Gisela João, Josyara e Lucibela unem Portugal, Brasil e Cabo Verde no Festival Língua Terra

Gisela João, Josyara e Lucibela unem Portugal, Brasil e Cabo Verde no Festival Língua Terra, em entrevista ao Infocul.pt.

A sexta edição do Festival Língua Terra realiza-se nos dias 11 e 12 de setembro, no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal. Gisela João, Josyara e Lucibela protagonizam a primeira noite de uma programação construída a partir da música, da memória e das diferentes identidades que convivem dentro da língua portuguesa.

Há uma língua comum, mas não existe uma única forma de a cantar. É nesse espaço entre a proximidade e a diferença que o Festival Língua Terra volta a erguer pontes entre Portugal, Brasil e Cabo Verde.

Sob o mote «Conectando Mundos», a sexta edição decorre nos dias 11 e 12 de setembro, no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, com uma programação maioritariamente protagonizada por mulheres de diferentes gerações e geografias. Concertos, formação e partilha cultural compõem o programa de um festival criado por Mónica Soares Cosas, responsável pela direção artística, e organizado pela Câmara Municipal de Setúbal.

A abertura, marcada para as 21h00 de sexta-feira, coloca em palco a cantora, compositora, instrumentista e produtora brasileira Josyara, que apresenta «AVIA Acústico». Criado especialmente para esta edição, o concerto conta com a participação de Lucibela e promove um encontro entre a Bahia e Cabo Verde.

Segue-se, às 21h50, Gisela João com «Inquieta», um espetáculo no qual a fadista recupera canções de intervenção de autores como José Afonso, José Mário Branco e Fernando Lopes-Graça. Mais do que regressar ao passado, a artista procura perceber o que estas palavras ainda dizem sobre o presente.

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Gisela João e as canções que continuam a falar do país

O peso histórico do repertório não afastou Gisela João destas composições. Pelo contrário, foi a atualidade das palavras que a levou a reconhecer nelas um retrato inquietantemente próximo do Portugal e do mundo de 2026.

Convidada a escolher a canção que mais parece ter sido escrita para o tempo presente, a artista admite que a resposta não é simples.

«É muito difícil escolher uma, porque foi precisamente isso que senti quando comecei a trabalhar estas canções: podiam ter sido escritas hoje. Às vezes estamos a ouvir as notícias, ou simplesmente a olhar para aquilo que acontece à nossa volta, e encontramos nestas letras frases inteiras que parecem falar exatamente do presente.»

«Inquietação», de José Mário Branco, surge como a escolha mais evidente, tanto pela identificação pessoal como pela relação direta com o título do trabalho. Ainda assim, Gisela João encontra a mesma urgência noutras páginas fundamentais do cancioneiro português.

«Talvez “Inquietação” seja a mais óbvia – até porque se liga logo ao nome do disco e porque me revejo profundamente nela. Mas “Vejam Bem”, “Acordai” ou “Que Força É Essa” continuam também assustadoramente atuais. E isso diz muito sobre a qualidade de quem as escreveu, mas também nos deve fazer pensar sobre o país e o mundo em que estamos a viver.»

Interpretar estas canções implica lidar com a memória que transportam, mas a cantora recusa tratá-las como objetos protegidos do tempo. Para Gisela João, a melhor forma de respeitar esse património passa por continuar a cantá-lo.

«Precisamente cantando-as. Fazendo com que continuem vivas. Eu tenho um respeito enorme por estes autores e, claro, senti o peso de pegar nestas canções. Mas respeitá-las, para mim, nunca poderia ser tentar imitá-las ou reproduzi-las exatamente como foram feitas. Isso já existe e está muito bem feito.»

A sua abordagem parte, por isso, da artista que é e do tempo em que vive, sem procurar repetir as versões que marcaram a história da música portuguesa.

«O que posso fazer é aproximar-me delas a partir de quem sou, do tempo em que vivo e daquilo que elas me fazem sentir hoje. Foi também por isso que quis gravar este disco. Percebi que muitas destas músicas estavam a desaparecer um bocadinho do nosso quotidiano e acho muito importante que este cancioneiro continue vivo e chegue também a pessoas que talvez nunca o fossem procurar. A memória só continua realmente viva se continuar a conversar com o presente.»

A liberdade escutada a partir de três geografias

A apresentação de «Inquieta» numa noite que reúne Portugal, Brasil e Cabo Verde permite retirar estas canções de um contexto exclusivamente português. Embora tenham nascido em circunstâncias concretas da história do país, os temas que atravessam as letras não conhecem fronteiras.

«Acho muito bonito estas canções poderem existir nesse encontro. Apesar de nascerem de um momento muito concreto da história portuguesa, aquilo de que falam – liberdade, desigualdade, medo, resistência, dignidade, o outro – não pertence só a Portugal.»

A língua aproxima os três países representados no palco do Fórum Municipal Luísa Todi, mas não apaga as experiências próprias de cada povo. É precisamente nessa diversidade que Gisela João encontra a possibilidade de novas leituras.

«E depois há uma língua e uma história que nos aproximam, mas há também experiências e memórias muito diferentes. Interessa-me essa diferença. Uma mesma canção pode tocar num lugar completamente diferente dependendo de quem a está a ouvir e da história que essa pessoa traz consigo.»

«Talvez numa noite em que Portugal, Brasil e Cabo Verde se encontram estas músicas deixem de ser escutadas apenas como parte da nossa memória portuguesa e possam ser ouvidas de uma forma mais ampla: como canções sobre liberdade e sobre a necessidade de continuarmos atentos uns aos outros.»

Josyara despe as canções para lhes dar outra liberdade

Antes de Gisela João subir ao palco, Josyara apresenta «AVIA Acústico», um formato centrado na voz e no seu violão percussivo. Com menos elementos em cena, as canções ficam mais expostas, mas a artista brasileira encontra nessa proximidade uma margem maior para experimentar.

«A canção ganha potência nesse formato. Acho que tudo fica mais explícito mesmo. Também me sinto mais livre para brincar, experimentar novos jeitos de tocar minhas músicas. É um desafio gostoso.»

É nesse ambiente que recebe Lucibela como convidada especial. O encontro entre as duas artistas não se limita à partilha da língua e revela afinidades entre tradições musicais que nasceram em lados diferentes do Atlântico.

«Acredito que tudo vem junto. Há encontros que reconheço entre essas musicalidades. A morna, por exemplo, me soa próxima ao choro e, ao mesmo tempo, alcança uma densidade presente na cantoria sertaneja de Elomar. Amo a música cabo-verdiana e estou muito feliz de poder me juntar a Lucibela.»

O Festival Língua Terra apresenta em 2026 uma programação dominada por mulheres. Cantora, compositora, instrumentista e produtora, Josyara conhece a importância de participar em todas as etapas do processo e de manter o controlo sobre a própria obra.

«Acredito que estamos cada vez mais donas das nossas criações. Depois de uma história em que tantas mulheres foram invisibilizadas e tiveram as suas obras roubadas, essa autonomia nos dá confiança para seguir fazendo o que acreditamos.»

Mais do que ocupar espaços, a artista deseja que as mulheres possam criar sem o peso permanente das estruturas que durante demasiado tempo limitaram os seus percursos.

«O mais bonito é ter liberdade criativa para criar e realizar. Desejo que, num futuro próximo, possamos trocar mais sem as armaduras que o medo da opressão nos faz construir. E que mais mulheres possam ocupar os lugares que quiserem.»

Lucibela leva Cabo Verde ao encontro da Bahia

Lucibela não conhecia pessoalmente Josyara antes deste projeto. Ainda assim, a relação antiga com a música brasileira tornou o convite especialmente próximo da sua própria história artística.

«Eu pessoalmente não conhecia Josyara, mas, quando soube que era uma artista brasileira, fiquei muito contente com o convite, porque sempre amei a música brasileira no geral. Cresci a ouvir grandes artistas brasileiros e, com certeza, isso está retratado na forma como me expresso na música. A música brasileira foi e ainda é uma grande escola para mim.»

A identificação com o trabalho da artista baiana surgiu rapidamente. No palco, Lucibela pretende levar mais do que a sonoridade de Cabo Verde: quer contribuir para uma verdadeira troca entre dois países ligados pela relação profunda que mantêm com as respetivas raízes.

«Gostei muito do trabalho da Josyara logo de início e fazer parte deste concerto é também uma forma de aproximar estes dois países completamente diferentes, mas com a mesma paixão pelas nossas tradições, pelas nossas raízes. Levo exatamente isso: a aproximação das nossas culturas e a troca de conhecimento desta nossa caminhada para a qual ainda estamos a contribuir.»

Em «Moda Antiga», Lucibela reafirmou a ligação à música tradicional cabo-verdiana. A cantora reconhece, porém, que manter uma tradição viva exige abertura à mudança, desde que a procura por novas linguagens não apague aquilo que lhe confere identidade.

«Manter uma tradição viva sem a tornar intocável é difícil, porque parece que o mundo está sedento de novidades. Mas penso que o caminho é inovar sem perder o essencial da nossa música tradicional porque, se não for assim, deixa de ser a nossa tradição e passa a ser uma fusão como tantas outras. Penso que inovar é sempre necessário, mas tentamos deixar intacta a nossa essência. Esse é o caminho.»

Cabo Verde para lá da morna e da saudade

O concerto conjunto também abre espaço para mostrar um Cabo Verde que não se esgota na imagem internacionalmente associada à morna e à saudade. Lucibela destaca a «morabeza», a resiliência e a relação afetiva de um povo com um território pequeno na dimensão, mas espalhado pelo mundo através da cultura.

«Que Cabo Verde também tem “morabeza”, que é a forma alegre como recebemos todos os que chegam à nossa terra; que somos um povo resiliente e que, acima de tudo, amamos o nosso pequeno país e a nossa cultura.»

«É esse amor que nos ajuda a levar Cabo Verde aos quatro cantos do mundo, mesmo sendo só dez grãozinhos de terra. É através deste amor que levamos em frente a nossa cultura pelo mundo fora.»

O encontro entre Gisela João, Josyara e Lucibela concentra, assim, o princípio que sustenta o Língua Terra: partir do português não para uniformizar culturas, mas para permitir que cada uma se revele na sua própria voz.

Workshop e roda de samba encerram a programação

A programação continua no sábado, 12 de setembro, entre as 15h00 e as 17h00, com o workshop «Bloco Pandeiro LX – Pandeiro Brasileiro», orientado pelo percussionista Juninho Ibituruna. A participação é gratuita, mediante inscrição no Fórum Municipal Luísa Todi.

O festival termina às 18h00 com uma roda de samba conduzida por Nani Medeiros. Natural de Porto Alegre e radicada em Lisboa, a cantora cruza o samba, o choro e a canção. Os bilhetes para esta sessão custam cinco euros.

As entradas para os concertos de Gisela João, Josyara e Lucibela, no dia 11, têm o preço de 20 euros e estão disponíveis no Fórum Municipal Luísa Todi e na bilheteira online. Programa oficial do Festival Língua Terra.

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