Quinta-feira, Setembro 16, 2021

Francisco Cortes e os 25 anos de alternativa: “Orgulho-me de ter sido uma pessoa séria”

Francisco Cortes encontra-se a celebrar 25 anos de alternativa, como cavaleiro tauromáquico. Foi na sua casa, em Estremoz, que recebeu o Infocul para uma conversa, na qual abordou o percurso, os sonhos, os ideais e a família.

Filho do Mestro José Maldonado Cortes, sobrinho do também cavaleiro profissional Afonso Maldonado Cortes, Francisco tomou a alternativa a 10 de Junho de 1995 na Praça de Touros Celestino Graça, em Santarém, na XII Corrida “Despertar” da Rádio Renascença.

Teve o seu pai como padrinho de alternativa, sendo testemunhas Paulo Caetano, Joaquim Bastinhas, António Telles, Rui Salvador e Luís Rouxinol. Nessa corrida actuaram, ainda, os forcados de Santarém, frente a touros das ganadarias Lima Monteiro, Joaquim Grave, Vinhas, Herds. Conde Cabral, Ortigão Costa, Manuel Coimbra e Santa Maria.

Francisco Cortes começou por nos dizer que “este ano que seria e foi muito importante para mim, em que celebro 25 anos de alternativa”, destacando que “foi um ano que ninguém estava à espera, com uma situação anómala”, e que por isso “gostaria de ter celebrado de outra maneira, com mais corridas, com uma forma de estar diferente, como é evidente”.

Ao longo destes 25 anos, destaca que “mudou muita coisa, mas logo à cabeça coloco o touro. O touro hoje em dia tem umas características completamente diferentes do que tinha nessa altura, o que é normal porque em tudo na vida há evolução” e “a aceitação que existia da tauromaquia, tendo em conta que hoje é menos aceite por considerável número de pessoas”.

Relembra que “quando eu comecei, e até antes, nem sequer se questionava a razão de existirem corridas. Gostava-se ou não se gostava. Sempre existiu pessoas contra, mas eram tão insignificantes que nem contavam”.

A tauromaquia ao longo da sua história tem sido alvo de inúmeros ataques. Com o decorrer dos anos e com o afastamento das pessoas da ruralidade e do contacto com os animais e com a realidade da própria natureza… Hoje em dia as pessoas são muito urbanas”, reforça.

E realça que “as pessoas podem gostar ou não da tauromaquia, como de qualquer outra coisa, agora tem é de haver o mínimo de conhecimento. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas que são contra a tauromaquia, não conhecem nem sabem o que é a vida no campo, do que é um touro bravo, um cavalo e todo o enquadramento”.

E explica que “a corrida de touros é o culminar dessa vida rural. Não cai aqui do nada. Tanto que as pessoas que maior ligação tem à tauromaquia são pessoas ligadas ao mundo real, diria assim”.

Numa viagem por estes 25 anos, disse-nos que “se calhar a sociedade foi perdendo valores e a tauromaquia não está imune ao contexto da sociedade. Actualmente a sociedade é menos ética, menos séria e isso depois acaba-se por reflectir na tauromaquia”.

E deixa o reparo, “antigamente existia pessoas que pensavam, que tentavam elevar a tauromaquia e hoje em dia não pensam elevar nada. Só pensam elevar é o volume do bolso”.

Até porque “é um meio muito complicado. Não há o menor apoio aos jovens. A qualidade de um empresário, quanto a mim, vê-se não só na organização das corridas, mas também pelos toureiros que lançam. E os empresários devem achar muita vez que um toureiro é um inimigo. Se um miúdo novo estiver a despontar, eles querem logo que o miúdo pague a quadrilha, o touro, pague isto, aquilo e aqueloutro. Quando um empresário ao investir num toureiro, está a investir nele próprio. Porque se não houver bons toureiros, as pessoas não vão às corridas”.

Orgulho-me de ao longo da minha vida ter percorrido sempre caminhos rectos. Na tauromaquia e não só. Orgulho-me de ter sido uma pessoa séria. Poder entrar em qualquer lado, com a cabeça erguida. Mas hoje em dia, isso não conta nada. Você pode ser o maior bandido que se tiver muito dinheiro, toda a gente lhe dá muita importância. Isto hoje está tudo diferente. Mas cada um deve viver consoante os seus ideais”, disse-nos

Defende que “a maior elegância é a simplicidade. (…) Hoje em dia, as pessoas vivem para as aparências”.

E relembrou o seu pai, que “transmite-nos valores, ainda hoje, mas sem palavras, porque o mais importante, acho eu, é o exemplo”.

Quando questionado se o nome Cortes o beneficiou ou prejudicou na tauromaquia, disse-nos que “terá havido situações em que me beneficiou, outras em que prejudicou. Se por um lado, o meu pai tinha aqui uma estruturada montada e conhecia toda a gente, por outro lado há sempre anticorpos que se criam. Há sempre a factura de ser filho de fulano tal, portanto há um outro tipo de exigência”.

Mas “sinto-me injustiçado. Nos últimos anos, a tauromaquia evoluiu, e se calhar esta situação nem foi pela melhor evolução, as corridas deixaram de se ganhar dentro da praça. Se me perguntar uma das coisas que eu teria feito diferente, seria essa. Eu acreditava, até porque vi exemplos disso, que era suficiente o triunfo dentro da praça. Acreditava e queria acreditar nisso. Mas hoje em dia é tão ou mais importante ser bom toureiro fora da praça, do que dentro. Porque hoje em dia são apenas trocas e baldrocas e uma pessoa se não entrar nesse tipo de jogos fica para trás. E há pessoas que não estão disponíveis para entrar nesse tipo de jogos”.

E disse ainda que “se calhar paguei bastante por nunca me ter ligado a esse tipo de grupos…

Os 25 anos de alternativa foram celebrados com a realização de uma corrida de touros em Estremoz, no passado dia 5 de Setembro.

Francisco Cortes explicou-nos que “a corrida vendeu 41% da lotação, por causa da distribuição dos lugares. Podíamos facilmente ter vendido o dobro da lotação porque houve uma procura enorme de entradas”, acrescentando que “o que mais me marcou foi o carinho que o público teve para comigo, sensibilizou-me. Eu nunca fui uma figura do toureio, nunca fui um toureiro de referência para ninguém, sentir-me acarinhado pelos meus e na minha terra foi das coisas que mais me marcou”.

Destaca o facto de terem enfrentado “uma ganadaria difícil, que muitos colegas meus recusaram tourear, do senhor João Branco Núncio, que também era muito amigo do meu avô e por isso eu fazia questão que ele também participasse nesta corrida”.

Sei que fiquei satisfeito com a minha actuação”, disse-nos, antes de acrescentar que “o meu filho teve uma excelente actuação, com um novilho da ganadaria Branco Núncio. Ele é um miúdo, tinha toureado apenas três vezes, mais uma vez correspondeu”, antes de elogiar as actuações dos restantes cavaleiros presentes na celebração.

Fora das arenas destaca o tempo dedicado à família, à leitura e aos cavalos.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias e Vídeo: Rute Nunes e Carlos Pedroso

A entrevista pode ser vista e ouvida, na íntegra, no link abaixo:

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