Pedro Chagas Freitas escreve sobre mulheres que não se encolhem, bondade e resistência à dor

Pedro Chagas Freitas escreve sobre mulheres que não se encolhem, bondade e resistência à dor, nas redes sociais.

Pedro Chagas Freitas voltou a usar as redes sociais para publicar reflexões de forte impacto emocional. Em três textos distintos, o escritor falou sobre mulheres que recusam diminuir-se, sobre a relação entre maldade e ignorância, e sobre a capacidade de continuar mesmo quando a dor pesa.

As publicações cruzam temas muito presentes na escrita do autor: liberdade, caráter, amor, feridas e dignidade. Sem procurar suavizar as palavras, Pedro Chagas Freitas deixa uma defesa clara da autenticidade e da coragem de permanecer de pé.

Uma carta às mulheres que recusam desaparecer

Num dos textos, intitulado “Carta às mulheres que não se encolhem”, Pedro Chagas Freitas dirige-se diretamente às mulheres que não aceitam caber no espaço que outros lhes tentam impor.

O escritor começa por assumir que escreve movido por admiração e inveja da liberdade dessas mulheres.

“Escrevo-vos por inveja. Tenho inveja da vossa liberdade, da vossa coragem. Nunca foi fácil ser uma mulher que não baixa a voz, que não segue o guião. Acho que está pior, acho que está cada vez pior.”

A partir daí, o autor descreve o preço pago por quem não aceita tornar-se mais pequeno para ser aceite. Na sua leitura, a sociedade continua a punir mulheres que falam alto, pensam por si e recusam obedecer ao papel esperado.

“Há uma espécie de solidão em quem não se encolhe. Quem não se encolhe paga em comentários, em rótulos: se dizem o que pensam, são arrogantes; se não pedem licença, são prepotentes; se levantam a voz, são histéricas; se não aceitam o papel de figurantes, são problemáticas; se não são perfeitas, são uma vergonha.”

Depois, Pedro Chagas Freitas vai mais longe e aponta para uma ideia que atravessa o texto: a mulher socialmente mais aceite continua a ser a que incomoda menos.

“A mulher bem aceite continua a ser a que é suave, manejável, agradecida: contida. Quando não é, dizem que é complicada, dizem que com ela é tudo um drama. É a tentativa desesperada de domesticar quem não quer ceder.”

O escritor não deixa de sublinhar uma dimensão particularmente dura: muitas vezes, essa tentativa de controlo parte também de outras mulheres.

“Muitas vezes, quem quer domesticar estas mulheres são outras mulheres. É uma herança: décadas de treino para agradar não se desinstalam facilmente.”

Coragem, liberdade e o preço de não pedir licença

A reflexão continua com uma ideia central: viver de forma livre implica pagar custos. Para Pedro Chagas Freitas, quanto mais uma pessoa se aproxima da autenticidade, menos garantida está a aprovação geral.

“Escrevo-vos por inveja, já disse. A vossa coragem tem custos. Quando a autenticidade aumenta, a aprovação da maioria tende a diminuir.”

Ainda assim, o escritor defende que a liberdade verdadeira não pode depender da autorização dos outros.

“Eu acredito que só é livre quem não não passa a vida a pedir autorização para o ser. Uma mulher que não se encolhe obriga o resto a ajustar-se. A tradição odeia ajustes que não controla.”

Apesar do tom elogioso, Pedro Chagas Freitas não transforma estas mulheres em figuras perfeitas. Pelo contrário, reconhece-lhes falhas, exageros e erros.

“Não vos escrevo numa defesa cega. Vocês erram. Podem exagerar, podem falhar. Não acertam sempre, não estão sempre correctas no que fazem, no que dizem. Não deixam de ser aquilo que são. Não se diminuem.”

Para o autor, cada mulher que vê outra recusar diminuir-se percebe que também pode tentar viver assim, mesmo que nem todas queiram pagar esse preço.

“Tenho a certeza de que cada mulher que vê outra não se apequenar percebe que também podia: se tentasse, se quisesse, se arriscasse, se fosse. Nem todas vão querer pagar o preço. Saber que é possível já muda qualquer coisa.”

O texto termina com um pedido direto e sem filtro.

“Escrevo-vos, enfim, com um pedido simples: continuem. Esta porra toda não precisa de mulheres exemplares; precisa de mulheres que não desaparecem para permitir a paz podre do conforto alheio. Por favor, não desapareçam. Obrigado.”

Maldade, ódio e ignorância

Noutra publicação, Pedro Chagas Freitas faz uma reflexão mais curta, mas igualmente incisiva, sobre maldade e inteligência. O escritor começa por associar a maldade à incapacidade de ver o outro de forma mais profunda.

“Todas as más pessoas são burras. Pode ser por isso que são más pessoas. Por ignorância, por incapacidade, por não verem mais do que aquilo. A maldade é oca, básica, elementar, primitiva.”

Depois, o autor desloca a reflexão para o ódio. Na sua perspetiva, odiar é uma resposta pobre, preguiçosa e muitas vezes nascida do medo.

“Odiar é fácil. O contrário de ódio é conhecimento: quando conheço o outro, sou capaz de entender o outro, as acções do outro. O ódio pode muito bem ser uma espécie de medo descompensado, o lado irracional da resposta ao medo, uma coragem enlouquecida. Odiar é preguiçoso.”

Em contraste, Pedro Chagas Freitas apresenta o amor como uma escolha difícil, exigente e trabalhosa. Amar, para o escritor, pede atenção e inteligência.

“Amar é outra coisa. Amar exige trabalho, exige atenção, exige inteligência. Amar é um exercício difícil de compreender o outro, de compreender o mundo inteiro. Talvez por isso o amor seja tão raro.”

A conclusão surge como uma frase de síntese, quase aforística.

“Não há bondade sem inteligência. A bondade é uma das formas maiores de inteligência.”

Rir por fora quando se chora por dentro

O terceiro texto parte de uma imagem muito concreta: a capacidade de sorrir para os outros quando, por dentro, alguém está em queda. Pedro Chagas Freitas vê nisso uma forma de grandeza e de resistência.

“A grandeza de uma pessoa mede-se, muitas vezes, pela capacidade de rir para os outros quando está a chorar para si. Quando o mundo te estripa em silêncio e estendes um sorriso a alguém que precisa mais dele do que tu, és enorme.”

O escritor afasta a ideia de que esse sorriso seja fingimento. Pelo contrário, apresenta-o como uma forma de impedir que a dor se espalhe.

“Há nisso um tipo de dignidade que escapa aos manuais de autoajuda e aos coaches de Instagram. Eu já ri por fora quando só me apetecia desaparecer. Não é fingimento; é resistência. É não deixar que a dor alastre como vírus.”

Logo depois, a publicação vira-se para quem tenta destruir a felicidade dos outros. Pedro Chagas Freitas associa esse comportamento à frustração e à incapacidade de construir.

“Se queres frustrar a vida dos outros, estás frustrado. Ninguém feliz tenta sabotar a felicidade alheia. Os que passam a vida a cuspir amargura são os que não têm saliva para construir coisa nenhuma.”

Continuar apesar das feridas

Na parte final, Pedro Chagas Freitas deixa uma das imagens mais fortes do conjunto de textos. O escritor coloca cada pessoa entre aquilo que sofreu e aquilo que escolhe fazer com isso.

“Somos, todos, o espaço entre o que fizeram de nós e o que decidimos fazer com isso. Uns ficam a lamber feridas como troféus; outros levantam-se, coxos mas de pé, e continuam.”

A publicação termina num registo íntimo, quase confessional. O autor assume a fragilidade, mas também a transforma em matéria de escrita e sobrevivência.

“Eu continuo. Há dias em que me sinto um erro de fabrico. Depois lembro-me de que até os erros mais grotescos podem dar bons enredos. Eu estou a escrever o meu.”

Com estas três reflexões, Pedro Chagas Freitas volta a escrever sobre pessoas que resistem: mulheres que não desaparecem, seres humanos que escolhem amar em vez de odiar, e quem continua mesmo quando a vida parece ter falhado no desenho.

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