José Tolentino de Mendonça apela a novos começos: «Não nos deixemos ancorar apenas na experiência de ontem», afirmou.
Há momentos em que o passado ajuda a compreender quem somos. E outros em que pode tornar-se uma âncora. José Tolentino de Mendonça partiu precisamente dessa fronteira para uma reflexão sobre a disponibilidade para recomeçar, observar antes de julgar e deixar espaço para aquilo que a vida ainda pode trazer.
Numa publicação nas redes sociais, o cardeal português começa por desafiar a tendência de olhar para o presente através daquilo que já aconteceu.
«Não nos deixemos ancorar apenas na experiência de ontem. Abramo-nos aos novos começos que o hoje, inesperadamente, nos traz. Reservemos um tempo todos os dias para ouvir, com profundidade e frescor, sempre prontos para aprender algo novo.»
Observar antes de julgar
José Tolentino de Mendonça propõe depois uma relação menos imediata com aquilo que acontece à nossa volta. Em vez de conclusões rápidas ou ideias construídas antecipadamente, defende uma observação mais paciente da realidade.
«Dediquemo-nos a contemplar a realidade à medida que ela se desenrola, mais dispostos a investir na observação paciente do que a fazer julgamentos precipitados ou a formar imagens preconcebidas.»
A abertura ao inesperado ocupa também um lugar central na reflexão. Não se trata apenas de introduzir pequenas alterações numa rotina já estabelecida, mas de criar disponibilidade interior para aceitar aquilo que não estava previsto.
«Permitamos deliberadamente espaço interior para acolher surpresas, não simplesmente para garantir a manutenção de rotinas. Comprometamo-nos a nutrir processos de reconciliação dentro de nós e com os outros.»
«Mãos como portas que se abrem»
É através de uma imagem simples que o cardeal traduz essa abertura ao outro.
«Imaginemos as nossas mãos como portas que se abrem, não como muros que se erguem e interrompem a dança multifacetada da existência.»
A reflexão coloca assim frente a frente duas possibilidades: protegermo-nos através de barreiras ou aceitarmos que viver implica também deixar entrar o inesperado, os outros e até aquilo que nos obriga a rever certezas.
José Tolentino de Mendonça recorre depois a três símbolos para falar das diferentes dimensões da existência: o pão, a rosa, o barro e o tesouro.
«Ao lado do pão que representa o necessário, coloquemos a rosa que representa a gratuidade. Ao lado do barro que representa a nossa persistente fragilidade, coloquemos o tesouro que representa o nosso desejo infinito.»
Pedir mais e exigir menos
O texto aproxima-se do quotidiano quando o cardeal fala da forma como nos relacionamos com aquilo que esperamos dos outros.
«Estejamos dispostos a pedir mais vezes do que a exigir; e, ainda mais frequentemente, a esperar e agradecer, em vez de exigir ou lamentar.»
Não é uma defesa da passividade, mas de outra disposição perante a vida: menos presa à exigência, à antecipação e ao julgamento, e mais aberta à aprendizagem e ao reconhecimento do que acontece.
No final, José Tolentino de Mendonça levanta os olhos daquilo que é imediato e regressa a uma dimensão maior da existência.
«Não fixemos os olhos na terra como se a ela pertencêssemos, senão ignoraremos que, lá de cima, o caminho das estrelas também nos indica o caminho e que essa é a nossa vocação.»
Entre o que ficou para trás e aquilo que ainda não conhecemos, o cardeal deixa assim um convite a viver com menos muros, menos certezas fechadas e maior disponibilidade para aquilo que pode começar de novo.
Veja a publicação AQUI.
