Domingo, Outubro 24, 2021

Entrevista G.F.A.C.T. Alenquerense: “Somos um grupo de irmãos”

Entrevista G.F.A.C.T. Alenquerense: "Somos um grupo de irmãos"

Entrevista G.F.A.C.T. Alenquerense: “Somos um grupo de irmãos”, disse Fábio Lucas, em declarações ao Infocul.pt

O Grupo de Forcados Amadores do Clube Taurino Alenquerense tem aproveitado as, poucas, oportunidades que lhe são concedidas, para estar a um nível bastante elevado nesta temporada tauromáquica. A sua prestação tem deixado felizes, não só os seguidores do grupo, bem como os aficionados que o têm visto em praça.

No próximo dia 25, pelas 17:00, na Praça de Touros de Arruda dos Vinhos actuam os cavaleiros Luís Rouxinol, Paulo Jorge Santos, Parreirita Cigano, Luís Rouxinol Jr., Francisco F.Núncio e António Telles (filho), os forcados amadores do Clube Taurino Alenquerense, Arruda dos Vinhos e Cartaxo. Lidam-se touros da ganadaria de Vale Sorraia.

O cabo do Grupo de Forcados Amadores do Clube Taurino Alenquerense, Fábio Lucas, concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou a corrida do dia 25, bem como a temporada do grupo.

Fábio, qual o balanço que podes já fazer desta temporada, relativamente ao Grupo de Forcados Amadores do Clube Taurino Alenquerense?

Gostaria de começar por agradecer ao Infocul a oportunidade de podermos dar a conhecer um pouco mais o grupo aos aficionados, bem como falar do momento bonito atravessamos. Quanto ao balanço da temporada até ao momento tem sido positivo, temos conseguido alguns compromissos importantes para o crescimento enquanto grupo e dentro de praça, apesar de termos tido poucas oportunidades nos últimos anos, não se está a refletir de forma acentuada essa falta de rodagem e a rapaziada tem correspondido às responsabilidades que têm aparecido. Existem sempre pontos a melhorar, mas penso que acima de tudo estamos a conseguir o mais importante que é apresentarmo-nos com dignidade tanto na forma de estar, como na forma de executar.

Estes dois anos de pandemia criou-vos adversidades extra?


Estes dois anos de pandemia criou adversidades extra para todos os sectores de actividade e o da tauromaquia não foi excepção. Gostaria também aqui, antes de ir à pergunta em concreto acerca do grupo, dar uma palavra de apreço para com todos os que da festa vivem direta ou indiretamente pelas dificuldades que possam ter passado derivado à situação que todos atravessamos, em especial aos ganadeiros e cavaleiros que em tempos de pandemia para além de terem de lidar com o reajuste de cachê nas corridas para contribuição do espectáculo uma vez que este está limitado em termos de lotação, mas também por terem de alimentar toda a máquina que está por detrás dos seus negócios que tem custos muito elevados, foram/são uns heróis. Também aos empresários por em tempos de incerteza terem a coragem de arriscar e lutarem para que a cultura da tauromaquia não ficasse para trás.
Quanto ao nosso grupo e penso que foi um pouco geral para todos, fomos essencialmente prejudicados pela falta de momentos de grupo e por haver poucas corridas essencialmente no ano passado. Também as ganadarias que cada vez menos facultam treinos aos grupos de forcados, no ano passado ainda se complicou mais, com o vírus tão ativo ainda passou a ser mais difícil encontrar quem nos facultasse treinos.
Num grupo é essencial criar laços entre os elementos e esses laços só se criam com vivências conjuntas, coisa que o ano passado foi um pouco mais complicado gerir. Mas ainda assim acredito que o nosso grupo nesse aspecto até foi dos mais afortunados porque cerca de 90% dos elementos são do concelho de Alenquer e íamos estando regularmente uns com os outros e complementávamos com algumas chamadas de vídeo entre nós em que começava entre 2 e quando íamos a ver já estava quase o grupo todo adicionado à chamada.

Como foi a questão dos treinos e do menor tempo juntos?

O decréscimo de corridas infelizmente parece-me uma realidade a que nós vamos ter de habituar, não para os números do ano passado logicamente, mas tendencialmente temos verificado que se dá menos corridas. Não havendo tantas corrida, roda-se menos forcados, os mais novos têm menos oportunidades e muitas vezes quando têm é a um nível de exigência elevado. As coisas desse ponto de vista podem depois no resultado final não correr tão bem, mas temos de nos esforçar para colmatar esses problemas que nos são alheios e compensar com mais treinos, mais actividades conjuntas, e trabalhar a parte teórica da pega. A ver também se aprende muito e é uma das coisas que insisto muito com eles é para verem vídeos de pegas e serem aficionados. Haverá pessoas que entendem e outras que não, mas temos de olhar para a parte das pessoas que pagam o seu bilhete para ver um espectáculo e querem sair agradadas, logo a alguns esses pormenores passam ao lado ou são completamente desconhecidos, querem é que as coisas sejam feitas com dignidade e merecem que cada grupo dê o melhor de si para apresentar essa mesma dignidade pretendida.

Actualmente em que momento se encontra o grupo?

Actualmente o grupo encontra-se numa fase muito bonita, já temos 2 elementos ainda no ativo em que os filhos já cá andam ao lado dos pais a seguir as suas pisadas. Tudo isto é bonito de se ver, miúdos que vemos crescer a acompanhar o grupo e quando chegam à adolescência fruto da afición que ganham aqui querem fazer parte activamente desta família.
Estamos também numa altura em que temos alguns elementos que por andarem comigo há alguns anos no grupo e termos amizades também familiares fora de praça querem fazer mais uns anos no activo para me ajudar e outros que andam no activo mas que mais dia menos dia já me informaram que vão sair, estão a aguardar apenas sentir que os que cá andam há menos tempo dão a garantia de que não se ressente essa renovação que já começa a acontecer. Temos também alguns miúdos novos que todos os anos entram e faço um grande esforço para os pôr a andar para a frente e por vezes até arrisco um pouco mais do que devia, mas a escassez de treinos faz com que isso aconteça, por vezes a um ritmo mais vagaroso. Aproveito também a oportunidade para apelar aos ganadeiros para facultarem mais treinos ao grupos de forcados (bem sei que somos muitos a pedir), mas para nós é algo muito importante para podermos construir os grupos de acordo com as exigências que todos pretendemos.

A 25 deste mês actuam em Arruda, frente a touros Vale Sorraia. Quais as características que mais destacas nesta ganadaria e quais as maiores dificuldades que estes touros colocam aos forcados?

Os Vale Sorraia são toiros que saiem com pelagem ruça e com bastante cara, ou melhor dizendo com uma córnea bem desenvolvida. Quanto ao comportamento, do que tenho visto, são toiros que transmitem pois habitualmente têm bravura e deixam-se tourear proporcionando ao espectáculo garantias no que ao rei da festa diz respeito. Estes toiros apresentam-se na generalidade bem rematados e com peso adequado à sua estrutura, o que faz com que estes tenham capacidade física para se empregar na lide e na pega. Para as pegas já vi os Sorraias a saírem muito bons para os forcados e a permitirem erros, mas também já vi a saírem a pedir muitas contas e sem permitirem qualquer erro. Temos de fazer o nosso papel e não facilitar no próximo dia 25.

Enquanto cabo, quais os maiores desafios que enfrentas em cada corrida? É duro deixar forcados de fora, sem se poderem fardar?

Os maiores desafios enquanto cabo é lidar com as eventuais lesões que possam acontecer, temos sempre o peso da responsabilidade de tentar fazer as escolhas mais adequadas para cada pega e existe também o medo do erro nas escolhas do cabo e que as mesmas tenham consequências negativas. Esse é o maior desafio e a maior responsabilidade, seguidamente é o tentar incutir os valores, princípios, normas e condutas do grupo a quem cá anda, não defraudando os que nos deixaram o legado do grupo. Quanto ao não se poderem fardar todos, é sempre duro deixar de fora quem luta pelo seu lugar e merece oportunidades, contudo tento que percebam que as escolhas são a pensar no melhor para o grupo, que o maior orgulho que podemos ter é coletivo e que por mais triste que se fique por não fardar em tal corrida, nunca se pode sobrepor à felicidade pela oportunidade dada aos outros colegas porque estes também a mereceram. Aqui não pode haver melhores nem piores, tem de existir um conjunto de pessoas que formam o grupo e trabalham em conjunto para que o mesmo se apresente sempre com dignidade.

Há alguma regra da qual não abdiques em nenhum momento no que ao comportamento e postura do grupo diz respeito?

Vivemos hoje em dia numa sociedade cada vez mais fútil e vazia de conteúdo, onde o parecer para muitos tem mais importância do que o ser. No nosso grupo tanto eu como os mais antigos tentamos preservar, entre todos, ensinamentos transversais à figura do forcado amador como o respeito, entreajuda e não alimentamos presunção ou tentativas de superioridade. Aqui não abdicamos da regra do tratamento de todos por igual, qualquer elemento que esteja no grupo, independente das suas raízes familiares, aqui é igual aos outros, aqui incutimos que somos um grupo de irmãos e entre irmãos não existem egos ou superioridade, existe sim união, amizade, entreajuda e respeito mútuo. Esse é a postura que todos têm de adoptar e o seu comportamento tem de ir de encontro ao que aqui tentamos incutir, caso contrário a própria pessoa não se irá sentir bem nesta família e sem exclusão alguma da nossa parte, acabaria por se ir embora. Depois de uma forma natural tudo isto passa para fora e é levado para a vida de cada um dos que por cá passa.

Como convidas o público a esgotar a lotação permitida da Praça de Arruda dos Vinhos?

Vivemos numa altura em que a tauromaquia sofre de múltiplos ataques, essencialmente políticos, e o dia 25 é importante para os aficionados mostrarem a sua força e esgotarem as corridas que se derem, uma vez que no dia seguinte há eleições e a nossa força tem de ficar bem explícita.
Gostaria de convidar todos para assistirem à corrida da Arruda e ajudarem a elevar a nossa tauromaquia ao mesmo tempo que vivem a paixão que possam ter por esta cultura tão genuinamente nossa. Gostaria também de terminar agradecendo mais um vez a oportunidade facultada e apelando a todos os que estão neste meio, desde associações do sector, a intervenientes do espectáculo, até comunicação social do meio e aficionados para que se unam e procurem através do diálogo convergência de ideias essencialmente na defesa da nossa festa.

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