“In the Heights” ou quando um bairro típico de Nova Iorque floresce na Avenida da Liberdade, ao ritmo latino de canções que não deixam a nossa memória.
Texto: André Nunes e Rui Lavrador
Fotografia: EGEAC
A memória que antecede o palco
“In The Heights” ainda é um espetáculo amplamente reconhecido e, nos últimos anos, talvez mais pelo cinema do que pelo palco. A adaptação de “In The Heights” levou o universo da Broadway a um público muito mais vasto, num momento particularmente sensível: o pós-pandemia, quando regressar a uma sala espetáculo já um peso emocional que ultrapassava o próprio objeto artístico. Para muitos, foi um dos primeiros reencontros com a ideia de celebração coletiva.
Há, por isso, uma camada inevitável de nostalgia que antecede o espetáculo. Não apenas pela história, mas pela memória do contexto em que foi (re)descoberta: leveza, esperança, uma certa ideia de redenção, como se aquele bairro cantado fosse também um lugar de reconstrução emocional.
A música como impulso e respiração
A estrutura da criação de Lin-Manuel Miranda é dinâmica, densa, ritmada até ao limite. Há um compromisso claro com essa energia contínua, quase sem folga, onde a música empurra a narrativa e a narrativa devolve o impulso.
O espetáculo avança com intensidade, sem concessões fáceis. Os corpos estão sempre em movimento, as vozes projetam-se com precisão, e há uma consciência coletiva de fluxo – como se parar fosse trair a própria natureza da peça. E, no entanto, é precisamente quando abranda que tudo ganha outra espessura.
Esses momentos existem. Não são muitos, nem pretendem roubar protagonismo ao todo. Mas estão lá – e são decisivos.
E isso levanta uma questão silenciosa: é possível ver esta versão sem convocar o filme?
No original de “In the Heights”, Lin-Manuel Miranda assume o papel de Usnavi, figura central e narrador de um quotidiano feito de pequenos sonhos. Já no cinema, é Anthony Ramos quem ocupa esse lugar, com uma presença mais expansiva, mais cinematográfica — talvez mais acessível a um público global. Miranda surge, por sua vez, num gesto cúmplice: o vendedor de piráguas/granizados, num cameo que funciona como piscadela de olho para quem conhece a origem.
Entre estas duas versões, palco e ecrã, construiu-se uma expectativa.
A experiência no Teatro Variedades parte, inevitavelmente, dessa expectativa: a de ver ganhar corpo, ali, à nossa frente, um musical que muitos aprenderam primeiro a reconhecer no ecrã. Não apenas como narrativa, mas como sensação, como promessa de vida em coletivo.
E, ainda assim, o espetáculo consegue mais do que reproduzir essa memória. Há uma redescoberta do que “In The Heights” sempre foi na sua essência: uma história sobre comunidade, sobre pertença, sobre a forma como os sonhos individuais só fazem sentido quando partilhados.
O que esta encenação faz, com alguma subtileza, é recuperar esse sentimento: não apenas a leveza ou a energia, mas a ideia de recomeço. Como se aquele bairro voltasse a abrir portas — e nós, com ele.
Um bairro que volta a abrir as portas
O bairro voltou a abrir as suas portas e, mal entramos na sala do Teatro Variedades, começamos instintivamente a procurá-lo. Onde está a bodega de Usnavi? Onde se esconde o negócio de Kevin, o pai de Nina? E em que canto surge o carismático vendedor de piraguas, figura tão leve quanto inesquecível? Onde está o cabeleireiro das personagens mais “cuscas” mas mais de bom coração que Nova Iorque tem para oferecer?
Há um jogo quase ingénuo, no melhor sentido, de reconhecimento. Como se cada espectador trouxesse consigo um mapa incompleto de Washington Heights e tentasse, ali, reconstruí-lo peça a peça.
E, de repente, o Parque Mayer transforma-se numa espécie de Broadway improvável. Não uma réplica, mas uma tradução: um espaço lisboeta que se abre para um bairro nova-iorquino, onde viajamos sem sair do lugar. Mais do que revisitar a história de “In The Heights”, há aqui uma vontade de a redescobrir, agora ao vivo, agora em corpo presente.
E talvez seja isso que mais nos prende: não sabemos exatamente o que vai acontecer, mesmo julgando que sabemos tudo. Queremos ver como estas personagens, que já são nossas, respiram fora do ecrã. E queremos ver o que estão a fazer, e como sairão no final.
A profundidade que já estava no material
Esta produção entende com clareza que não há necessidade de domesticar In the Heights para o tornar “mais profundo”.
Ou seja, a profundidade já está inscrita no próprio material – só precisa de espaço para emergir. E esse espaço surge nesses interstícios, nesses breves desalinhamentos entre música e silêncio.
O mérito está no equilíbrio. O espetáculo é, como deve ser, vibrante e intenso. Mas não se esgota nisso. Sabe que, para que o movimento tenha impacto, alguém tem de o contrariar por instantes.
Sabe que a respiração não é uma quebra , é o que permite continuar.
Lisboa como tradução de Nova Iorque
De forma geral, e até ao mais pequeno detalhe, esta encenação de “In the Heights” aproxima-se de uma adaptação notavelmente conseguida para a língua de Camões. Não apenas na tradução literal, mas na capacidade mais difícil: fazer com que Washington Heights exista, ali, diante de nós, como espaço vivido.
E existe em duas dimensões. Por um lado, o bairro real, com o seu quotidiano pulsante; por outro, o bairro mítico do musical, habitado por personagens que o público já reconhece e transporta consigo. Essa sobreposição nunca se perde, e isso deve-se, em grande parte, a um trabalho cenográfico eficaz, que consegue multiplicar espaços sem quebrar a orientação do espectador.
Estamos sempre naquele bairro. E isso é essencial.
Mas essa sensação não nasce apenas do cenário. Estende-se à encenação, aos ritmos, à forma como o espetáculo respira em coletivo. Há uma consciência clara de que estas personagens vivem de sonhos adiados, de dúvidas constantes, mas também de uma alegria resistente, quase teimosa, que só faz sentido dentro de uma comunidade.
Nesse ponto, o espetáculo acerta em cheio.
Musicalmente, a fidelidade é evidente. As canções mantêm-se reconhecíveis, próximas tanto da versão da Broadway como da adaptação cinematográfica, e a presença de banda ao vivo reforça essa continuidade sem a tornar mecânica. Não há aqui uma reinvenção, mas também não há perda: o que o público conhece permanece intacto, agora com corpo e proximidade. E os arranjos musicais não podiam estar mais iguais.
Lisboa transformada em Washington Heights
Talvez o maior risco estivesse noutro lado: na linguagem.
Washington Heights é, acima de tudo, um cruzamento de culturas — latina, afro-americana, nova-iorquina — onde convivem heranças de países como Porto Rico, República Dominicana ou Cuba, filtradas por gerações de imigração. Traduzir isto de forma literal seria esvaziá-lo; ignorar essa diversidade seria traí-lo.
A solução encontrada evita ambos os extremos. Em vez de uma tradução rígida, opta-se por uma adaptação que mistura registos, preservando expressões originais, cruzando-as com referências mais próximas do contexto lisboeta, e criando um efeito curioso: o de um bairro que, sem deixar de ser nova-iorquino, se torna estranhamente reconhecível.
Há aqui ecos de bairros de Lisboa, onde diferentes gerações e culturas também reinventam a língua todos os dias.
E é nesse equilíbrio, entre fidelidade e adaptação, que o espetáculo encontra uma das suas maiores forças.
Uma língua híbrida, um bairro vivo
Por isso, o que encontramos em palco é uma linguagem híbrida, viva. Convivem expressões hispânicas, marcas do inglês urbano norte-americano e até ecos de bairros lisboetas, criando um discurso que nunca soa artificial. Pelo contrário: soa habitado.
As rimas do original de “In The Heights” surgem respeitadas sempre que possível, mas sem sacrificar a naturalidade — e é nesse equilíbrio que o espetáculo ganha terreno. Não se limita a traduzir; recria. E talvez seja aí que esta adaptação mais se distingue: na capacidade de fazer da língua não uma barreira, mas um ponto de encontro entre culturas, ritmos e identidades.
O centro humano: Usnavi e Abuela Claudia
No centro de tudo, o Usnavi desta produção revela uma construção particularmente eficaz. O ator Gonçalo Rosales consegue captar a matriz deixada por Lin-Manuel Miranda, com expressões e maneirismo do mesmo, e até a energia de Anthony Ramos da versão cinematográfica. Há, nos seus gestos, na cadência da fala e nos pequenos maneirismos, um equilíbrio entre homenagem e apropriação.
Já Luísa Sobral oferece um dos momentos mais sólidos do espetáculo. Na pele de Abuela Claudia, constrói uma presença que ultrapassa a própria fisicalidade: mais velha, mais cansada, mas nunca fragilizada. Há nela um peso, um gravitas, que sustenta o bairro inteiro. É ela o ethos e o páthos daquele bairro típico.
Mais do que uma personagem, Abuela Claudia surge aqui como eixo emocional. É memória, é resistência, é continuidade. Uma espécie de consciência coletiva que observa, reage e, sobretudo, legitima os outros. E é precisamente na forma como interage com as restantes personagens que percebemos a sua centralidade: não precisa de dominar a cena para a comandar.
O coração invisível da comunidade
É o coração e a alma daquele Washington Heights recriado em palco.
A sua interpretação é de tal forma intensa que sentimos verdadeiramente a ausência quando a personagem desaparece. Não é apenas uma saída de cena, é um vazio. Fica o peso, a importância, o legado quase esmagador de quem sustentava aquele bairro.
Em “Alabanza”, o momento de luto coletivo, essa dimensão torna-se ainda mais evidente. Percebemos, através de cada personagem, a marca que deixou, nas palavras, nos silêncios, na forma como o bairro parece, por instantes, perder o seu centro.
E não são só eles. Também nós, enquanto espectadores, somos apanhados nesse impacto.
Quando Luísa Cruz, como “abuela”, deixa cair “paciência e fé”, o espetáculo não pára, mas desloca-se. Há uma suspensão breve, quase impercetível, onde o ritmo não desaparece – reorganiza-se. A intensidade mantém-se, mas já não é exterior; torna-se interna. O que até então era expansão passa a ser contenção.
Há outros instantes assim: pequenas fissuras no contínuo energético, onde a luz parece demorar mais um segundo, onde uma voz não se apressa a sair, onde o coletivo se contrai para dar lugar ao singular. Não são pausas no sentido clássico – são respirações. E funcionam precisamente porque o resto não abdica da velocidade.
Destaca-se ainda, pelas parecenças com os originais, Margarida Silva (Vanessa), Pedro Nuno (Benny) e Ludmilla Guimarães (Nina)
A vida como história partilhada
Acima de tudo, “In the Heights” não é apenas um musical sobre o que é casa, é um musical sobre a sua reconstrução. Sobre questionar o que significa pertencer e, mais ainda, o que decidimos fazer com esse lugar.
Usnavi percebe isso no final. Ficar em Nova Iorque deixa de ser uma ausência de alternativa e passa a ser uma escolha. É ali que amou, que cuidou, que cresceu, é ali que a sua história se entrelaça com a dos outros. E, nesse gesto, o musical revela outra das suas camadas: a urgência de contar histórias.
Porque este é, também, um espetáculo sobre memória. Sobre o quotidiano elevado a narrativa: as pequenas vitórias, as fragilidades, os gestos quase invisíveis que, ainda assim, constroem identidade. Sejam histórias de imigrantes ou não, o que está em causa é a recusa do esquecimento. É saber que a história de cada um tece o grande lençol humano que é a comunidade, que é o conjunto das histórias que fazem girar o mundo, que é a diversidade, que é… o ritmo da vida, bem ao estilo latino.
Até o mais banal dos dias carrega em si uma história digna de ser contada.
A casa como escolha, não destino
E é por isso que Usnavi fica. Não para ser herói, mas para ser presença. No início, vê-se como alguém parado, quase irrelevante, um candeeiro que não sai do lugar. No final, transforma essa imagem: percebe que é precisamente esse candeeiro que ilumina a rua.
Ficar torna-se, assim, um ato de continuidade, de dar luz a quem chega, de preservar o que vem de trás, de criar espaço para que outros sonhem. O chamado “sonho americano” já não surge como promessa isolada, mas como algo híbrido, construído entre culturas, memórias e vontades.
E, nesse equilíbrio, Usnavi encontra finalmente o seu lugar.
“Finale”
No renovado Variedades, o espetáculo facilmente nos transporta de um bairro latino americano, para um dos bairros lisboetas na época contemporânea.
Entre a luta por uma vida melhor, o apego às raízes e até o sonho do regresso a casa, a luta é o fio condutor.Fica a pergunta – onde é afinal a nossa casa? – e cada pessoa terá a sua. Mas independentemente da geografia, será certamente sempre junto daquilo ou daqueles que nos fazem sentido.
Destacar a encenação de Sissi Martins, as coreografias de Marco Mercier e ainda o extraordinário desempenho do elenco – que vai aumentando qualitativamente a performance enquanto o espectáculo se desenrola.

