Nuno Markl leva AVC ao cinema e prepara filme: “A coisa mais pessoal que fiz e que farei na vida”, assinalou.
A 17.ª versão do guião foi, afinal, a que encontrou o coração da história.
Nuno Markl prepara-se para se estrear na realização com um filme que nasce do universo de “O Homem Que Mordeu o Cão”, mas que vai muito além da rubrica de rádio. Em entrevista telefónica exclusiva à SIC, o humorista e locutor revelou detalhes do projeto apresentado nos Encontros do Cinema Português, em Lisboa.
O filme deverá chegar às salas em 2027 e terá como base um dos períodos mais delicados da vida de Markl: o internamento após o AVC que sofreu.
Um guião que só encaixou depois do AVC
O projeto de cinema de Nuno Markl “já tem dois ou três anos”, mas demorou a encontrar a forma certa.
O próprio admite que o guião passou por várias mudanças até chegar ao ponto atual. Está, neste momento, na “17.ª versão”.
Antes, segundo contou à SIC, a história era “muito mais simples e não tão interessante”. Parecia uma “compilação de curtas-metragens”, sem uma linha emocional suficientemente forte.
Faltava-lhe, nas palavras do autor, “a argamassa para ligar tudo”.
Essa peça acabou por surgir de um lugar improvável: a experiência do AVC e tudo o que viveu durante o internamento.
Markl explicou: “Olhei para a minha situação, para os elementos cómicos sobre tudo o que me aconteceu e o puzzle encaixou todo”.
A partir daí, a história deixou de ser apenas uma sucessão de episódios. Passou a ter um centro.
A rádio, a prisão criativa e a vontade de mostrar mais
Apesar de manter ligação ao imaginário de “O Homem Que Mordeu o Cão”, Nuno Markl quer usar o filme para abrir outra porta.
O humorista confessou que, antes do AVC, já sentia necessidade de se libertar do peso da rubrica que marcou a sua carreira.
À SIC, contou: “Antes do AVC, há vários anos, falei com o psicoterapeuta porque me sentia aprisionado na rubrica”.
Depois, foi ainda mais claro sobre a relação com esse universo: “Vivi refém de ‘O Homem Que Mordeu o Cão’, mas está na altura de mostrar que tenho mais coisas para contar”.
A frase ajuda a perceber a ambição do projeto. Nuno Markl não está apenas a adaptar uma marca popular ao cinema. Está também a tentar mostrar outro território criativo.
E isso, para quem viveu anos associado a um formato tão reconhecível, é quase uma segunda estreia.
O hospital como eixo da narrativa
O período de internamento terá um papel central no filme.
Markl revelou que a experiência no hospital vai funcionar como a estrutura emocional da longa-metragem.
O autor explicou: “Cheguei à conclusão de que a saga do hospital vai ser a argamassa de todo o filme”.
A expressão não surge por acaso. Aquilo que antes faltava ao guião passou a estar ali: na vulnerabilidade, nos episódios vividos, nas pessoas que o acompanharam e nos elementos cómicos encontrados dentro de uma situação difícil.
Por isso, o humorista descreve o filme como “a coisa mais pessoal que fiz e que farei na vida”.
A rodagem está prevista para arrancar em meados de setembro e deverá prolongar-se durante cerca de um mês e meio.
Profissionais de saúde vão aparecer no filme
Um dos detalhes mais invulgares do projeto está no elenco.
Além de atores, o filme contará com “pessoas reais, que cuidaram de mim no hospital”. Entre elas estarão profissionais ligados ao Hospital do Mar, em Cascais, onde Nuno Markl continua a fazer tratamentos de recuperação.
A presença destas pessoas reforça o carácter íntimo do projeto. Não será apenas uma recriação distante. Haverá rostos reais de uma fase que marcou a vida do humorista.
Nos Encontros do Cinema Português, organizados pela NOS Audiovisuais, Markl apresentou o projeto com o apoio dos produtores Sérgio Graciano e José Amaral.
Mais tarde, nas redes sociais, descreveu o momento de descer os degraus até à zona do ecrã, numa sala de cinema do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, com o pé esquerdo a tremer “tipo o coelhinho Tambor, do Bambi”.
O detalhe mostra bem a mistura de esforço físico, emoção e humor com que o projeto tem sido vivido.
Um “exército de nomes” e Rui Melo na direção de atores
O elenco ainda não foi revelado em detalhe, mas Nuno Markl promete várias presenças.
O humorista fala num “exército de nomes” e contará com a direção de atores de Rui Melo.
A história acompanhará “um gajo que se questiona se ainda sente paixão pela rádio”, num percurso que deverá cruzar humor, crise, memória e reinvenção.
Markl antecipa momentos “hilariantes” e “coisas absolutamente loucas”, mas sublinha uma preocupação essencial: a comédia deve nascer da situação, não de uma procura forçada pela piada.
Segundo explicou, apesar das “coisas surreais” do guião, os intérpretes “não estarão a agir para a piada”.
Esse tom tem sido uma das maiores dificuldades do processo. Fazer comédia a partir de uma experiência séria exige equilíbrio. E Markl sabe-o.
Por isso, assumiu: “Deus me ajude”.
Depois, reconheceu que tem sido “um desafio, encontrar o tom certo”.
Estreia prevista para 2027
O filme de Nuno Markl tem estreia prevista para 2027.
Até lá, o projeto seguirá para rodagem em setembro, depois de um processo longo de escrita, reescrita e procura pelo centro da história.
O AVC, que poderia ter ficado apenas como episódio doloroso, tornou-se matéria narrativa. A rádio continua presente, mas já não como prisão. E “O Homem Que Mordeu o Cão” surge como ponto de partida, não como limite.
Nuno Markl quer contar mais. E, desta vez, escolheu o cinema para o fazer.
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