No São Pedro em Évora, Bastinhas foi poesia e Moura foi prosa

No São Pedro em Évora, Bastinhas foi poesia e Moura foi prosa, destacando-se os dois cavaleiros numa tarde muito quente.

Texto: Rui Lavrador / Fotografia: André Nunes

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A tradicional corrida de São Pedro decorreu no passado domingo, 29 de junho, na emblemática Arena de Évora, com um cartel interessante. Os cavaleiros Marcos Bastinhas, Miguel Moura e João Salgueiro da Costa enfrentaram toiros da respeitada ganadaria Branco Núncio, que celebra 100 anos, com as pegas a cargo, em solitário, do valoroso Grupo de Forcados Amadores de Évora.

Bastinhas: uma maturidade que emociona

Marcos Bastinhas protagonizou uma tarde de grande intensidade. Na primeira lide, apresentou-se com elegância e precisão. Cravou dois ferros compridos e dois curtos de boa nota, encerrando com um ferro de palmo após cite em circunferência. Lide curta, mas com tudo bem feito.

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No entanto, foi no segundo touro que tudo mudou. Bastinhas teve uma prestação de maturidade pura, de quem compreende o tempo e os terrenos como poucos. Dobrou-se com o toiro num palmo de terreno e abriu o livro, lidando segundo os cânones da arte tauromáquica. Nos curtos, esteve sublime, com uma entrega serena e rigorosa. Finalizou com um par de bandarilhas desenhado de frente, arrancando uma ovação em apoteose.

Curiosamente, lidou este segundo toiro em quinto lugar, em vez do quarto, devido a uma ligeira indisposição causada pelo calor. Mas nada que beliscasse a grandeza da sua atuação. Foi toureio de alma limpa e madura, com a eloquência dos grandes.

Marcos está a desenhar uma temporada de muito valor, com maior maturidade, numa concepção artística mais abrangente. Ou seja, sem perder a sua essência efusiva, consegue acrescentar outros argumentos, até aos quais os mais “puristas” terão de se render. C’est la vie!

Moura: técnica, precisão e arte interior

Miguel Moura manteve a linha que o caracteriza: técnica refinada e uma concepção de toureio profundamente centrada na estética. Na primeira lide, esteve certíssimo: cravou com precisão, desenhou ladeios com arte e rematou com harmonia.

Ainda que tenha faltado maior ligação ao público, a sua atuação foi irrepreensível do ponto de vista técnico. E se é assim que resulta, que assim continue.

Já na segunda lide, o toiro apresentou menos transmissão. Isso acabou por retirar brilho ao conjunto, mas Moura foi eficaz e competente, cumprindo a função com dignidade e rigor.

Salgueiro da Costa: esforço sem recompensa

João Salgueiro da Costa não teve sorte com o lote. O primeiro toiro foi complicado, levando o cavaleiro a sofrer dois fortes encontrões contra as tábuas. Ainda assim, cumpriu com valentia: dois compridos e três curtos em sorte de violino.

No segundo, o desafio foi outro. O toiro manso, com querença em tábuas, obrigou Salgueiro a trabalhar o dobro. Lutou para o tirar dali e, mesmo em terreno difícil, conseguiu dois curtos de elevado valor. Foi um esforço louvável, de quem não vira a cara à luta. Há tardes assim.

Forcados de Évora: valentia e honra

O Grupo de Forcados Amadores de Évora teve uma tarde de emoção e bravura. O cabo, José Maria Caeiro, concretizou a sua pega ao primeiro intento, aguentando derrotes duros até o grupo fechar. O público explodiu em aplausos.

Francisco Valverde, depois de uma tentativa inicial, teve de ser dobrado e saiu lesionado. A pega foi concretizada à quarta tentativa efetiva. Martim Lobo pegou ao primeiro intento, com segurança. Rafael Silva consumou ao segundo, Ricardo Sousa ao terceiro e Henrique Burguete ao quarto.

Apesar de algumas pegas não tão conseguidas, o grupo demonstrou sempre união, coragem e respeito pela sua história. Honraram a jaqueta e mantiveram viva a alma e história deste grupo.

O curro da ganadaria de Branco Núncio esteve bem apresentado díspar de comportamentos, tendo o ganadeiro dado volta à arena após a lide do segundo touro.

Por fim, se o calor foi imenso, houve ainda um milagre de São Pedro, com trovoada e chuva, da qual cairam alguns vastos pingos nas bancadas. Convenhamos que numa praça coberta é um milagre, mas neste caso souberam pela vida, tal o calor que se sentia.

Uma corrida entretida, não muito longa, na qual se destacaram Moura e – principalmente – Bastinhas na sua segunda lide. Moura numa prosa que por vezes só ele entende, Bastinhas numa poesia que é fina, mas acessível a todas as almas.

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