João Mota quebra silêncio sobre o peso da Casa dos Segredos: “Há uma mochila sempre pesada”

João Mota quebra silêncio sobre o peso da Casa dos Segredos: “Há uma mochila sempre pesada”, afirmou.

Há vitórias que dão fama. Outras deixam uma “mochila”. João Mota sabe bem o que é carregar as duas coisas.

Catorze anos depois de ter entrado na “Casa dos Segredos”, o ator esteve no “Dois às 10”, da TVI, à conversa com Cláudio Ramos. Falou da representação, do preconceito associado aos reality shows, do novo livro e da fase mais íntima da sua vida.

Além disso, revelou que vai ser pai de um menino.

O estigma que fica depois da televisão

A conversa ganhou peso quando Cláudio Ramos quis saber como João Mota lida, hoje, com o facto de continuar a ser associado ao reality show da TVI.

O apresentador perguntou: “Chateia-te que as pessoas de vez em quando digam: ‘Olha o João que ganhou a Casa dos Segredos?’”.

João Mota garantiu que não se incomoda com o reconhecimento do público. Pelo contrário, vê nesse contacto uma forma de proximidade.

O ator explicou: “Não, eu não me chateio, sabes porquê? Porque isso me aproxima das pessoas. Muitas delas dizem: ‘Ah, eu lembro-me de ti, daquela fase, e depois fazias-me companhia’. Verdade. E isso é uma coisa que, eu vou dizer o que é que me chateia. Eu chateio que me desqualifiquem as pessoas. Porque as pessoas não são mais nem menos por terem tido uma experiência”.

A frase abriu uma discussão mais profunda sobre a forma como antigos concorrentes são, muitas vezes, avaliados antes de mostrarem trabalho.

E, convenhamos, Portugal gosta muito de dar oportunidades. Desde que a pessoa venha do sítio certo, com o carimbo certo e sem passado televisivo para incomodar.

“Há uma mochila sempre pesada”

Cláudio Ramos insistiu no tema e perguntou se João Mota ainda sente preconceito por ter passado por um reality show.

O apresentador questionou: “E sentes isso? Há um preconceito ainda e sentes isso?“.

João Mota respondeu com cautela. Não falou de uma rejeição direta, mas de um peso mais subtil.

O ator afirmou: “Eu explicitamente nunca senti, sou honesto. Mas não tem a ver só comigo diretamente, tem a ver com tudo. Eu explicitamente, naquilo que foi o meu percurso, principalmente como ator, eu sempre senti um carinho gigante, mas implicitamente há um estigma associado, não é?”.

Cláudio Ramos, que também passou por formatos de reality show, acompanhou a reflexão e acrescentou: “Também não é com o que nós fazemos, porque eu também passei por lá, não é muito com o que nós fazemos depois de lá sairmos?”.

João Mota concordou, mas deixou claro que o rótulo pode seguir uma pessoa durante muito tempo.

O ator rematou: “Sim, claramente, mas eu acho que há uma mochila sempre pesada, não é? Parece que as pessoas têm menos direito de ser isto ou aquilo. Percebes? E tu tens o direito de ser apresentador e de ser brilhante no que fazes e de cresceres, porque repara, a forma como te colocas por ter participado num reality show não é que tu tens o direito de ser mais que os outros, mas também não te tira a oportunidade de fazeres o que quiseres da tua vida. Essa liberdade para existir e para poderes desempenhar, crescer e ganhar competência numa determinada área. E eu, essa desqualificação é que eu não gosto”.

A ideia ficou no ar. O problema não é ser lembrado. O problema é ser diminuído por aquilo que se viveu.

Catorze anos depois da Casa dos Segredos

O passado televisivo voltou a ser enquadrado quando Cláudio Ramos quis perceber o que a experiência significou, agora com distância.

O apresentador perguntou: “Mas uma pessoa que estudou Psicologia, passar por um reality, agora a esta distância, serviu-te para quê? A esta distância?”.

João Mota olhou para esse capítulo com serenidade. E, apesar dos desafios, assumiu que a experiência o ajudou a crescer.

O ator respondeu: “Com o que tu sabes? Excelente pergunta, sim. Eu olho para essa experiência com muito carinho, sabes? Porque eu acho que hoje em dia eu sou muito melhor pessoa por ter passado por essa experiência. Foi uma experiência que me trouxe muitos desafios. Que eu não sei se outro caminho na minha vida me teria colocado nesses territórios. E, portanto, trouxe-me, acho que me trouxe crescimento, trouxe-me pessoas, e a vida é sobre isso, não é? E, portanto, passaram 14 anos”.

Cláudio Ramos sublinhou a passagem do tempo: “14 anos“.

João Mota repetiu: “14 anos”.

O número parece simples, mas diz muito. Entre o jovem que entrou na casa mais vigiada do país e o homem que agora fala de livros, paternidade e psicologia, há um caminho largo.

A representação e os encontros que ficaram

Antes de falar do livro, João Mota revisitou também o percurso como ator. A carreira permitiu-lhe viver experiências que descreve como marcantes, sobretudo do ponto de vista humano.

O convidado partilhou: “Enquanto ator, eu vivi coisas maravilhosas. Há momentos que eu vivi que na altura eu pensei: ‘Ai, se calhar nunca mais vou voltar a viver isto, porque isto é tão bom’. Do ponto de vista humano, aquilo que eu pude viver em alguns projetos foi maravilhoso. Poder contactar com pessoas que algumas já não estão entre nós, mas que de uma humanidade indescritível”.

A declaração mostrou um João Mota menos preso à ideia de carreira como lista de trabalhos. Falou antes de pessoas, encontros e memória.

Talvez seja aí que o percurso se afaste do rótulo fácil. Há quem veja apenas o ex-concorrente. Ele parece preferir lembrar o que foi construindo depois.

Um livro íntimo, biográfico e feito para conversar

João Mota apresentou também o seu novo projeto literário. Cláudio Ramos introduziu o tema depois da conversa sobre estigma e percurso.

O apresentador disse: “Irrita sempre um bocadinho. Eu tento fingir que ela não acontece. Onde é que tu vais estar com o teu livro? Ele cai à venda em todos os lugares, claro”.

João explicou que a obra cruza memória, intimidade e narrativa pessoal.

O autor afirmou: “Sim, sim. Este livro é um bocadinho sobre isto tudo. Não é um romance, mas as pessoas podem efetivamente ler como se fosse. Esta questão das histórias naturalmente vai surgir, porque as pessoas que me conhecem, que me acompanham há algum tempo, vão reconhecer algumas das histórias”.

Cláudio Ramos observou: “Porque é muito biográfico”.

João Mota confirmou: “É biográfico. É muito íntimo, apesar de levar, ter aí uma narrativa, não é? As pessoas podem ler, não tem um fio condutor, tem vários. E, portanto é com muito carinho que vou estar na Feira do Livro, no dia 10 de junho, às 6:30, para o lançamento. E, portanto, acima de tudo gostava que quem tivesse interesse que lá estivesse para podermos conversar um pouco”.

Depois, o ator descreveu a forma como gostaria que o livro fosse lido.

João Mota explicou: “Um bocadinho sobre isto e sobre o que quiserem, que é uma coisa que eu gosto imenso. Eu quero que as pessoas leiam este livro como se estivéssemos a beber um café num bairro qualquer e a falar sobre as relações e sobre o amor”.

Cláudio Ramos resumiu: “O que tu gostas de fazer é conversar”.

E João confirmou, sem floreados: “O que eu gosto de fazer é conversar”.

“É um menino”

A entrevista guardou ainda uma novidade feliz para o final. João Mota confirmou que vai ser pai e revelou o sexo do bebé.

Cláudio Ramos abriu a porta ao momento: “Olha, eu não sei se te espera um filho ou uma filha, não sei se tu queres dizer”.

João Mota respondeu de imediato: “É um menino”.

O apresentador reagiu com uma surpresa preparada em estúdio: “É um menino? Olha, tenho um presente, temos um presente para ti”.

João agradeceu: “Oh, muito obrigado!”.

Cláudio explicou o gesto: “Muito obrigado! Para tu levares para a tua casa”.

O ator, entusiasmado, perguntou: “Muito obrigado! Queres que abra já?”.

O momento trouxe leveza à conversa. Depois de falar de estigmas, carreira e livros, João Mota surgiu ali como futuro pai. Sem personagem. Sem defesa. Apenas feliz.

Cláudio Ramos deixa elogio ao percurso de João Mota

Já na despedida, Cláudio Ramos fez questão de deixar uma mensagem de carinho ao convidado. Antes disso, explicou também a ausência de Cristina Ferreira.

O apresentador disse: “Podes abrir, podes abrir. É uma pequena lembrança. Para te lembrares quando olhares que passaste por aqui. Aqui a casa te agradece muito por tudo. Esta casa sempre parece-me um ponto assento. Recebo um beijo da Cristina que está hoje…”.

João Mota interrompeu com uma nota afetuosa: “Sim, com muita pena que não está cá hoje”.

Cláudio justificou: “Exatamente, que está a trabalhar por causa da gala do domingo. E tem administração”.

João voltou a agradecer: “Oh, muito obrigado”.

Por fim, Cláudio Ramos elogiou a forma como João Mota construiu caminho depois da “Casa dos Segredos”.

O apresentador afirmou: “Obrigado, filho. Olha, eu gosto muito de ti, já tinha dito várias vezes. Acho que o teu caminho foi notável, irrepreensível desde o momento que saíste. Acho que tiveste tu particularmente de dar uma volta gigante para que as pessoas olhassem para ti como um profissional e parece-me evidente que conseguiste. Obrigado, João. Obrigado, Cláudio. Boa sorte com o livro. E na Feira do Livro, no próximo dia 10, a feira já sabe, acontece no Parque Eduardo VII. Que horas?”.

João Mota respondeu: “6:30″.

Assim, a passagem pelo “Dois às 10” acabou por mostrar várias camadas do mesmo percurso. O ex-concorrente que venceu um reality show. O ator que procurou afirmar-se. O autor que quer conversar sobre amor. E o homem que se prepara para ser pai.

Catorze anos depois, João Mota continua a ser lembrado pela “Casa dos Segredos”. Mas talvez a entrevista tenha deixado outra ideia: uma casa pode lançar uma pessoa, mas não tem de a definir para sempre.

Leia também: João Mota vai ser pai pela primeira vez e revela sexo do bebé em direto na TVI

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