Filomena Cautela denuncia poder dos comentadores nas redações: “Quase mandam”, afirmou nas redes sociais.
“Antes nem entravam”. É assim que Filomena Cautela descreve a mudança que diz ter testemunhado nas redações televisivas ao longo dos anos. A apresentadora reagiu a uma reflexão do escritor Samuel Pimenta e deixou um retrato particularmente crítico sobre o espaço conquistado pelos comentadores, a perda de força dos jornalistas e aquilo que considera ser um jornalismo cada vez mais fragilizado.
A comunicadora afirma que alguns comentadores já não se limitam ao espaço de opinião em antena. Segundo relata, circulam pelas redações, interferem nos temas e chegam a pedir conteúdos específicos para alimentar as próprias redes sociais.
Samuel Pimenta alerta para “canibalização” do jornalismo
A reflexão começou com uma publicação de Samuel Pimenta, que questionou a aparente falta de reação dos jornalistas perante aquilo que considera uma transformação profunda da profissão.
“O que mais me choca é ver como os jornalistas não se opõem a esta canibalização da sua classe, da sua profissão e da sua missão cívica de serviço público. Sim, porque até o jornalista mais bem pago num meio privado tem o dever ético de serviço público.”
O escritor criticou ainda a presença mediática de “pessoas que insistem na imbecilidade, na lógica da mentira, da propaganda, da desinformação e do desrespeito pelas regras da boa educação”.
Foi a partir destas palavras que Filomena Cautela decidiu acrescentar a experiência acumulada nos bastidores da televisão.
“Nunca como hoje os comentadores se passearam tanto pela redação”
A apresentadora descreveu uma realidade que, garante, não existia com esta dimensão no passado.
“Tenho anos suficientes em redações para te dizer que nunca como hoje os comentadores se passearam tanto (aliás: antes nem entravam) pela redação.”
E detalhou aquilo que diz acontecer sobretudo nos canais televisivos:
“Sobretudo nas televisões, com a autoridade quase de mandar, de se dirigirem aos jornalistas para escolher os assuntos e pedir (para não dizer exigir) os cortes da ‘análise’ que vão partilhar nas próprias redes sociais.”
A crítica de Filomena Cautela não se dirige, assim, apenas à quantidade de comentadores presentes na televisão, mas à influência que estes terão adquirido para lá do momento em que surgem no ecrã.
Filomena Cautela vê classe jornalística sem força para reagir
Sobre uma eventual inversão desta tendência, a comunicadora mostrou pouco otimismo.
“Se é possível combater isto? Não é. Já não é. Porque já não temos força de classe. Está cada um por si, a pensar na hora do ‘toque de saída’.”
Na leitura de Filomena Cautela, a fragilidade coletiva dos profissionais ajuda a explicar por que motivo este modelo se foi instalando sem encontrar resistência suficiente dentro das próprias redações.
E foi no final da reflexão que deixou as palavras mais duras.
“O jornalismo definha e os comentadores (pagos pelos órgãos de comunicação social e pagos por fora com outros fins) vão ocupando todo o espaço, independentemente de quão fracos são. E a maioria além de tendenciosa é essencialmente fraca, curta, limitada, desinteressante e acabrunhada. Enfim, tempos sombrios.”
Uma crítica sem nomes, mas com um alvo muito definido: o peso crescente da opinião dentro dos espaços que, para Filomena Cautela, deveriam continuar a ter o jornalismo como centro.
