José Tolentino de Mendonça defende compaixão sem julgamentos: “O que nos transforma é a experiência do amor”, afirmou.
José Tolentino de Mendonça partilhou nas redes sociais uma reflexão sobre a compaixão, a clemência e a forma como o julgamento pode afastar as pessoas da verdadeira experiência do amor.
O cardeal português defendeu que a bondade implica aceitar alguma vulnerabilidade. Além disso, alertou para a facilidade com que se condena alguém sem conhecer a sua história ou escutar aquilo que tem para dizer.
“Precisamos descobrir a gramática da compaixão”
José Tolentino de Mendonça começou por apontar a compaixão como uma aprendizagem que deve fazer parte da vida quotidiana.
“Precisamos descobrir a gramática da compaixão, a arte da clemência, o caminho diário da bondade. É verdade que podemos reagir: ‘Não quero ser bom demais; isso me colocaria em risco de ser enganado por aqueles que alegam estar necessitados quando não estão’.”
Perante esse receio, o cardeal questionou a legitimidade de cada pessoa para avaliar rapidamente as intenções dos outros.
“Mas quem somos nós para julgar os outros? Já existem pessoas demais que julgam constantemente. Pessoas que vêm de sabe-se lá onde e acreditam já ter visto de tudo; que, sem ouvir, já emitiram o veredito de condenação.”
Cardeal pede um olhar sem preconceito
Na mesma reflexão, José Tolentino de Mendonça contrapôs a facilidade do julgamento à raridade de quem escolhe olhar para os outros com generosidade.
“Muito mais raros são aqueles dispostos a amar, a olhar sem preconceito e de forma generosa e altruísta. O que nos transforma, não duvidemos, é a experiência do amor.”
O cardeal recordou depois uma mulher que conheceu no passado e cuja atitude continua a servir-lhe de exemplo.
“Lembro-me de uma mulher que conheci há alguns anos, uma alemã, que dava esmola a quem lhe pedisse. Penso nela com frequência. Ela certamente sabia que muitas vezes era enganada, mas quando lhe pediam, dava.”
Gesto de bondade que “salva o mundo”
Para José Tolentino de Mendonça, a disponibilidade daquela mulher para ajudar, mesmo conhecendo os riscos, representava uma forma concreta de espalhar amor.
“E esse gesto aparentemente sem sentido salva o mundo. A insensatez daquela mulher enche o mundo de amor muito mais do que todos os expedientes da sabedoria, que facilmente se transformam em uma trincheira para nos proteger da vulnerabilidade, nossa e a dos outros.”
O cardeal alertou, assim, para o perigo de a prudência se transformar numa barreira que impede qualquer aproximação a quem precisa de apoio.
“Se amarmos apenas aqueles que consideramos dignos”
Na parte final da publicação, José Tolentino de Mendonça defendeu um amor que não depende de avaliações prévias sobre o mérito de cada pessoa.
“Se amarmos apenas aqueles que consideramos dignos, o mundo não será contaminado por Deus.”
Por fim, recuperou uma imagem bíblica para sustentar a ideia de uma bondade que não faz distinções.
“A imagem repetida por Jesus é magnífica e inspiradora: ‘Deus faz o seu sol nascer sobre maus e bons’.”
A reflexão foi publicada com referência ao jornal italiano Avvenire.
