Pedro Chagas Freitas emociona-se com carta de leitor que perdeu a filha: “Há dores que não podem ser lidas à velocidade normal”, afirmou.
Pedro Chagas Freitas partilhou nas redes sociais uma mensagem que recebeu de um leitor chamado Marcos. O testemunho fala de perda, de sobrevivência e da forma como a escrita pode, por vezes, servir de abrigo a quem atravessa a dor.
Na publicação, o escritor começou por mostrar as palavras enviadas pelo leitor, que perdeu a filha quando ela tinha oito anos. Depois, respondeu-lhe num texto íntimo, marcado por gratidão, comoção e uma ideia forte: continuar também pode ser um gesto de amor.
Uma mensagem atravessada pela perda
O leitor começou por revelar a dimensão da ausência que carrega. Na mensagem enviada a Pedro Chagas Freitas, Marcos contou que já vive há mais tempo sem a filha do que viveu com ela.
A carta, citada pelo escritor nas redes sociais, dizia: 𝗠𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗳𝗶𝗹𝗵𝗮 𝘀𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝗾𝘂𝗮𝗻𝗱𝗼 𝘁𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗼𝗶𝘁𝗼 𝗮𝗻𝗼𝘀 𝗲, 𝗵𝗼𝗷𝗲, 𝗲𝘀𝘁𝗼𝘂 𝗵𝗮́ 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺 𝗲𝗹𝗮 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗶𝘃𝗲 𝗰𝗼𝗺 𝗲𝗹𝗮. 𝗖𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗼 𝗮𝗻𝗱𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗲 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗻𝗱𝗼 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗼𝘀𝘀𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗱𝗮𝗿 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗼 𝗮𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗶𝗻𝘀𝗶𝘀𝘁𝗲 𝗲𝗺 𝗱𝗶𝘇𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀.
𝗟𝗲𝗿 𝘁𝘂𝗮𝘀 𝗽𝗼𝘀𝘁𝗮𝗴𝗲𝗻𝘀 𝗲́ 𝘂𝗺 𝗿𝗲𝗳𝘂́𝗴𝗶𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝗶𝗺! 𝗦𝗮𝗯𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝘂 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗲𝘀 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝘂𝗮𝘃𝗲 𝘀𝗶𝗻𝗳𝗼𝗻𝗶𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝗺𝗲 𝗱𝗶𝘇 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗱𝗲𝘀𝗶𝘀𝘁𝗶𝗿.
𝗦𝗮𝗯𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗺 𝘁𝘂𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗵𝗮́ 𝘂𝗺 𝘀𝗶𝗺𝗽𝗹𝗲𝘀 𝗲𝘅𝗲𝗺𝗽𝗹𝗮𝗿 𝗱𝗲𝘀𝘀𝗲 𝗹𝗶𝘃𝗿𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲 𝗲𝗻𝘃𝗶𝗼 𝗲́ 𝗺𝗼𝘁𝗶𝘃𝗼 𝗱𝗲 𝘀𝗼𝗿𝗿𝗶𝗿 𝗽𝗼𝗿 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 (𝗲 𝗽𝗼𝗿 𝗳𝗼𝗿𝗮) 𝗲 𝗼𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝗰𝗲́𝘂 𝘀𝗼́ 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗲𝗺𝗽𝗹𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.
𝗢𝗯𝗿𝗶𝗴𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝘁𝘂𝗱𝗼! 𝗗𝗲𝘂𝘀 𝘁𝗲 𝗮𝗯𝗲𝗻𝗰̧𝗼𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀! 𝗘́𝘀 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗰𝗶𝗮𝗹!
A mensagem tocou Pedro Chagas Freitas, que respondeu publicamente ao leitor.
“Há dores que não podem ser lidas à velocidade normal”
Na resposta, o escritor começou por reconhecer o peso da carta recebida. Pedro Chagas Freitas escreveu como quem leu devagar, precisamente por perceber que aquela dor exigia outro tempo.
O autor respondeu: 𝗠𝗲𝘂 𝗾𝘂𝗲𝗿𝗶𝗱𝗼 𝗠𝗮𝗿𝗰𝗼𝘀:
𝗮𝘀 𝘁𝘂𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮𝘀 𝘃𝗶𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗱𝗼 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗼 𝗹𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗼 𝗼𝗰𝗲𝗮𝗻𝗼. 𝗩𝗶𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗶𝗻𝘁𝗼𝗰𝗮𝗱𝗮𝘀, 𝗲 𝘀𝘂𝗷𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝘃𝗶𝗱𝗮.
𝗟𝗶-𝗮𝘀 𝗱𝗲𝘃𝗮𝗴𝗮𝗿. 𝗣𝗮𝗿𝗲𝗶 𝗮𝗹𝗴𝘂𝗺𝗮𝘀 𝘃𝗲𝘇𝗲𝘀, 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗲𝗶 𝗮𝗼 𝗶𝗻𝗶́𝗰𝗶𝗼. 𝗛𝗮́ 𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝗮̃𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗺 𝘀𝗲𝗿 𝗹𝗶𝗱𝗮𝘀 𝗮̀ 𝘃𝗲𝗹𝗼𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗻𝗼𝗿𝗺𝗮𝗹.
Depois, Pedro Chagas Freitas fixou-se numa frase concreta da mensagem de Marcos: “Continuo andando.” Para o escritor, era ali que estava a coragem maior.
O autor sublinhou: 𝗛𝗮́ 𝗮𝗹𝗴𝗼 𝗲𝘅𝘁𝗿𝗮𝗼𝗿𝗱𝗶𝗻𝗮́𝗿𝗶𝗼 𝗻𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝘀𝘁𝗲: 𝗻𝗮̃𝗼 𝗳𝗮𝗹𝗮𝘀𝘁𝗲 𝘀𝗼́ 𝗱𝗮 𝗮𝘂𝘀𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮; 𝗳𝗮𝗹𝗮𝘀𝘁𝗲 𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.
“𝗖𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗼 𝗮𝗻𝗱𝗮𝗻𝗱𝗼.”
𝗘́ 𝗮 𝗳𝗿𝗮𝘀𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗷𝗼𝘀𝗮 𝗱𝗲 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗰𝗮𝗿𝘁𝗮. 𝗩𝗶𝘃𝗲𝗿 𝗱𝗲𝗽𝗼𝗶𝘀 𝗱𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗮 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗺 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮 𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝘂𝗺 𝗮𝗰𝘁𝗼 𝗻𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹; 𝗲́ 𝘂𝗺𝗮 𝗱𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮̃𝗼.
A literatura como companhia na dor
Pedro Chagas Freitas admitiu ter ficado comovido com a ideia de que os seus textos funcionam como refúgio para o leitor.
Contudo, o escritor não apresentou a literatura como salvação. Preferiu falar dela como presença silenciosa, capaz de se sentar ao lado de alguém em sofrimento.
Na publicação, escreveu: 𝗙𝗶𝗾𝘂𝗲𝗶 𝗰𝗼𝗺𝗼𝘃𝗶𝗱𝗼, 𝘂𝗺 𝗽𝗼𝘂𝗰𝗼 𝗱𝗲𝘀𝗳𝗲𝗶𝘁𝗼, 𝗰𝗼𝗻𝗳𝗲𝘀𝘀𝗼, 𝗮𝗼 𝘀𝗮𝗯𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝘀 𝗮𝗯𝗿𝗶𝗴𝗼 𝗻𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗼. 𝗔 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝘁𝗲𝗺 𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗳𝘂𝗻𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗿𝗮𝗻𝗵𝗮: 𝗻𝗮̃𝗼 𝘀𝗮𝗹𝘃𝗮, 𝗻𝗮̃𝗼 𝗿𝗲𝘀𝘀𝘂𝘀𝗰𝗶𝘁𝗮; 𝗽𝗼𝗿 𝘃𝗲𝘇𝗲𝘀, 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗲𝗴𝘂𝗲 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿-𝘀𝗲 𝗮𝗼 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗼 𝗹𝗮𝗱𝗼 𝗲𝗻𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 𝘀𝗼𝗳𝗿𝗲𝗺𝗼𝘀. 𝗜𝘀𝘀𝗼 𝗷𝗮́ 𝗲́ 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼. 𝗦𝘂𝘀𝗽𝗲𝗶𝘁𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘀𝗲𝗷𝗮 𝘁𝘂𝗱𝗼 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗺 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗽𝗼𝗿 𝗻𝗼́𝘀 𝗻𝗲𝘀𝘁𝗮𝘀 𝗮𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝘀.
A resposta mostra também a consciência do escritor sobre o percurso das palavras. Escritas em solidão, podem encontrar leitores desconhecidos e tornar-se abrigo.
Pedro Chagas Freitas acrescentou: 𝗣𝗮𝘀𝘀𝗼 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗱𝗮 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝘃𝗶𝗱𝗮 𝘀𝗼𝘇𝗶𝗻𝗵𝗼, 𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝗿 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝘃𝗲𝗿𝗲𝗶. 𝗔𝘁𝗲́ 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗰𝗮𝗿𝘁𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗮 𝘁𝘂𝗮. 𝗔𝗶́ 𝗳𝗶𝗰𝗼 𝗮 𝘀𝗮𝗯𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮𝘀 𝗳𝗶𝘇𝗲𝗿𝗮𝗺 𝗮 𝘃𝗶𝗮𝗴𝗲𝗺, 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗮𝗿𝗮𝗺 𝘂𝗺𝗮 𝗰𝗮𝘀𝗮.
“A tua filha continua a existir”
Na parte final da publicação, Pedro Chagas Freitas deixou uma das passagens mais fortes do texto. O escritor falou da permanência da filha de Marcos não como fé ou esperança, mas como amor.
O autor escreveu: 𝗔 𝘁𝘂𝗮 𝗳𝗶𝗹𝗵𝗮 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝗮 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗶𝗿. 𝗡𝗮̃𝗼 𝘃𝗲𝗷𝗮𝘀 𝗻𝗶𝘀𝘁𝗼 𝗳𝗲́ 𝗼𝘂 𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮𝗻𝗰̧𝗮. 𝗩𝗲̂ 𝗮𝗺𝗼𝗿. 𝗢 𝗮𝗺𝗼𝗿 𝗽𝗼𝘀𝘀𝘂𝗶 𝘂𝗺𝗮 𝗺𝗮𝘁𝗲́𝗿𝗶𝗮 𝗽𝗿𝗼́𝗽𝗿𝗶𝗮, 𝗮𝗹𝘁𝗲𝗿𝗮 𝗮 𝗮𝗿𝗾𝘂𝗶𝘁𝗲𝗰𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗱𝗼 𝗿𝗲𝗮𝗹. 𝗘́ 𝗽𝗼𝗿 𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗰𝗮𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮𝘀.
Depois, terminou com um agradecimento ao leitor e à coragem de continuar.
Pedro Chagas Freitas rematou: 𝗢𝗯𝗿𝗶𝗴𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗰𝗼𝗻𝗳𝗶𝗮𝗻𝗰̧𝗮. 𝗢𝗯𝗿𝗶𝗴𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗶𝗹𝗵𝗮𝗿𝗲𝘀 𝗮 𝗱𝗼𝗿 𝗮𝗯𝘀𝗼𝗹𝘂𝘁𝗮, 𝗶𝗻𝗼𝗺𝗶𝗻𝗮́𝘃𝗲𝗹.
𝗢𝗯𝗿𝗶𝗴𝗮𝗱𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮𝗿𝗲𝘀.
Um texto sobre luto, amor e permanência
A publicação de Pedro Chagas Freitas transformou uma carta privada num momento público de partilha sobre o luto.
Sem apagar a dor de Marcos, o escritor devolveu-lhe uma leitura terna sobre a continuação, a memória e a presença do amor depois da perda.
Mais do que uma resposta, o texto tornou-se uma conversa entre quem escreve e quem encontra nas palavras uma forma de respirar. E, talvez por isso, a frase final tenha ficado como centro de tudo: continuar também é uma forma de amar.
Veja a publicação AQUI.

