. Relativamente a casas, o Escondidinho e a Colombofila da Mafamude, onde tudo começou.”
A dúvida, os pais e quem lhe deu força
Nem sempre a certeza foi absoluta. Miguel admite que houve momentos de dúvida, embora nunca tenha existido uma verdadeira vontade de desistir.
“Sim, porque cheguei a duvidar realmente se seria ou não fadista. Mas nunca chegou a ser uma verdadeira vontade de desistir. Pelo contrário, foram esses momentos que me fizeram refletir, ajustar e encontrar ainda mais força para continuar.”
Nos momentos mais difíceis, os pais foram o suporte essencial.
“Os meus pais, pois foram sempre o meu pilar essencial em todos os momentos da minha vida.”
E até a dúvida dos outros acabou por ter um efeito contrário ao esperado.
“Sim, quem duvidou de mim acabou por fazer o inverso daquilo que queria. Acabou por me reforçar a vontade e a coragem para seguir em frente e atingir as metas que queria.”
O que é ter alma fadista
Para Miguel Bandeirinha, cantar fado não basta para ter alma fadista. A questão está na verdade com que se sente.
“Para mim, ter alma fadista não é apenas cantar Fado. É viver com verdade, com entrega e com capacidade de transformar emoção em expressão. É ter sensibilidade para sentir a dor, a saudade, a alegria e a esperança, e conseguir traduzi-las de forma honesta. A alma fadista está mais na forma de sentir do que na forma de cantar. Para mim, a alma fadista é alinhar a minha alma à de quem me escuta e colocar as almas em compasso e sintonia.”
O fado, acrescenta, nasce, vive-se e passa de uns para os outros.
“O fado nasce, vive-se e, no contacto com outros fadistas, autores, poetas e músicos, herda-se e depois passa-se também o testemunho.”
Em palco, há primeiro uma leitura do espaço e do público. Depois, a emoção ganha terreno.
“Quanto entro em palco, inicialmente sou dono de mim mesmo e da leitura que faço ao público e ao local. Depois a emoção toma conta de mim e de todo o momento em palco.”
Cantar bem e cantar com verdade não são, para Miguel, a mesma coisa.
“Sim, o fado não se aprende nas escolas. O fado é o estilo onde o poema ganha força e a história tem de ser contada.”
O fado que lhe acontece
Miguel não escolhe apenas um registo. O fado depende do momento, da sala, das pessoas e do dia.
“O fado que me assenta melhor é o fado que me acontece no momento que vou cantar. A sala, as pessoas, o local, os colegas e o dia influenciam muito o fado que canto. Contudo, o que considero que me assenta melhor será o rasgado a par do sofrido.”
Além dos temas escritos para si, há poemas antigos que ainda sente atuais.
“Tirando aqueles que escrevo e que foram compostos para mim, gosto de cantar poemas que ainda hoje são intemporais, embora escritos há décadas. Gosto de cantar os poemas colocados ao lado durante um tempo pela sociedade, como por exemplo, Ary dos Santos.”
Há, porém, um fado que ainda espera pela maturidade certa.
“O Fado Menor porque é considera o ‘rei dos fados’ e, na minha opinião, exige todo o respeito e toda a maturidade para o poder cantar. Um dia hei-de sentir que o consigo fazer.”
A nova fase já começou
A vitória na Grande Noite do Fado chega num período de mudança artística. Miguel Bandeirinha já estava, diz, em renovação.
“A Grande Noite de Fado é uma marca importante na nova fase que já estou a viver há algum tempo. Uma fase de renovação de repertório e reinvenção pessoal.”
Mais do que alterar a forma como se vê, a conquista confirmou aquilo que as dúvidas lhe tinham encoberto.
“Esta vitória confirma a forma como sempre olhei para mim como fadista, mas que me estava velada pelas dúvidas constantes.”
O prémio, espera, pode abrir portas junto do público.
“A maior possibilidade de estar perto das pessoas de Norte a Sul. O reconhecimento do público através da possibilidade de mais concertos, mais presenças e mais atuações, tendo como base a minha forma de estar e de me apresentar como fadista.”
E há projetos já em preparação.
“Estou a preparar vários concertos ligados ao fado tradicional, dando-lhe um toque revivalista. Estou também a criar um projeto de fado com vertente religiosa chamado Totus Tuus, uma consagração mariana.”
Tradição, geração e futuro
Miguel Bandeirinha vê-se num ponto de equilíbrio entre respeito pela tradição e afirmação de uma voz própria.
“Vejo-me precisamente nesse ponto de equilíbrio. Respeito profundamente a tradição, que é a base e a identidade do Fado, e procuro trazer a minha própria forma de sentir e interpretar. Não se trata de mudar o Fado, mas de continuar a vivê-lo com autenticidade na minha geração.”
Nos discos, quer continuar a cruzar clássicos com novidade.
“Em cada trabalho discográfico que apresento, vou sempre aos clássicos e apresento sempre algo novo ao meu público. Para mim, o mais importante é sentir que qualquer passo dado faz sentido dentro da minha identidade enquanto fadista.”
A ambição para os próximos anos não passa por pressa. Passa por continuar.
“Ambiciono continuar a viver o Fado com a mesma paixão e entrega com que o vivo hoje. Quero evoluir, aprender e ter cada vez mais momentos de partilha em palco, sempre com verdade e respeito por esta arte.”
Junho, festas populares e o fado das ruas
A vitória chegou no arranque de junho, mês popular e festivo. Para quem canta fado, esse calendário tem outro sabor.
“Sim, o mês de Junho tem um sabor especial. É um mês muito ligado às festas populares e isso acaba por trazer mais oportunidades de cantar e de viver o Fado num ambiente diferente, mais festivo e próximo do público.”
Mas Miguel deixa também um alerta. Para ele, é preciso devolver o fado às comunidades e afastá-lo da versão vazia feita apenas para consumo rápido.
“Mais do que nunca, há uns tempos para cá que criaram um fado para turistas, o fado das palminhas, o fado dos gritos, o fado vazio. Cada vez mais é importante voltar às ruas, às comunidades, às associações, às tascas e aos arraiais, para que exista a reaproximação do fado com as suas gentes e com a sua verdadeira história e identidade.”
O que quer que o público descubra
A partir desta vitória, Miguel Bandeirinha quer que o público descubra algo mais profundo do que uma voz.
“Que descobrisse que o Miguel quando canta, carrega no peito, não só o seu fado, mas também o fado daqueles que o escutam, daqueles que o aplaudem, daqueles que o apoiam. E que respeita e respeitará sempre o legado daqueles que vieram antes de mim.”
Se tivesse de explicar o seu fado numa frase, fá-lo-ia assim:
“A cantar revelo segredos e histórias que são uma parte de mim!”
E a quem canta fado, mas ainda tem receio de se assumir como fadista, deixa um conselho sem pressa.
“Diria que o mais importante é não ter pressa e respeitar o próprio percurso. O Fado não se impõe, vai-se descobrindo e assumindo aos poucos. O medo faz parte do percurso, sobretudo quando sentimos o peso da tradição, mas é importante não deixar que esse medo nos impeça de cantar com verdade. Se há fado dentro de alguém, ele acaba sempre por encontrar o seu caminho.”
A promessa depois da conquista
Quando olhar para trás, Miguel espera recordar esta noite não apenas pelo prémio, mas por tudo o que ela juntou.
“Espero recordar esta noite com um sentimento de gratidão e significado. Não apenas pelo resultado, mas por tudo o que ela representou; o encontro com o Fado, com colegas, com o público e com uma tradição tão forte. Mais do que um momento isolado, gostava de a recordar como uma etapa importante no meu percurso.”
Depois da vitória, sabe que ainda tem muito para aprender.
“Tenho sobretudo muito para continuar a aprender e a crescer. Mais do que provar algo a alguém, sinto que tenho a responsabilidade de evoluir como fadista, de consolidar o meu percurso e de corresponder, com trabalho e consistência, às oportunidades que vão surgindo.”
Ao mesmo tempo, há uma validação exterior que já não procura.
“Sinto que não preciso de provar nada no sentido de validação exterior. O mais importante já foi conquistado, isto é, a certeza de que o Fado faz parte do meu caminho e da minha forma de estar. A partir daqui o foco deixa de ser provar e passa a ser crescer, aprender e continuar a cantar com verdade.”
A promessa que faz a si próprio fecha a conversa com o mesmo tom com que a vitória chegou: vida, luta e caminho.
“Prometo não esquecer de onde vim, nem por que comecei. Prometo continuar a cantar com verdade, mesmo quando o caminho for mais exigente, e manter viva esta ligação ao Fado que me trouxe até aqui. Acima de tudo, prometo a mim próprio continuar a cantar com a mesma entrega, independentemente dos palcos ou dos resultados.”

