Pedro Chagas Freitas escreve a Cabo Verde e deixa reflexão sobre a morte: «Não faz sentido que eu morra e nada mude», destacou.
Pedro Chagas Freitas voltou às redes sociais este sábado, 4 de julho, com duas publicações muito diferentes no ponto de partida, mas próximas naquilo que procuram provocar.
Numa delas, o escritor dirigiu-se à seleção de Cabo Verde, transformando uma derrota numa reflexão sobre orgulho, identidade e pertença. Na outra, escreveu sobre despedida, saudade e a urgência de viver enquanto há tempo.
Sem cruzar diretamente os dois textos, Pedro Chagas Freitas acabou por falar daquilo que permanece. Num caso, depois de uma derrota. No outro, perante a ideia da morte e da ausência.
Pedro Chagas Freitas escreve «Carta à Seleção de Cabo Verde»
Foi com uma carta aberta que o escritor reagiu à derrota da seleção cabo-verdiana. Pedro Chagas Freitas afastou-se dos números e dos resultados para colocar o foco no significado de uma equipa representar um país.
Logo no início, deixou clara a ideia que atravessa toda a publicação:
“CARTA À SELECÇÃO DE CABO VERDE
Há derrotas que não diminuem ninguém. Há derrotas que alargam um povo.
Vocês mostraram que os mapas, e os milhões, podem medir muita coisa; não medem a coragem, ou a dignidade, ou a alma, muito menos o sonho.”
Para o escritor, a dimensão de um país não se mede apenas no território ou nos recursos. Mede-se também na esperança que consegue criar e naquilo em que as pessoas acreditam.
“Um país tem o tamanho da esperança que produz.
Uma pessoa tem o tamanho daquilo em que acredita.”
A partir daí, Pedro Chagas Freitas aproximou o futebol da memória familiar e da emigração. Na sua leitura, uma seleção pode carregar muito mais do que o resultado de um jogo.
“Corre mais quem corre pelos pais, pelas mães, pelos avós, pelos emigrantes espalhados pelo mundo inteiro, por gente que aprendeu a amar uma ilha. Corre mais quem corre por uma memória. Corre mais quem corre por gratidão. Corre mais quem sabe que um país inteiro pode caber dentro de uma camisola.”
O agradecimento à seleção prosseguiu com uma mensagem direta aos jogadores e àquilo que, no entender do autor, conseguiram provocar junto dos cabo-verdianos.
“Vocês correram, vocês conseguiram isso. Deram orgulho às pessoas do vosso país; deram-lhes identidade.”
No fecho da carta, Pedro Chagas Freitas voltou a contrariar a leitura fria de uma derrota. Em vez de vergonha, pediu memória.
“Não tenham vergonha desta derrota; guardem-na, emoldurem-na.
Não liguem à estatística. A alma não aparece na estatística.
Ainda bem.
Obrigado por tudo.”
Uma despedida escrita a partir das pequenas coisas
Na segunda publicação deste sábado, Pedro Chagas Freitas mudou completamente de cenário.
O texto surgiu na primeira pessoa e construiu uma despedida feita de memórias aparentemente simples: o som das chávenas, uma chamada para comer, o silêncio partilhado num sofá.
“Vou ter saudades de tanta coisa, tanta coisa.
Vou ter saudades de acordar e ouvir-te na cozinha a mexer nas chávenas. Vou ter saudades de tu me chamares para comer e eu dizer «já vou» e nunca ir logo. Vou ter saudades de ficar no sofá contigo sem dizer nada, só a existirmos juntos.”
A narrativa entrou depois no espaço de um hospital. O autor recuperou os sons das máquinas, os profissionais de saúde e a presença de alguém que permanecia por perto.
“Vou ter saudades do hospital, imagina. Dos enfermeiros, do barulho das máquinas à noite, de tu a dormires sentada naquela cadeira horrível e eu a fingir que não estava a ver para não te acordar, de quando me davas a mão sem dizer nada, e isso me resolvia tudo.”
É a partir dessas memórias que Pedro Chagas Freitas chega a uma das ideias centrais do texto: a felicidade pode estar em algo muito menos complicado do que tantas vezes se procura.
“As pessoas complicam a felicidade.”
Depois, o escritor desenvolveu essa reflexão, ligando a felicidade à presença de alguém e ao tempo que é possível partilhar.
“Não é assim tão difícil. É só preciso alguém e algum tempo. Eu tive os dois. Por isso, não tenham pena. Não é justo.”
«Que quem fica viva mais a sério»
O texto ganhou maior peso no momento em que a morte surgiu como ponto de partida para uma mensagem dirigida a quem continua.
Sem transformar a despedida numa procura de pena, Pedro Chagas Freitas escreveu sobre a necessidade de deixar uma mudança em quem permanece.
“Se a minha morte tiver de servir para alguma coisa, que sirva para que quem fica viva mais a sério, para que não adie tanto, para que perceba que isto é mesmo limitado, e é por isso que não tem limites.”
A última frase chegou como conclusão de toda a reflexão:
“Não faz sentido que eu morra e nada mude.”
Nas duas publicações, Pedro Chagas Freitas escreveu sobre realidades diferentes. Ainda assim, há uma linha que aproxima os textos: aquilo que uma derrota, uma memória ou uma despedida conseguem deixar nos outros.
De um lado, uma seleção e um país representado dentro de uma camisola. Do outro, as chávenas numa cozinha, uma cadeira de hospital e uma mão dada em silêncio.
Veja as publicações AQUI e AQUI.
