Tolentino de Mendonça reflete sobre os “pais inúteis” e explica a força da expressão, nas suas redes sociais.
O cardeal José Tolentino de Mendonça deixou este domingo, 9 de agosto, uma reflexão sobre a paternidade a partir de uma expressão que, à primeira leitura, pode causar estranheza: os “pais inúteis”.
Numa publicação nas redes sociais, o cardeal português recuperou uma ideia presente na Patris Corde, carta apostólica do Papa Francisco, para falar sobre o momento em que um pai deixa de ser necessário enquanto figura de dependência e percebe que o filho está preparado para seguir o próprio caminho.
“Bem-aventurados os pais ‘inúteis’. Uma afirmação curiosa da ‘Patris Corde’, carta apostólica do Papa Francisco, e que possui um enorme alcance espiritual, é aquela que diz que ‘um pai sente que completou a sua ação educativa e viveu plenamente a paternidade, apenas quando se tornou «inútil», quando vê que o filho se torna autónomo e caminha sozinho pelas sendas da vida, quando se coloca na situação de José, que sempre soube que aquele Menino não era seu: fora simplesmente confiado aos seus cuidados’.”
Paternidade sem ideia de posse
Tolentino de Mendonça desenvolve depois o significado da palavra “inútil”, afastando-a de uma ideia de irrelevância ou ausência de valor.
Para o cardeal, a expressão ganha sentido quando a missão de um pai é entendida não como posse sobre os filhos, mas como acompanhamento até que estes adquiram autonomia.
“O termo «inútil» remete-nos para a recomendação que nos faz Jesus: «quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: ‘Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer’» (Lc 17, 10). Mas quando é que um pai faz tudo o que lhe é mandado? Quando é que um pai sabe ter cumprido a sua missão?”
A resposta surge logo depois, com São José apresentado como exemplo dessa forma de viver a paternidade.
“Quando realiza a sua paternidade não como um exercício de posse, mas como «sinal» ‘que remete para uma paternidade mais alta’. Por isso, São José é efetivamente um modelo importante para todos os pais.”
“Estamos sempre todos na condição de José”
No final da reflexão, José Tolentino de Mendonça volta às palavras do Papa Francisco para colocar São José como referência de uma paternidade que cuida sem procurar apropriar-se.
“Isso mesmo explica o Papa Francisco: ‘Em certo sentido, estamos sempre todos na condição de José: a sombra do único Pai celeste’.”
A reflexão, publicada com referência a um texto no L’Osservatore Romano, coloca assim a autonomia dos filhos no centro da missão parental: tornar-se “inútil”, neste sentido, não significa deixar de importar, mas ter conseguido preparar alguém para caminhar sem depender permanentemente de quem o educou.
Veja a publicação AQUI.
