António Zambujo: “Eu não sou muito de repetir fórmulas, gosto de experimentar coisas novas”, disse em entrevista ao Infocul.pt.
O cantor levou o Alentejo ao coração de Cascais, com um espectáculo marcado pela autenticidade e pelas raízes profundas na música de tradição oral.
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Concerto com identidade no Hipódromo Manuel Possolo
O primeiro dia do Coala Festival Portugal, que decorre este fim de semana no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, teve em António Zambujo o grande protagonista. Com um concerto que contou com a participação especial do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, o artista natural de Beja deu voz ao Alentejo com elegância e mestria.
Antes de subir ao palco, António Zambujo conversou com o Infocul e falou sobre a sua recente digressão no Brasil, as suas raízes musicais e o futuro do Cante Alentejano.
“Sim, correu bem. Fizemos o mês de Março todo, praticamente lá. E fizemos várias cidades. Muitas delas onde eu ainda não tinha tocado. E foi muito bom”, revelou sobre a tournée conjunta com Yamandu Costa, no Brasil.
Uma escolha consciente para o alinhamento
O espectáculo apresentado em Cascais teve como base o disco Cidade, mas incluiu também outras faixas que fazem parte do vasto repertório de Zambujo. A presença do Rancho de Cantadores não foi por acaso. “O concerto, para além do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, que é um grupo com o qual já tenho parceria há muito tempo, é um concerto que nós temos apresentado ao vivo, um pouco reduzido, porque o tempo do concerto no festival é um pouco mais reduzido”, explicou.
O processo de escolha das canções mantém-se fiel à intuição artística. “Enfim, nós, quando fazemos a escolha das músicas, fazemos um bocadinho por nós. Não penso muito no público, mas sempre com a esperança que o público goste.”
Contudo, com vários álbuns editados, a selecção torna-se cada vez mais desafiante. “Sim, quanto mais discos gravamos, há sempre mais músicas que vão ficando de fora. E por um lado tenho pena, mas por outro lado é bom porque tenho mais margem para escolher.”
Novo disco a caminho e liberdade criativa
Zambujo reconhece que a sua carreira passou por várias fases, influenciadas por diferentes géneros e sonoridades, mas sempre com liberdade artística. “Eu não sou muito de repetir fórmulas, gosto de experimentar coisas novas. E também é muito em função das músicas que eu escolho e das músicas que eu ouço, dos discos novos que vão saindo. Não me influenciando, mas acaba por ir transformando a minha forma de pensar a música.”
Um novo álbum já está em preparação. “Nós agora estamos a preparar um disco novo, que há de sair no início do próximo ano, talvez no final deste ano, princípio do próximo. E a ideia é essa, tendo por base o formato de banda que apresentamos ao vivo, tendo por base esse formato, é imaginar um som, obviamente sempre com essas influências todas, mas que seja um pouco diferente do disco anterior.”
Sobre o Cante e a nova geração alentejana
Apesar de ser uma das figuras de maior destaque do Alentejo, na área musical, Zambujo rejeita o rótulo de “embaixador”. “Não, não quero nada ser isso. Acabo por ter um pouco mais de experiência só porque apareci mais cedo e porque sou mais velho, mas acho que eles têm o caminho deles bem traçado e fazem as coisas muito bem”, afirmou sobre os novos talentos que têm despontado nesta região do país.
Ainda assim, reconhece que há trabalho a fazer pela preservação e renovação do Cante. “Falta sempre fazer mais. Acho que, por exemplo, em relação ao Cante Alentejano, acho que é muito importante a renovação do repertório. E isso vai acontecendo aos poucos, com muitos desses miúdos que tu falaste, vai acontecendo aos poucos e acho que essa parte é a parte que falta, de facto.”
Entrevista: Rui Lavrador / Fotografia: Nuno Almeida
