Gustavo Santos pede desculpa a Joana Marques, mas painel vê “estratégia” e alerta para discurso sobre cancro, no Passadeira Vermelha.
O pedido público de desculpas de Gustavo Santos a Joana Marques não convenceu os comentadores do Passadeira Vermelha. David Motta, Zulmira Garrido e Joana Latino consideraram que o vídeo poderá ter servido para recuperar atenção mediática. O painel da SIC Caras voltou ainda às afirmações do autor sobre doenças oncológicas e alertou para os perigos da divulgação de conselhos de saúde sem fundamento científico.
A discussão aconteceu no programa conduzido por Liliana Campos, algumas semanas depois de Gustavo Santos ter publicado um vídeo com ofensas dirigidas à humorista e radialista.
Gustavo Santos diz ter vivido “tomada de consciência”
No novo registo, o autor reconheceu que não esteve ao seu melhor nível e pediu desculpa diretamente a Joana Marques.
“Bom, estas palavras são dedicadas à Joana Marques, sobre a qual parti um vídeo há umas semanas, o único vídeo dos mais de 1000 que tenho aqui publicados onde assumidamente não estive ao meu nível. E por isso mesmo, Joana, peço-te desculpa. Não porque houve uma ameaça, porque houve uma exigência, ou porque tenho uma estratégia qualquer, simplesmente porque tive uma tomada de consciência, e eu levo isso muito a sério, tá? Um forte abraço e acorda Portugal!”, declarou.
Gustavo Santos afastou, assim, a existência de pressões ou de uma estratégia para justificar a retratação. Em estúdio, porém, os comentadores apresentaram outra leitura.
David Motta acredita que desculpa procurou gerar atenção
David Motta respondeu apenas “Estratégia” quando foi questionado sobre a sinceridade do vídeo.
Depois, apontou uma contradição entre o comportamento de Gustavo Santos e os princípios que este costuma defender nas redes sociais.
“O que eu acho que é uma grande falta de estratégia, eu não consigo entender como é que esta postura nas redes sociais do Gustavo encaixa com tudo o resto que ele pregoa (…) Ele sabe que cavalga muito bem neste assunto (…) que lhe dá engajamento como nada mais lhe dará, possivelmente, que estamos aqui todos a falar, como a internet também já esteve, e então se calhar ficou um bocadinho esquecido durante duas semanas e lembrou-se: ‘Ah, olha, agora vou pedir desculpa’. Porque assim voltam a falar de mim e aqui estamos nós a falar deles”, afirmou.
Para o comentador, uma retratação genuína poderia ter sido dirigida em privado a Joana Marques, sem a produção de um novo conteúdo público.
Zulmira Garrido rejeita arrependimento genuíno
Zulmira Garrido concordou com David Motta e recusou a existência da alegada tomada de consciência.
“Não, absolutamente não. Da parte do Gustavo, absolutamente nenhuma. Não é tomada nenhuma de consciência. Foi mais um conteúdo que ele teve que fazer (…) ele estava na altura de ter um novo conteúdo, portanto aproveitou isso”, sustentou.
A comentadora também considerou que um pedido de desculpas sincero teria sido enviado diretamente a Joana Marques. A publicação do vídeo nas redes sociais foi interpretada como uma tentativa de voltar ao centro da discussão.
Joana Latino usa expressão dura para criticar projeção digital
Joana Latino alargou a análise ao tipo de conteúdos partilhados por Gustavo Santos. A comentadora utilizou uma comparação com as antigas dinâmicas das pequenas comunidades para descrever a projeção alcançada através da internet.
“O Gustavo Santos é o maluco da aldeia (…) Todas as aldeias têm aquela pessoa que é mais ou menos tolerada pelo resto da aldeia, que é mais ou menos amparada pelo resto da aldeia, que diz uma série de disparates que não têm eco no resto da aldeia, porque obviamente o resto da aldeia é informado, é inteligente, é funcional, a saúde mental está equilibrada (…) O que é que as redes sociais trouxeram? Os malucos da aldeia encontraram-se todos no mesmo sítio e mais malucos da aldeia foram ouvir o que esses malucos da aldeia têm para dizer”, afirmou.
A expressão pertence à avaliação pessoal da comentadora e foi proferida durante a discussão no programa.
Conselhos de saúde podem ter consequências reais
Joana Latino alertou depois para a diferença entre uma opinião pessoal e a divulgação de alegações sobre saúde física ou mental.
“Disparates, inverdades, incoerências e mesmo mentiras científicas, coisas perigosas que põem em risco a saúde de muitas pessoas, a saúde física e a saúde mental. Coisas que repetidas muitas vezes eles acreditam que sejam factos e verdades, mas não é pela repetição nem pelo barulho que a repetição faz que isso se torna verdadeiro”, advertiu.
A comentadora lembrou que profissionais de saúde têm utilizado as redes sociais para responder a algumas das afirmações do autor.
“Há imensa gente também, comunidades de enfermeiros e psicólogos que têm vários espaços nas redes sociais em que vão desmontando tudo aquilo que ele diz (…) Gustavo Santos ter pedido desculpa à Joana, para mim é só estratégia para gerar mais conteúdo (…) Isto é só a estratégia daquele tontito lá da aldeia que se vê na plateia, afastado a um canto e como está nas redes sociais parece que tem imensa projeção”, rematou.
Nuno Markl já tinha contestado teoria sobre origem do cancro
O painel recuperou ainda o confronto público entre Gustavo Santos e Nuno Markl. Em causa esteve a alegada ideia de que as pessoas atraem doenças oncológicas através do próprio comportamento.
Joana Latino destacou a reação do radialista perante a aplicação dessa teoria a crianças.
“O Nuno ficou absolutamente destruído com a ideia que o Gustavo defende de que uma criança de meses ou de poucos anos que tem um cancro teve um comportamento que a levou a ter um cancro, porque é isso que o Gustavo Santos defende”, afirmou.
A comentadora considerou que as perguntas colocadas por Nuno Markl expuseram a fragilidade daquela argumentação.
“E o Nuno Markl desmontou isso muito bem perguntando-lhe se isso se aplica a um bebé de 2 meses, a um miúdo de 5 anos, a uma criança de 13, se isso é efetivamente… se alguém pode achar que isto é verdade. Portanto, só aí cai por terra na argumentação do Nuno Markl e na minha opinião este argumento do Gustavo Santos, de que somos nós que atraímos as doenças oncológicas”, acrescentou.
Comportamentos de risco não significam “atrair” uma doença
A investigação médica reconhece comportamentos que podem aumentar o risco de determinados cancros, como o consumo de tabaco ou álcool. Também existem fatores ambientais, genéticos, familiares e relacionados com a idade que não dependem da vontade individual.
Isto é diferente de afirmar que alguém “atrai” um cancro devido à sua atitude, personalidade ou forma de pensar. Não existe fundamento científico para atribuir uma doença oncológica, sobretudo numa criança, a uma escolha moral ou emocional do doente. O Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos identifica múltiplos fatores de risco e esclarece que muitos estão fora do controlo de cada pessoa.
Mesmo a existência de um fator de risco não permite concluir, isoladamente, por que razão uma determinada pessoa desenvolveu cancro.
“Ele é um negacionista, ponto”
O Passadeira Vermelha abordou igualmente as suspeitas que Gustavo Santos terá lançado sobre a medicina convencional e os tratamentos hospitalares.
David Motta resumiu a sua posição numa frase: “Ele é um negacionista, ponto.”
Joana Latino criticou particularmente a alegada teoria de que os tratamentos servem apenas interesses económicos.
“Ele acha que o dinheiro que é cobrado aos doentes oncológicos pelos tratamentos de quimioterapia é só para enriquecer as farmacêuticas que produzem os protocolos de quimioterapia (…) Quer dizer, também há medicação para as dores de cabeça”, afirmou.
A quimioterapia utiliza medicamentos para destruir células cancerígenas ou travar o seu crescimento. Pode ser administrada isoladamente ou em conjunto com cirurgia, radioterapia e outras terapias, dependendo do tipo de cancro, do estádio da doença e da situação clínica do doente. O tratamento pode provocar efeitos secundários, mas a sua utilização está assente em investigação clínica e protocolos médicos. A informação encontra-se detalhada pelo Instituto Nacional do Cancro.
Joana Latino alerta para consequências graves
No final, a comentadora pediu cautela a quem procura soluções de saúde nas redes sociais. Também alertou para a responsabilidade de quem recomenda tratamentos sem qualificação para o fazer.
“Se ele começar a recomendar tratamentos, ou se as pessoas lhe derem a legitimidade para ele prescrever tratamentos que eventualmente um dia provoquem problemas de saúde graves ou até a morte de algumas pessoas, aí estamos a entrar na zona do crime (…) Calma, informem-se primeiro, não façam da medicina química tradicional um diabo”, concluiu.
Perante uma doença oncológica, qualquer decisão sobre diagnóstico ou tratamento deve ser tomada com profissionais de saúde habilitados e não com base em conteúdos publicados por figuras sem formação médica.
