Xana Carvalho revela tentativa de suicídio, diagnóstico de bipolaridade e luta do marido pela vida no ‘Alta Definição’, ontem na SIC.
Xana Carvalho sentou-se diante de Daniel Oliveira e falou de tudo aquilo que, durante anos, tentou suportar em silêncio.
No ‘Alta Definição’, emitido pela SIC no sábado, 18 de julho, a cantora revisitou a infância, o casamento, a maternidade e o acidente que quase matou o marido. Contudo, o momento mais duro surgiu quando descreveu a depressão severa, a tentativa de suicídio e o internamento psiquiátrico.
Ao longo da entrevista, a artista falou ainda do diagnóstico de transtorno bipolar. Além disso, deixou um alerta contra o estigma que continua associado às doenças mentais.
“A Xana pequenina ainda mora dentro de mim”
Antes de falar dos momentos mais dolorosos da vida adulta, Xana Carvalho regressou à infância. A artista explicou que se vê como “a cantora, a filha, conjunto de todas essas pessoas”, sem esquecer “a menina também”.
Essa criança, garantiu, continua presente.
“Existem os sonhos dessa menina, alguma insegurança, a alegria também. A Xana pequenina ainda mora dentro de mim, sem dúvida”, contou.
A primeira memória levou-a até Santo António dos Cavaleiros, onde cresceu rodeada de outras crianças.
“Lembro-me da escola, dos meus amigos da rua. Morava num bairro com uns prédios enormes. E nós íamos todos brincar para a rua. Essa talvez seja das melhores memórias que eu tenho da minha infância, sem dúvida”, recordou.
No entanto, as lembranças felizes coexistem com experiências que deixaram marcas profundas. Xana Carvalho descreveu-se como “uma miúda muito sensível”, que se tornou mais fechada devido a “certas situações que iam acontecendo”.
A cantora não classifica a infância como triste. Ainda assim, considera que foi “um pouco marcante”, porque assistiu a “coisas que não deveria ver, que uma criança não deveria ver entre os pais”.
Discussões em casa fizeram nascer um medo permanente
Em casa, Xana Carvalho recorda “muitas discussões, situações até um pouco mais agressivas”. Por isso, aprendeu a permanecer em silêncio.
Segundo explicou, começou a “ficar mais tempo calada, porque às vezes o falar podia-me colocar em situações menos confortáveis ou menos seguras”.
O medo passou a acompanhar os seus gestos e emoções.
“Podiam acontecer situações em que podia começar a chorar porque alguém iria gritar, porque alguém iria dizer que não havia motivo para estar assim, mas existia”, explicou.
Assim, passou a controlar o que dizia e fazia, tentando evitar novos conflitos.
“Para mim, naquela altura, aquilo era a minha vida. Era assim que se vivia. Eu aprendi a sobreviver nesse ambiente em que se dissesse o que sentia ou era menosprezada ou talvez podia cair no ridículo”, revelou.
Xana Carvalho aprendeu igualmente a observar o ambiente e a antecipar o estado de espírito das pessoas. Sobretudo, tentava perceber o humor do pai antes de tomar qualquer decisão.
Essa necessidade de “ler bem o ambiente” não desapareceu com a idade.
Um estalo na escola agravou a sensação de insegurança
A entrada na escola também ficou ligada a uma experiência dolorosa. Xana Carvalho tinha apenas cinco anos quando começou a primeira classe.
“Em casa havia assim muitos gritos e algumas discussões entre os meus pais. Naquela altura, situações que me deixavam sempre com medo. E quando eu fui para a escola, a primeira coisa que aconteceu, talvez na primeira semana de escola, uma criança de cinco anos era normal distrair-se. E a professora deu-me um estalo e eu pensei, ‘okay, aqui também não é seguro’”, confidenciou.
Depois desse episódio, passou os anos seguintes a rejeitar a ida às aulas.
“Eu passei os quatro anos da primária a chorar todos os dias para ir para a escola, que eu não queria ir para a escola”, recordou.
Para a cantora, a vida parecia composta por “ambientes de risco”, onde não existia espaço para expressar aquilo que sentia.
“Havia sempre alguém que dizia, ‘mas tens que ir, estás a fingir, tens que ir como todas as outras crianças’. Mas eu sentia medo, porque na escola para mim não era um ambiente seguro”, desabafou.
Xana Carvalho admite dificuldade em contrariar outras pessoas
Embora tenha aprendido a conviver com esse receio, Xana Carvalho reconhece que o medo ainda influencia a forma como se relaciona.
“Ainda hoje eu acho que esse medo ainda vive dentro de mim. É uma coisa que eu tento combater, mas ainda mora, sabes? Em que às vezes torna-se difícil eu expor o meu ponto de vista ou se calhar até mesmo contrariar alguma situação”, assumiu.
Muitas vezes, surge o pensamento: “género: ‘não deves dizer, a pessoa pode não reagir bem’”.
Apesar disso, a cantora procura impedir que esse sentimento controle a sua vida.
“Acaba quase que ser uma característica, sabes? O medo está sempre aqui. Lógico que não me inibe de fazer as coisas, não me castra, mas está cá”, afirmou.
Quando Daniel Oliveira lhe perguntou onde encontrava amor durante a infância, Xana Carvalho apontou imediatamente para a mãe.
“Nos braços da mãe, no colo da mãe. Eu tentava sempre procurar os momentos certos para procurar o amor. Quando o meu pai estava bem disposto, estava tranquilo, eu conseguia aproximar-me um pouco mais dele. Com os amigos, com os pais dos amigos, na família, nos tios, nas tias, nos primos. Mas essencialmente era a mãe. A mãe tentava, dentro também da realidade dela, também era complicada, nós conseguíamos amarmo-nos uma à outra”, declarou.
João entrou na vida de Xana Carvalho aos 15 anos
Foi ainda durante a adolescência que Xana Carvalho conheceu João, o homem com quem viria a construir uma família.
“Muito novinha, sim. Eu comecei a namorar com o João, tinha 15 anos”, contou.
Na escola, João despertava a atenção de várias colegas. Xana lembra-se de pensar: “Ele era giro que se fartava”.
A cantora descreveu-o como um jovem de “cabelo comprido, loiro, olhos verdes, bem constituído fisicamente, talvez o menino mais giro lá do liceu”.
Havia, por isso, “muito furor nos intervalos”. Mesmo vendo-o rodeado de raparigas, Xana Carvalho estabeleceu um objetivo: “vai estar na minha mira”.
Além disso, não esperou que João tomasse a iniciativa.
“Fui eu, Daniel. Fui eu que pedi em namoro, fui eu que pedi em casamento”, revelou, entre risos.
Inicialmente, João “fez-se ali um bocado difícil”, atitude que lhe “começou a dar um bocado nos nervos”.
Xana começou então a perder o interesse.
“Bem, isto não vai durar muito tempo, que eu não tenho paciência para quem é muito convencido”, pensou.
Quando se afastou, João “começou a ficar aflito porque não queria dar o braço a torcer”. O jovem pediu a um amigo que descobrisse se ainda tinha alguma possibilidade.
O pedido de namoro começou com uma conversa “dramática”
Com João prestes a ingressar na Força Aérea, Xana Carvalho decidiu avançar: “Vou ter que ser eu a dar o primeiro passo”.
Hoje, classifica aquele pedido de namoro como “muito estranha” e “dramática, mas ao mesmo tempo ridículo”.
“Começou assim numa conversa de amigos: ‘Sabes, eu estou interessada num rapaz’. E ele, tipo, já assim a olhar para mim: ‘Tipo, já, oi, pronto, eu já fui de vela’. ‘Mas sabes, ele agora vai sair aqui da escola’. ‘Mas eu conheço esse rapaz’. E eu: ‘Conheces esse rapaz? És tu?’ Ele: ‘Sim’. E eu, à distância, pensei: ‘Que figuras é que eu fiz!’”, recordou.
Apesar da abordagem pouco convencional, o resultado foi positivo.
“Sim, funcionou, funcionou. Porque até hoje, coitado, não tem hipótese”, brincou.
O pedido de casamento também partiu da cantora, depois de oito anos de namoro.
“Só disse: ‘Olha, não achas? Quer dizer, 8 anos a namorar, eu também quero sair de casa, tipo, por que não?’”, contou.
Surpreendido, João perguntou-lhe se queria realmente casar.
“Eu disse: ‘Quero, quero vestir-me de noiva, que uma lua de mel, o que é que dizes?’ Ele: ‘Está bem’. Ele: ‘Sim, vamos casar’. E depois lá ficou mais empolgado, mas sinto que o João se sentiu um bocado pressionado, não teve hipótese”, acrescentou.
A gravidez trouxe “uma alegria imensa”
A notícia da primeira gravidez foi recebida com entusiasmo.
“Foi giro, olha, foi muito giro. Eu já fiquei louca de alegria, que eu queria muito ser mãe”, afirmou Xana Carvalho.
Ao receber o resultado positivo, não esperou pelo momento ideal para contar ao marido. João tinha acabado de sair de serviço e estava a dormir.
“Quando recebi o resultado dos testes que tinha feito na farmácia, pensei assim: ‘Ok, agora vou mesmo acordá-lo e dizer-lhe’”, relatou.
A cantora acordou-o de forma repentina.
“Acordei-o mesmo à bruta: ‘João!’ E o João, muito aflito: ‘O que é que foi?’”
Xana não estava preocupada com o cansaço do marido.
“Eu não queria saber, porque tinha de lhe dizer que estava grávida. Disse: ‘Olha, só para te dizer: vamos ser pais!’ E ele: ‘Vamos, bom, mas não é hoje, é se eu não dormisse?’ Eu disse: ‘Não, João, está aqui o resultado, vamos ser pais, estou grávida!’”, recordou.
Xana Carvalho viveu a gravidez com orgulho
Depois da “loucura” e da “alegria imensa”, surgiu também algum receio perante a responsabilidade da maternidade.
“Na altura há aquele momento em que tu ficas assustada, começas a pensar: ‘Ok, a partir de hoje já não vou ser só eu, vai existir agora uma criança que vai depender de mim, desta forma como eu sou, vou ter de estar bem sempre para esta criança’”, admitiu.
Contudo, o medo não retirou felicidade à gravidez.
“Pá, foi uma loucura! E adorei estar grávida, imensa, com um barrigão por todo o lado. Eu engravidei dos pés à cabeça, nariz enorme, os pés sempre muito inchados, mas eu andava feliz, Daniel. Eu andava a passear na minha barriga com orgulho, atravessava a estrada com orgulho, lá ia a bolinha, porque eu era mesmo uma bolinha. Estava super feliz, sempre, sempre, sempre”, contou.
O nascimento de Leonor, porém, não decorreu como tinha imaginado.
“Foi complicado o nascimento da Leonor. Muita confusão”, confessou.
A epidural não produziu o efeito esperado e as dores deixaram-na desorientada.
“Depois deixaram-me sozinha e eu queria estar com o João, queria que o João estivesse ao pé de mim. Foi assim um bocado atribulado”, explicou.
“O parto é um momento violento”, mas trouxe uma mensagem de amor
Durante o trabalho de parto, Xana Carvalho chegou a dizer que não queria voltar a ter filhos.
“Eu não quero mais, não quero mais, isto é uma grande confusão, isto dói, eu não quero”, recordou.
No entanto, tudo mudou quando recebeu a filha.
“Foi uma coisa maravilhosa. E o João assistiu ao parto depois. E ajudou também no parto, ajudou-me a fazer força. Foi uma coisa incrível”, afirmou.
Daniel Oliveira classificou o momento como “poderoso”, uma palavra com a qual Xana concordou.
“É isso mesmo, a palavra é essa. Momento poderoso. A natureza fala por si, o nosso corpo transforma-se. O nosso corpo reage a uma transformação violenta. É violento, o parto é um momento violento, mas que depois vem com uma mensagem de amor enorme”, refletiu.
Para a cantora, é a mulher quem “está a dar vida” e permite que “aquele ser que está dentro de ti, que foi alimentado por ti, dentro de ti, nos conheça, que tenha a vida que hoje tem”.
Xana Carvalho resumiu a experiência como “poderoso, mágico, é tudo”. Acrescentou ainda que o corpo feminino “é maravilhoso, mesmo”.
O tiro que mudou a vida de Xana Carvalho e João
Leonor tinha apenas 26 dias quando João, militar da GNR, saiu de casa para participar numa busca domiciliária.
A data ficou gravada na memória de Xana Carvalho: 16 de janeiro de 2006. Atualmente, a cantora diz que aquele momento “já começa a ser a semana passada”, devido à distância emocional que o casal conseguiu construir.
Na altura, porém, o ataque provocou “uma dor enorme” e alterou-lhes a “essência quase”.
“Moldou-nos muito a personalidade. Porque existe uma Xana antes e depois, existe um João antes e depois”, reconheceu.
Antes de o marido sair, Xana sentiu necessidade de fazer um aviso: “Por favor, tenha cuidado.”
Depois, voltou a insistir: “Por favor, tem cuidado.”
João tentou tranquilizá-la.
“Não, amor, está tudo bem, vai correr tudo bem, é uma coisa normalíssima”, respondeu-lhe.
“O João levou um tiro na cara, mas ele está bem”
Perto do meio-dia, Xana Carvalho estava deitada com Leonor quando ouviu a campainha.
À porta encontravam-se o padrinho da filha, também colega de João, e duas outras pessoas.
“Nós temos de falar porque aconteceu uma situação com o João”, disseram-lhe.
A cantora começou a ficar inquieta, embora não imaginasse a gravidade da situação.
“O João levou um tiro na cara, mas ele está bem”, anunciaram.
“Comecei logo a ficar muito aflita. Sei que comecei a ficar gelada e a sentir o chão a fugir-me dos pés”, recordou.
As pessoas que acompanhavam o colega eram psicólogos da GNR. O objetivo era comunicar a notícia de forma gradual, tendo em conta o nascimento recente de Leonor.
Xana Carvalho agradece o cuidado utilizado.
“Aí agradeço muito, não sei se também foi por conselho dos psicólogos, o facto de me terem dito: ‘O tiro na cara não pareceu tão grave.’ Pensei: ‘Ok, foi de raspão.’ Porque se me tivessem dito que o tiro foi na cabeça, pensei: ‘É porque está morto.’ Mas não, houve esse cuidado, essa forma de dizer”, explicou.
A partir daquele instante, a sua vida “virou completamente ao avesso”.
Nove dias de coma e uma filha com apenas 26 dias
Daniel Oliveira colocou uma das perguntas mais difíceis da entrevista: “Com uma filha com 26 dias, como é que se segura o mundo?”
Xana Carvalho respondeu sem procurar uma explicação: “Não sei, Daniel”.
Na altura, tinha 24 anos e entrou num estado de sobrevivência.
“Eu sei que entrei muito em piloto automático. A minha vida resumia-se a estar com a Leonor, alimentar a Leonor, ir a correr para o hospital para estar com o João. Nos primeiros tempos, sem saber como é que ele ia ficar”, contou.
João esteve nove dias em coma no Hospital de São José. Xana visitou-o pela primeira vez no dia seguinte ao ataque.
“Eu não sabia o que é que ia ver. Quando entro dentro dos cuidados intensivos, o vejo em coma, todo entubado, ele enorme, muito inchado, não tinha penso nenhum na cara, tanto é que ele perdeu o olho esquerdo”, descreveu.
Os médicos não conseguiam antecipar a evolução.
“Nós não sabemos, temos que esperar. Isto agora, os primeiros dias são cruciais. Não sabemos se ele vai sobreviver. Se sobreviver, como é que vai ficar? Quais são as sequelas?”, disseram-lhe.
João tinha sofrido uma hemorragia cerebral.
Xana Carvalho soube de forma “fria” que João perdera o olho
Ainda em choque, Xana Carvalho recebeu a informação de que tinha sido realizada a “enucleação do olho esquerdo”.
O termo não lhe era familiar.
“Eu não sabia o que isso era. ‘Explica lá, porque eu não sei.’ ‘Não, ele não tem olho, nós tirámos-lhe o olho.’ Foi assim uma forma muito fria de dizer”, relatou.
Os nove dias de coma foram “horríveis”. Durante esse período, os médicos tentavam “reduzir o coma para ver como é que ele reage”.
Perante a incerteza, Xana deixou de conseguir pensar no futuro.
“Não existia futuro”, afirmou.
A pergunta repetia-se: “Então e agora, como é que vai ser a minha vida?”
Sem respostas, concentrou-se no imediato: “Tenho que viver o presente.”
Ao sofrimento emocional juntaram-se as preocupações financeiras. Xana continuava ligada a um escritório de contabilidade, mas ainda não tinha recebido o subsídio de maternidade.
“Comecei a ver a minha vida andar para trás porque era a parte emocional de ver o meu marido na cama do hospital, ter uma filha bebé, mas depois a vida real a acontecer. As contas para pagar, ter que comer para poder alimentar a minha filha, comprar fraldas”, contou.
A família ajudou, mas Xana vivia “sempre a chorar”
A GNR assegurou o pagamento do vencimento de João. Além disso, os colegas do marido e vários familiares acompanharam Xana.
A mãe mudou-se temporariamente para sua casa. Por sua vez, as tias faziam-lhe companhia durante a noite.
Ainda assim, a rotina era desgastante. Xana cuidava da filha, retirava leite e seguia para o hospital, onde permanecia junto de João.
“Era sempre a chorar”, confessou.
A pediatra chegou a aconselhá-la a não chorar durante a amamentação.
“Ela foi muito desejada por nós, muito desejada. E aquilo ter acontecido foi uma traição do destino ou dos nossos sonhos. Roubaram ao João a oportunidade de viver aqueles momentos com a filha. Viver aqueles momentos comigo, roubaram à Leonor a oportunidade de ter o pai ali perto dela. E isso começava a entrar dentro da minha cabeça e era impossível de controlar as lágrimas”, explicou.
Xana Carvalho tinha “muito medo do pior”. Temia perder o marido ou vê-lo transformar-se numa pessoa “completamente diferente”.
A possibilidade de João ficar violento ou revoltado parecia-lhe “válido”, perante tudo aquilo que lhe tinha acontecido.
João acordou sem se lembrar de que tinha uma filha
Durante semanas, Xana procurou uma explicação e repetiu a pergunta “porquê”.
“Porquê é que isto tinha que acontecer ao João? E porquê é que isto tinha que nos acontecer a nós? Nunca fizemos mal a ninguém”, questionava.
João era, segundo a mulher, “um profissional incrível”, dedicado à GNR e ao trabalho de investigação.
Mais tarde, Xana percebeu que precisava de abandonar essa procura.
“Mas é uma pergunta que eu tive-me a obrigar a deixar de fazer, porque não há explicação. Aquilo aconteceu, temos que viver agora esta etapa. E a ultrapassá-la”, afirmou.
Quando acordou do coma, João não se recordava de Leonor.
“A memória recente dele desaparece, ele não se lembra que tinha uma filha, o que foi muito complicado, Daniel, muito complicado”, revelou Xana Carvalho.
Nos meses seguintes, sofreu uma regressão cognitiva.
“Ele parecia um miúdo de 15, 16 anos. Não era o homem que eu conhecia. Ele vivia muito o prazer momentâneo. Ele não sabia falar, ele trocava as palavras, ele não se conseguia expressar”, descreveu.
“Eu amava-o, mas não o reconhecia”
Embora continuasse a amar o marido, Xana Carvalho admite que “não o reconhecia”.
“Eu olhava para ele e pensei: ‘Ok, tu és o João, casei contigo, és o meu amor desde sempre, mas neste momento eu não te estou a reconhecer.’ A pouco e pouco eu tive que ir conhecendo aquela nova pessoa que ali estava”, explicou.
Antes do ataque, João “cheirava” a filha e dizia: “Não aguento este cheiro, eu adoro este cheiro.”
Depois do coma, não demonstrava interesse pela bebé. Quando Leonor chorava, limitava-se a avisar: “Xana, a bebé está a chorar.”
Xana não conseguia compreender aquela realidade.
“O que é isto? Que vida é esta?”, perguntava a si própria.
Nesse momento, tomou como missão “devolvê-los um ao outro”.
Para aproximar pai e filha, pediu ajuda à pediatra e perguntou se poderia alterar os horários da bebé.
“Tudo é válido quando o amor de um pai e de uma filha está em jogo”, respondeu-lhe a médica.
Xana obrigou João a recuperar o instinto de pai
Xana começou a mudar os horários dos banhos e “obrigava-o quase” a cuidar de Leonor.
“Agora vais ter que segurar na bebé porque eu vou ter que sair. Segura nela, tens que assegurar”, dizia ao marido.
Embora João parecesse não ter instinto paternal, Xana acreditava que “ele tinha aquilo dentro dele”.
A evolução surgiu lentamente. Primeiro, João começou a reagir quando ouvia a chucha cair.
“Eu pensei: ‘Ok, o amor que os une está a acordar’”, contou.
Durante esse processo, Xana Carvalho não falou com ninguém sobre as dificuldades conjugais.
“Tinha muito medo de não conseguir. Havia momentos em que eu olhava e pensava que não sei se o meu amor pelo João iria resistir a olhar para ele naquela altura, completamente diferente do que era”, admitiu.
Antes do ataque, João representava a sua proteção masculina. Depois, os papéis inverteram-se.
“Era eu que tinha que o proteger, porque eu sentia-me como se fosse a mãe dele”, declarou.
“Eu queria o meu marido de volta”
Em casa, Xana sentia que estava casada com um adolescente. Tinha de recordar ao marido as refeições e a medicação.
“Não, vais ter que comer agora, tens de tomar a medicação.’ ‘Mas não me apetece!’ Imagina, estás casada com um adolescente. Não dá, eu queria o meu marido de volta, eu queria o pai da minha filha de volta”, confessou.
Um episódio à mesa mostrou-lhe, porém, que João estava a encontrar novas formas de comunicar.
O marido queria mais sopa, mas não conseguia pronunciar a palavra. Até que lhe disse: “Não, Xana, eu quero S-O-P-A.”
A cantora percebeu que o cérebro procurava outros caminhos.
“É como se nós, imagina, temos um caminho para fazer todos os dias para ir para o trabalho. Nós vamos sempre por ali, mas há um dia em que aquele caminho está com obras e nós temos que encontrar um outro caminho, que se calhar é um pouco mais longo, mas chegamos lá. E foi exatamente isso que aconteceu com o João”, explicou.
Mesmo assim, Xana temia que “isto vai se calhar ser sempre assim”.
“O amor é a base de tudo”
Daniel Oliveira perguntou-lhe se o amor explicava a resistência do casamento perante tantas dificuldades.
“Eu acho que é o amor, Daniel, porque eu acho que o amor é a base de tudo. Se houver amor verdadeiro, há o respeito pela história que nós vivemos, há empatia. É o amor na verdadeira essência da palavra. Existe um amor muito forte que nos une, mas mesmo muito forte. Nós não desistimos um do outro. Mesmo, mesmo”, respondeu.
João descobriu que tinha perdido o olho esquerdo quando se viu ao espelho. Xana tentou impedir que isso acontecesse sem a presença de um médico.
“Eu tentei evitar, eu queria que ele fosse informado por um médico”, explicou.
Contudo, João insistiu em olhar para o próprio reflexo.
“Eu tento pôr-me à frente do espelho e ele está a lavar as mãos, mas só me diz assim: ‘Xana, desvia-te.’ E eu: ‘Porquê?’ […] Ele só me afasta a cara e faz isto, assim, e não vê a mão”, contou.
Na altura, utilizava uma prótese castanha, diferente da cor do outro olho.
“O que é isto? Estou um monstro”, disse João.
Reconstituição do ataque mudou a recuperação de João
Aquele momento foi particularmente doloroso para Xana Carvalho.
“Aquilo foi muito difícil, porque ele sempre foi um homem bonito e para mim continua a ser lindíssimo, mas ele era uma pessoa que gostava de cuidar, olhava-se ao espelho e era vaidoso”, explicou.
Depois disso, sentiu que a recuperação “começou a descambar um bocadinho”.
A mudança aconteceu quando João participou na reconstituição do ataque, com a Polícia Judiciária e o homem que o baleou.
“Foi a partir exatamente desse momento que o foco da vida do João mudou. Comecei a vê-lo motivado, mais interessado pela Leonor, mais focado na recuperação dele e a querer regressar novamente ao trabalho dele”, recordou.
Quando Xana lhe perguntou o que tinha mudado, João respondeu:
“Eu não fiz mal a ninguém, não fui eu quem errei. Aquele homem roubou-me dias de vida da minha filha, dias de vida ao teu lado, mas não me vai roubar a vida. Ele tentou, mas não vai conseguir.”
A partir daí, Xana começou a testemunhar uma força que ainda hoje admira.
“Posso dizer que ele é a pessoa mais forte que eu conheço. Uma força interior, aguenta tudo, mesmo com medo ele vai, tem uma coragem incrível e inspira-me. Lá está, é um homem maravilhoso”, afirmou.
Quando tudo acalmou, Xana Carvalho desabou
Durante os meses mais difíceis, Xana Carvalho esteve concentrada na sobrevivência de João e no crescimento da filha.
Só quando a situação estabilizou começou a sentir o peso de tudo o que tinha acontecido.
“Sim, quando tudo acalma. Foi quando tive a minha primeira depressão. É um cansaço extremo”, revelou.
Entretanto, a vida começou a reconstruir-se. Xana regressou à música e voltou a ser mãe, com o nascimento de Sofia.
Além disso, sentia que tinha conseguido recuperar a relação entre João e Leonor.
“A Ioca e o João estão bem, a Leonor está crescida, está linda, maravilhosa. São os dois um do outro outra vez. Eu consegui devolvê-los um ao outro”, afirmou.
Contudo, enquanto a família recuperava, Xana começava a desaparecer emocionalmente.
“Eu já não estava capaz. Perdi mesmo as forças, já não sabia o que é que queria, já não estava bem em lado nenhum”, confessou.
Um vazio sem explicação tomou conta da cantora
Xana Carvalho descreveu aquilo que sentia como um “vazio” e uma “tristeza enorme dentro de ti, sem nenhuma razão aparente”.
Por fora, existiam razões para acreditar que “o pior já tinha passado”. Interiormente, porém, enfrentava um “cansaço físico, um cansaço da alma”.
Com o regresso à música e o nascimento de Sofia, acreditou que a vida tinha encontrado estabilidade.
“As coisas estavam bem, está tudo bem, a vida está realmente encaminhada”, pensava.
Porém, em outubro de 2017, uma discussão com o pai, que envolveu também a mãe, voltou a “virar do avesso” a sua vida.
“Era uma tristeza que ia e vinha, ia e vinha”, explicou.
Daniel Oliveira perguntou se surgia “espaçada no tempo”. Xana confirmou que os episódios apareciam, muitas vezes, “sem razão aparente”.
Também existiam fases em que se sentia “muito bem, muito eufórica, muito à vontade”, antes de regressar à depressão.
“Como é que se tem força para continuar a ser mãe?”
Perante a descrição, Daniel Oliveira perguntou: “Como é que se tem força para continuar a ser mãe?”
Xana Carvalho respondeu: “Em piloto automático.”
A cantora tinha perdido a paciência. Sentia-se triste e até o som das filhas a brincar “já me fazia confusão”.
Além disso, considerava-se um “peso” para o marido. Também acreditava que não era “a mãe que as minhas filhas mereciam”.
“Comecei a anular-me ali num espaço de dias e havia sempre uma ideia: isto vai ter que acabar, isto vai ter que acabar”, recordou.
Numa manhã, levou Leonor e Sofia à escola. João saiu para trabalhar e Xana regressou sozinha a casa.
“Mal ponho a chave, Daniel, à porta de casa. Foi mesmo, é hoje, hoje tudo acaba”, contou.
Depois de entrar, bebeu um café e fumou um cigarro. A ideia repetia-se sem parar.
“Hoje vai acabar, hoje vai acabar, hoje vai acabar, não aguento, não aguento, não aguento.”
Uma fotografia das filhas travou a tentativa de suicídio
Xana Carvalho subiu ao quarto, pegou na arma do marido e sentou-se na cama.
Permaneceu “ainda alguns segundos com a arma à minha frente e a pensar, é isto que tu queres? É isto que tu queres? É isto que tu queres?”
Foi então que olhou para uma fotografia das filhas.
“Foi por ter olhado para uma fotografia que eu tinha em cima do móvel da Leonor e a Sofia a dar um beijinho que a coragem faltou-me ali. Porque eu já tinha, já estava em posição”, confessou.
Daniel Oliveira perguntou se estava realmente “em posição”. Xana confirmou.
A cantora compreende a sensação de quem acredita que a morte pode terminar com o sofrimento.
“Sim, é uma ideia de alívio que tudo acaba, o sofrimento acaba, Daniel”, explicou.
Contudo, naquele momento, “faltou-me a coragem”.
Ainda tentou convencer-se a avançar: “Fraca. Tenta, vais conseguir!”
Porém, alguma coisa dentro de si falou mais alto.
“A tua missão na vida não é deixá-las desamparadas”
Xana Carvalho relaciona aquilo que a travou com o instinto maternal.
“Existe alguma coisa dentro de ti, não sei se é para mim que sou mulher, o meu útero a gritar, por favor, não! A tua missão na vida não é esta, não é deixá-las desamparadas”, recordou.
Logo depois, telefonou ao marido e pediu ajuda.
“Digo automaticamente para o João, por favor, vem já para casa. E se [sic] levam para o hospital. Porque eu hoje perdi a coragem, mas eu amanhã vou conseguir”, disse-lhe.
Xana Carvalho foi levada para o Hospital de Vila Franca de Xira e internada na ala psiquiátrica. Foi durante esse período que recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar.
O médico explicou-lhe que deveria ficar internada. Contudo, o tratamento não seria realizado contra a sua vontade.
“Eu disse que sim, eu quero ficar, mas com medo, Daniel, com medo, porque eu não sabia. Havia algo estranho em mim, na minha cabeça. Eu estava em desespero, eu só conseguia chorar, eu só chorava. Porque eu não estava bem toda e eu estava a pedir socorro”, desabafou.
Internamento fez Xana regressar aos medos da infância
João acompanhou-a até à ala psiquiátrica, mas teve de sair para ir buscar Sofia à escola.
“Eu fiquei para trás e a sensação que tive foi, regressei aos 5 anos de estar completamente só. Com medo de ia passar por isto. Eu queria sentir proteção, eu queria estar com alguém, percebes? Mas não, ele teve que ir porque ele estava a ser pai e estava a ser bom marido, um bom companheiro”, recordou.
Nesse mesmo dia, juntou-se aos restantes doentes para almoçar.
Na sala estavam pessoas “alguns com um ar mais frágil, cada um no seu estado, não é? Porque ali as pessoas estão despidas de tudo, as pessoas estão ali, estão a ser tratadas, pessoas que estão mais controladas, outras menos controladas”.
Depois de receber a medicação, Xana Carvalho teve medo de comer.
“Eu dizia, não quero comer. E afastei, eu não quero comer. Não estava a conseguir porque estava a ficar com medo de estar ali. Era normal, foi o meu primeiro impacto, tinha medo de estar ali”, admitiu.
Um gesto durante o almoço deu-lhe proteção
Uma mulher sentada ao lado ofereceu-se para lhe preparar o peixe. Xana recusou, mas sentiu-se amparada pela forma cuidadosa como foi incentivada.
“Comer, mas tens que comer, mas de uma forma muito cuidadosa”, disse-lhe a doente.
O momento levou Xana Carvalho de volta à infância.
“Mas eu senti-me pequenina, pequenina. Eu viajei mesmo aos meus tempos de 5 anos, de 6 anos, de sentir medo de estar num sítio”, contou.
O internamento prolongou-se durante nove dias. João visitava-a diariamente. Entretanto, Leonor e Sofia pensavam que o pai se encontrava fora do país, a trabalhar num espetáculo.
“Foram 9 dias duros, 9 dias em que conheci pessoas com histórias incríveis de superação. Ficámos com a ideia que tudo aquilo que me aconteceu a mim pode acontecer a qualquer um”, afirmou.
Quando Daniel Oliveira perguntou se começou a sentir melhorias, Xana respondeu: “Sim, senti.”
Profissionais de saúde e outros doentes ajudaram na recuperação
A medicação e a terapia foram essenciais. Contudo, a convivência com outros doentes também teve um papel importante.
“Começas a olhar para as pessoas que te rodeiam, que têm o mesmo problema que tu ou não, mas estão ali na mesma luta e que estão motivadas a melhorarem. E depois os próprios profissionais de saúde foram incríveis em que me ajudaram também a ultrapassar, e isso ajudou muito”, explicou.
Ao recordar a rotina, Xana Carvalho admitiu que passou grande parte do tempo a fumar.
“Olha, Daniel, a fumar. Fumei muito. Eu acendia um cigarro com o outro”, revelou.
Os doentes tinham acesso a um pátio durante a manhã.
“Há um auxiliar com um isqueiro. Então nós vamos, acendemos o primeiro cigarro com o isqueiro e depois são os outros cigarros todos”, contou, sorrindo.
O espaço tinha paredes altas e regras apertadas. Os doentes não podiam usar cordões e as visitas eram controladas. Os dias decorriam entre a medicação, os exercícios e os momentos passados no pátio, a olhar para o céu.
“Ali eu fui obrigada a parar, a pensar e a tratar-me”
Apesar de dolorosa, Xana Carvalho considera que a internação lhe permitiu interromper um ciclo destrutivo.
“Ali eu fui obrigada a parar, a pensar e a tratar-me”, afirmou.
A experiência também lhe deu acesso a outras histórias de sofrimento e recuperação.
“E ainda bem que tudo isto aconteceu. Conheci pessoas que ainda hoje mantenho contacto, com vidas normais, felizes, que passaram um mau bocado como eu, pediram ajuda. Ninguém está livre. É muito importante valorizarmos a saúde mental, respeitar e estar atento ao próximo. De um dia para o outro tudo muda. Para mim, bastou uma fração de segundo: o facto de pôr a chave à porta e aquela ideia tornou-se uma certeza. Só me faltou a coragem”, declarou.
Daniel Oliveira procurou perceber a profundidade do estado em que a cantora se encontrava.
Xana descreveu-o como “muito fundo, um sítio escuro, frio, mas não estamos sozinhos nesse fundo. Temos imensas pessoas à nossa volta, só que ou não nos veem, ou não nos percebem, ou não sabemos verbalizar. E hoje, a falar contigo, parece inconcebível a ideia, mas ninguém está livre. O importante é falar. Eu, felizmente, consegui falar com o João, consegui pedir-lhe ajuda”.
Xana Carvalho alerta para os sinais dentro da família
Antes de chegar ao limite, a cantora era “muito boa a fingir que estava tudo bem”.
No entanto, as alterações no comportamento começaram a tornar-se evidentes.
“Já não era meiga para as minhas filhas, já não as conseguia ouvir. O grau de tolerância era muito baixo, mudava completamente. Quem nos conhece, quem vive connosco, tem de ter essa sensibilidade de tentar perceber que algo não está bem. A família é muito importante”, sublinhou.
Xana Carvalho rejeita a ideia de que “quem ameaça não o faz”. Para a artista, qualquer sinal deve ser encarado com seriedade.
“Temos de levar sempre tudo muito a sério. Falar com as pessoas, pedir para abrirem o jogo. Porque, às vezes, as pessoas têm medo de falar por medo do julgamento”, alertou.
O estigma relacionado com a saúde mental continua, na sua opinião, a ser “sim, muito, muito grande”.
“Não é maluquinhos, é parte da saúde mental”
Xana Carvalho considera que muitas pessoas continuam a associar a doença mental a “maluquinhos”.
A cantora rejeitou essa visão.
“Não é maluquinhos, é parte da saúde mental, a depressão, a bipolaridade. São doenças como outras quaisquer. Ninguém escolhe, ninguém quer. E é preciso as pessoas que estão connosco estarem muito atentos. Tentarem perceber os sinais. Da intolerância, da tristeza, é sempre preciso existir um diálogo”, defendeu.
O regresso a casa e o reencontro com as filhas marcaram uma nova fase.
“Foi bom, foi muito bom, porque eu parecia outra. Eu sentia-me pronta para a vida. Se calhar a medicação também ajudou-me a manter-me calma, mas vinha com vontade de viver em plenitude, renascida”, recordou.
Sofia, a filha mais nova, foi uma das primeiras pessoas a reparar na mudança.
“Mãe, tu estás diferente, estás meiguinha”
A reação de Sofia obrigou Xana Carvalho a confrontar a forma como se tinha comportado durante a depressão.
“Ela dizia-me: ‘Mãe, tu estás diferente, estás meiguinha’. Pensei: ‘Meu Deus, o que é que eu estava a ser? Que tipo de mãe, que tipo de pessoa?’. E agora, olhando para trás, estava a tornar-me naquilo que não queria ser, a obrigar as minhas filhas a viverem mais ou menos o que eu vivi, porque elas também não sabiam como é que eu ia estar”, contou.
Antes do internamento, a paciência era reduzida e tudo “tinha que ser feito”.
“Eu chegava a dizer ao João: ‘Calma, tem calma, não faças assim’. E ouvir a Sofia dizer: ‘Estás tão meiguinha, mãe’, foi um chapadão sem mãos, mas ao mesmo tempo pensei: ‘A partir de agora tudo vai ser diferente’”, afirmou.
Atualmente, Leonor tem 20 anos e Sofia tem 15. Para Xana Carvalho, ambas tiveram um papel decisivo na sua sobrevivência.
“A Leonor e a Sofia são duas miúdas incríveis, acredito que vieram para nos salvar”, declarou.
A família fala das crises sem tabus
Xana Carvalho falou com as filhas sobre aquilo que aconteceu, de forma gradual. Hoje, as crises são abordadas dentro de casa.
Leonor e Sofia conseguem identificar alterações no comportamento da mãe.
Por vezes, dizem-lhe: “Tu hoje não estás lá muito bem” ou “Hoje estou um bocadinho com os azeites”.
Na família, “os azeites” passaram a ser a expressão utilizada quando alguma coisa começa a alterar-se emocionalmente.
“Elas próprias dizem: ‘Tu hoje não estás lá muito bem’, ou ‘Hoje estou um bocadinho com os azeites’. Já sabem que ‘os azeites’ é quando algo está a querer aparecer. Mas existe espaço para conversa, não existem tabus entre nós. É a família que sempre sonhei e adoraria ter nascido numa família assim”, revelou.
O diagnóstico também permitiu que Xana Carvalho compreendesse melhor o que lhe acontecia.
“O facto de percebermos que aquilo que passamos é normal, que existe uma justificação, e não é assim só porque sim”, explicou.
“Eu sou uma mulher em construção”
Depois do diagnóstico, Xana começou a ler sobre o transtorno bipolar. Dessa forma, aprendeu a reconhecer gatilhos e a distinguir a sua personalidade dos sintomas.
“Eu sou uma mulher em construção, a conhecer-me, a construir-me. À medida que o tempo passa, vamos-nos conhecendo melhor, e a própria família que vive connosco também começa a dominar bem a questão, porque tem de conhecer bem. E acredito que seja muito exaustivo”, afirmou.
Para a cantora, acompanhar alguém em sofrimento exige “só mesmo com grande amor e com empatia, com paciência, mas impondo limites”.
Xana Carvalho sublinhou também que “o facto de estar em crise não legitima tudo”.
Mesmo quando perde algum controlo emocional, procura reconhecer os excessos.
“Existem coisas que não consigo controlar, mas tenho a capacidade de perceber: ‘Ok, excedi-me, estou a ir por um campo que não devia ir. Vou ser honesta: estou assim, peço desculpa, não estou a saber controlar, vais ter que me ajudar’. Tem de haver muito diálogo e respeito acima de tudo”, defendeu.
Xana Carvalho pede maior acompanhamento psicológico
A artista acredita que testemunhos públicos podem ajudar outras pessoas a reconhecer os sinais e a procurar apoio.
“Percebo e acho que cada vez mais temos mesmo de o fazer. Porque cada vez mais vemos pessoas a sofrer de ansiedade, com ataques de pânico. Tudo daqui. Por isso, tem de se tratar isto de forma muito séria. Da mesma forma que existe um médico de família, deveria existir um psicólogo de família, um psiquiatra de família. Isto tem de ser tratado. É cada vez mais normal nos tempos que correm”, afirmou.
Para Xana Carvalho, mostrar disponibilidade pode ajudar alguém a “não se sentir só”.
Além disso, considera essencial eliminar comentários como “isso não é doença, isso é preguiça, são coisas de gente doida”.
Apesar da recuperação, o receio de uma recaída continua presente.
“Há. Há sempre. Mesmo com medicação, mesmo com tudo a correr bem, existe sempre um pequeno medo cá dentro, o tal medo que sempre me acompanha, que algo possa falhar. Tenho medo de começar a entrar numa tristeza imensa. Não digo que tenha medo que chegue ao ponto a que cheguei, mas tenho medo de cair em tristezas profundas. Tenho”, confessou.
“Consigo ser feliz”
Embora reconheça a existência desse medo, Xana Carvalho garante que consegue viver momentos felizes.
“Consigo. Tenho muitos momentos felizes, muitos. Sou grata a tudo o que já passei, apesar de não querer ter passado por tanta coisa, mas estes momentos fizeram-me quem sou hoje. Podia ter recebido mais carinho, mais proteção? Sim, podia, e se calhar hoje até podia ser um bocadinho mais confiante. Mas sou assim porque passei por isto tudo”, refletiu.
A fé também teve um papel importante, sobretudo quando João lutava pela vida.
“A fé é importante. Essencialmente quando o João levou o tiro, ainda tenho marcas nos meus joelhos. Prometi que, se ele ficasse bem, ia de joelhos, fazia umas quantas voltas à volta do… É o desespero. ‘Se isto acontecer, por favor, eu faço isto’”, contou.
Xana Carvalho cumpriu a promessa e continua a mostrar as marcas com orgulho.
Hoje, descreve João como um “pai incrível” e um “marido excelente”. Quanto ao estado de saúde do companheiro, deixou uma garantia: está “ótimo”.
