Pedro Chagas Freitas reage a crítica sobre lanche para crianças carenciadas: “Precisam da infância”, assinalou o escritor.
A frase que feriu Pedro Chagas Freitas foi simples: “Ficariam felizes na mesma.”
O escritor reagiu nas redes sociais a uma mensagem enviada a Marisa Barroca, do Mercado dos Santos, depois de uma iniciativa solidária no Dia da Criança. A ação ofereceu um lanche especial e um kit com uma t-shirt a crianças mais necessitadas.
Contudo, nem todos olharam para o gesto da mesma forma. Houve quem questionasse a oferta de Tulicreme, material novo e roupa nova, defendendo que as crianças também ficariam felizes com artigos usados.
A mensagem que motivou a reação
Na mensagem dirigida a Marisa Barroca, a crítica começou com um tom cauteloso, mas acabou por colocar em causa as escolhas feitas para as crianças.
“Bom dia , não me levam a mal, não quero ser mal interpretada, mas não acham que dar tulicreme é um exagero para estas crianças, que talvez nunca mais o vão comer. Até mesmo o que gastam em material para as atividades ou dar uma tshirt nova. Vocês recebem tanta coisa usada, podem dar a essas crianças no dia, iam ficar felizes na mesma, acho eu. Fica a dica.”
Foi este raciocínio que Pedro Chagas Freitas contestou. Não apenas pela crítica ao Tulicreme ou à t-shirt, mas pela ideia de que uma criança carenciada deve contentar-se com menos.
“Há um abismo entre ajudar alguém e acreditar que essa pessoa merece o melhor”
Ao enquadrar a situação, Pedro Chagas Freitas explicou que ler a mensagem o deixou triste. Depois, identificou o ponto que mais o magoou.
“Ler esta mensagem deixou-me triste.”
“Foi enviada à maravilhosa Marisa Barroca, do maravilhoso Mercado dos Santos. No Dia da Criança, decidiu oferecer um lanche especial e um kit com uma t-shirt às crianças mais necessitadas.”
“A crítica era simples: porquê tulicreme? Porquê uma t-shirt nova? Elas ficariam felizes na mesma.”
A partir daí, o escritor centrou a reflexão numa expressão que considera perigosa quando se fala de crianças vulneráveis.
“‘Ficariam felizes na mesma.’”
“Esta expressão magoa-me muito, muito. Há um abismo entre ajudar alguém e acreditar que essa pessoa merece o melhor. Uma criança que vive rodeada de faltas não precisa de sobreviver.”
E foi mais longe, recusando a ideia de que a ajuda deva ser apenas suficiente para remediar.
“Não.”
“Precisa de viver.
Precisa de ter histórias para contar na escola.
Precisa de chegar a casa entusiasmada.
Precisa de sentir que também lhe acontecem coisas bonitas.
Precisa de sentir que o mundo não reservou a magia apenas para os outros.”
Tulicreme, t-shirt nova e dignidade
No texto publicado nas redes sociais, Pedro Chagas Freitas transformou os objetos da crítica em símbolos.
Para o escritor, o Tulicreme não representa apenas um doce. Representa a possibilidade de uma criança sentir que também tem direito a um momento especial.
“O Tulicreme não é um produto.
É uma possibilidade. É um instante de magia.”
O mesmo raciocínio foi aplicado à t-shirt nova. Na sua visão, vestir algo novo pode significar autoestima, igualdade e pertença.
“A t-shirt nova não é um produto.
É dignidade. É uma cabeça levantada. Vestir uma coisa nova é olhar para o espelho, sentir o cheiro da roupa acabada de abrir, chegar à escola e ser igual aos outros, não ser sempre o menino ou a menina das roupas herdadas.”
Depois, o escritor endureceu o tom contra a lógica do “serve na mesma”.
“Que bosta é essa do ‘serve na mesma’?
Que merda é essa do ‘para ti chega’?”
A crítica à solidariedade feita de sobras
Pedro Chagas Freitas rejeitou a ideia de que a pobreza deva obrigar uma criança a aceitar apenas o que sobra.
No seu texto, deixou claro que a infância não pode ser reduzida a restos, prendas menores ou experiências sempre condicionadas.
“Uma criança carenciada não tem de ter a obrigação ética de se contentar com menos: menos brinquedos, menos experiências, menos surpresas, menos sonhos, menos tudo.”
“Isto dói muito.”
Depois, distinguiu duas formas de solidariedade. Uma que apenas entrega o que já não serve. Outra que procura responder à necessidade real de quem recebe.
“Abomino a solidariedade que dá apenas aquilo que não se quer, aquilo que sobra, aquilo que já não se usa, aquilo que já não faz falta.”
“Eu amo a solidariedade que pergunta: de que é que tu precisas?
E tenta responder como pode, como consegue.”
“As crianças pobres não precisam de caridade”
No fecho da publicação, Pedro Chagas Freitas alargou a reflexão. Para o escritor, não está apenas em causa um lanche ou uma peça de roupa.
Está em causa a possibilidade de devolver às crianças uma parte da infância que tantas vezes lhes falta.
“O que salva uma infância, e até uma vida, é também um bocado de poesia.”
“As crianças pobres não precisam de caridade; precisam da igualdade possível, da igualdade emocional possível: precisam da excitação, da surpresa, da alegria, da expectativa, do encantamento.”
A conclusão surgiu em tom de apelo, com a infância colocada no centro da discussão.
“Precisam da infância.”
“Todos precisamos de um pedaço de infância, porra.
Que nunca ninguém se esqueça disso.”
Pedro Chagas Freitas terminou ainda com uma forma concreta de apoio à iniciativa, deixando o contacto MBWAY da Associação Mercado dos Santos.
“Se quiserem dar mais infância a estas crianças, usem este MBWAY (é o da Associação Mercado dos Santos):
937875788”
Veja a publicação AQUI.

