Pedro Chagas Freitas elogia Rafael Leão e Gonçalo Ramos e deixa dura crítica: “Só se protege uma mulher depois de ela morrer”, disse.
Pedro Chagas Freitas tem passado por vários assuntos nas mais recentes reflexões partilhadas nas redes sociais. Do amor ao futebol, sem esquecer a violência e as falhas que aponta às instituições, o escritor voltou a escrever sem grandes rodeios.
Rafael Leão e Gonçalo Ramos estiveram entre os protagonistas das suas palavras. Dois jogadores diferentes, vistos pelo autor a partir de ângulos igualmente distintos.
Porém, nem tudo passou pelo futebol. Pedro Chagas Freitas escreveu ainda sobre o medo de arriscar, o ressentimento e o caso de uma mulher que, segundo o relato publicado, procurou ajuda após episódios de violência.
Um manifesto contra a vida vivida pela metade
Uma das reflexões de Pedro Chagas Freitas começa quase como uma ordem: “Despreza.”
A partir daí, o escritor constrói uma rejeição àquilo que considera morno, insuficiente ou incapaz de provocar emoção. O alvo não é apenas uma relação amorosa. É também uma forma de viver.
No texto, escreve sobre quem promete um futuro indefinido e responde com “quem sabe um dia?” ou “claro que sim mas agora não, que não dá”.
A ideia vai ganhando força à medida que a publicação avança. Pedro Chagas Freitas rejeita aquilo que não provoca entusiasmo e não permite imaginar uma vida diferente.
“Aquilo que não te traz sonho, que não te traz ilusão, que não te permite tirar os pés do chão. Encaminha para o raio que o parta.”
Mais adiante, o escritor coloca também em causa os discursos dominados pelo medo e pelo excesso de prudência.
“O que te puxa para trás, o que te faz ter medo. Quem te diz ‘mas’ a toda a hora, quem só encontra problemas, quem é especialista em ‘contudos’.”
Nem sequer escapa a conhecida expressão “quem te avisa teu amigo é”, incluída pelo autor entre aquilo que pode travar escolhas, mudanças ou impulsos.
No fundo, a reflexão olha para a vida demasiado calculada com desconfiança.
“Naquilo que é imutável, na incapacidade de sentir que o mundo todo pode mudar de um dia para o outro porque tu mesmo podes mudar todo de um dia para o outro.”
O texto termina no mesmo caminho. Pedro Chagas Freitas volta-se contra aquilo que, nas relações ou na própria vida, limita, proíbe e retira espaço para respirar.
“Aquilo que não tem amor incluído, aquilo que não tem emoção incluída, aquilo que é tão intelectual que só pode ser maquinal.”
Rafael Leão e uma ideia diferente de sucesso
Do campo emocional, Pedro Chagas Freitas passou para o futebol. E Rafael Leão mereceu uma declaração que vai muito além daquilo que o internacional português faz com a bola.
O escritor começa por olhar para uma característica que, para si, parece estar acima das estatísticas: a felicidade.
“É um craque da vida. Gosto dele porque me parece um puto feliz. Que merda interessa o resto quando se é feliz?”
Ao longo da reflexão, Pedro Chagas Freitas questiona a ideia de que Rafael Leão teria obrigatoriamente de trabalhar, sofrer ou concentrar-se mais para atingir outro patamar.
A pergunta do escritor é diferente: o que significa, afinal, ser mais?
“O que raios é ser mais? Acima da felicidade não conheço nada. Se é feliz assim, a fazer da profissão um sorriso, porque há-de ele querer trincar a língua, procurar o que não é?”
O texto acaba por transformar Rafael Leão num ponto de partida para uma reflexão maior sobre sucesso. Para Pedro Chagas Freitas, talvez exista uma obsessão excessiva pelos prémios, recordes e troféus.
“O Rafael Leão mostra-nos que somos sérios demais, quadradões demais. A melhor vida não é a que tem os melhores prémios; é a que tem as melhores emoções, as melhores sensações.”
O escritor olha para o jogador como alguém que não se limita ao papel tradicionalmente atribuído a um futebolista de topo. Destaca a música, a dança e o lado descontraído.
“Brinca na relva, brinca fora dela. Canta, dança, diverte-se, é aquilo que lhe apetece ser.”
A crítica, neste caso, parece estar menos direcionada para quem avalia o jogador e mais para a sociedade que define um único modelo de sucesso.
“Pode ser que quando o criticamos estejamos a criticar a nós mesmos, a este modo de vida que inventámos e que queremos impor a toda a gente.”
No fim, Pedro Chagas Freitas deixa um desejo simples ao jogador português: “Faz o que te fizer bem, Rafael. Diverte-te, e se possível diverte-nos.”
Gonçalo Ramos, o futebolista que existe para a equipa
A visão sobre Gonçalo Ramos parte de outro lugar. Não há aqui uma reflexão sobre felicidade, mas sobre disponibilidade, trabalho e ausência de ego.
Pedro Chagas Freitas começa por recuperar uma descrição de Luis Enrique sobre o avançado português.
“Se joga um minuto, joga muito bem. Se não está em campo, continua a ajudar a equipa.”
Para o escritor, o retrato acerta no essencial.
Pedro Chagas Freitas compara Gonçalo Ramos a figuras de outros tempos: um monge, um operário exemplar ou um soldado discreto. Alguém cujo trabalho pode não ser celebrado, mas torna-se necessário.
“Há nele uma maneira de existir que nos dias de hoje se tornou numa excentricidade: a disponibilidade total, a abdicação sem cálculo, o esforço até ao final, uma humildade em movimento.”
É precisamente essa ideia de trabalho invisível que domina a reflexão. O escritor contrapõe a entrega de Gonçalo Ramos a uma sociedade demasiado dependente do reconhecimento.
“A maior parte de nós só se entrega quando há plateia. Ele não. Ele corre quando ninguém repara, quando não há estatística. Vive para o desgaste, para o choque.”
Depois, a análise entra no próprio jogo. Pedro Chagas Freitas destaca um avançado que pressiona, corre para corrigir erros alheios e aceita o trabalho menos visível.
“É fácil amar quem resolve jogos. É mais difícil compreender quem impede que se percam.”
Na descrição do escritor, Gonçalo Ramos aparece como um jogador disponível independentemente do lugar que ocupa em cada partida.
“Quando joga, joga muito bem, e marca. Quando não joga, continua a existir para a equipa, sem ondas, sempre com um sorriso.”
Mais do que um elogio desportivo, o texto termina como uma reflexão social.
“A sua postura é um pregão de combate contra a ditadura do ego que está a consumir as vísceras da sociedade. Tenho pena de que não haja mais como ele.”
Um relato sobre violência e uma pergunta dirigida às instituições
Noutro tom completamente diferente, Pedro Chagas Freitas partilhou o relato de uma mulher que, segundo o texto, procurou proteção junto das autoridades.
Aqui, o escritor abandona o futebol e a reflexão sentimental para falar de violência, filhos e uma longa espera por respostas.
No relato publicado, escreve: “Ela fez uma queixa na PSP em setembro de 2023. No mesmo dia, voltou para casa. O agressor estava lá. ‘Não podemos fazer nada’, disseram-lhe.”
Segundo a mesma publicação, aquela seria a terceira denúncia e a queixa teria recebido quinze aditamentos posteriores.
Pedro Chagas Freitas coloca então uma pergunta dura: “Como se prova que alguém a tentou matar? Era suposto ter filmado a agressão em directo? Talvez com filtros do Instagram o sistema lhe prestasse atenção.”
O texto relata ainda um pedido de botão de pânico que, segundo o escritor, foi autorizado pelo tribunal, mas não teria chegado à mulher.
Também é descrito um período em que o alegado agressor terá desaparecido com os filhos durante um mês.
A resposta que, segundo a publicação, a mulher encontrou repetidamente foi: “Tem de esperar.”
Pedro Chagas Freitas reage com uma sequência de perguntas: “Esperar o quê? Que os filhos voltem? Que o medo passe? Que a raiva se dissolva em burocracia?”
O escritor descreve ainda uma audiência relacionada com a regulação parental. Segundo o seu relato, o pai não terá comparecido, alegando estar de férias com os filhos.
A mulher, refere, teria provas de que isso não correspondia à verdade. Ainda assim, escreve que a resposta recebida foi: “Não está cá. Voltamos a marcar.”
Pedro Chagas Freitas reage à situação com ironia amarga: “Voltaram a marcar. Como se fosse um jantar adiado e não a vida a derreter-se.”
Mais adiante, refere que a mulher vive sozinha com os dois filhos e assume todas as despesas. Relata ainda que o pai não paga pensão há mais de um ano.
Quando terá procurado a Segurança Social, segundo a publicação, recebeu outra resposta: “Fale com o tribunal.”
É neste ponto que Pedro Chagas Freitas resume aquilo que considera ser um bloqueio institucional: “É o círculo vicioso perfeito: todos os caminhos levam ao mesmo beco.”
No final, o escritor deixa uma das frases mais duras dos cinco textos: “No país onde vive, só se protege uma mulher depois de ela morrer. Até lá, espera-se.”
A reflexão fecha com um apelo à atenção pública.
“Ela, como tantas mulheres, não quer aplausos, não quer piedade; quer justiça. Se não puder ter justiça, que ao menos o país a ouça, que perceba que isto está a acontecer. Agora. E que não pode continuar a acontecer.”
Do ressentimento à imperfeição de todos
A última reflexão muda novamente de direção. Desta vez, Pedro Chagas Freitas escreve sobre culpa, ressentimento e a dificuldade de olhar para o passado sem dor.
Não há uma defesa da própria inocência. Pelo contrário, existe uma admissão de falha e de imperfeição.
“Se te feri, não foi com intenção. Se te fiz sofrer, não foi isso o que quis. Se não gostas de mim, tudo bem. Desejo-te o melhor.”
O escritor esclarece que esse desejo não nasce de superioridade moral. Parte antes de uma rejeição ao ódio, mesmo quando parece pequeno.
“Só porque acho que o ódio, mesmo o pequeno, é uma forma lenta de morte.”
Pedro Chagas Freitas admite compreender o ressentimento e a forma como este pode manter uma ligação ao passado. Contudo, alerta para o preço dessa escolha.
“O ressentimento é uma forma de calor, uma maneira de manter acesa a chama do que se perdeu. Não te equivoques: é ela que nos consome a nós.”
Mais do que pedir perdão, o texto assume o fracasso humano como parte da vida.
“Não somos bons, não somos maus; somos todos limitados, imperfeitos. A santidade é uma ficção inútil. Temos impulsos, medos. Fazemos o melhor que conseguimos.”
A reflexão prossegue sem tentar limpar as falhas.
“Falhamos muitas vezes, quase sempre, até. Magoamo-nos sem intenção, queremos amar e só conseguimos ferir. A vida acontece assim, desastrada, confusa, profundamente imperfeita, desesperadamente humana.”
No final, não existe um pedido para esquecer ou ultrapassar aquilo que aconteceu. Há apenas uma possibilidade deixada em aberto.
“Não te peço que ultrapasses nada. Um dia, se puderes, se conseguires, olha para o passado sem dor. Se não conseguires, não te julgo, não te culpo. Eu também não consegui. Fiz o que pude. E o que pude é o que ainda me liga à ideia de estar vivo.”
Entre Rafael Leão e Gonçalo Ramos, entre relações que limitam e ressentimentos que permanecem, Pedro Chagas Freitas atravessou universos diferentes nas suas palavras.
Há, porém, uma linha comum: a procura por formas de viver que não sejam dominadas pelo medo, pelo ego, pela indiferença ou por uma dor transformada em rotina.
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