Último testemunho de Clara Pinto Correia expõe trauma profundo vivido na noite de Natal de 2020

Último testemunho de Clara Pinto Correia expõe trauma profundo vivido na noite de Natal de 2020, uma violação.

Escritora revelou episódio marcante dias antes de morrer

Clara Pinto Correia, de 65 anos, foi encontrada sem vida esta terça-feira, 9 de dezembro, em circunstâncias que deixaram o país consternado. Contudo, poucas semanas antes da sua morte, a bióloga e escritora deixou um dos relatos mais duros e íntimos da sua vida.

No dia 25 de novembro, na crónica “A Deriva dos Continentes” publicada no jornal digital Página Um, Clara revelou um episódio traumático que viveu na noite de Natal de 2020, ao mesmo tempo que celebrava a decisão do Parlamento de tornar os crimes de violação crimes públicos.


“Pensei que, envolvendo-me bem no meu silêncio…”

No texto, a autora assumiu de forma frontal aquilo que nunca tinha partilhado publicamente. “Há cinco anos atrás, (…) foram os dois tarados que juntaram esforços para tornar possível a minha violação. E depois, como fazem todas as mulheres violadas, falei com a minha médica, mas não falei com mais ninguém“, escreveu na introdução.

Em seguida, explicou o motivo que a levou ao silêncio prolongado:
“Pensei que, envolvendo-me bem no meu silêncio em torno deste nojo, estaria a proteger todos os familiares e amigos, todos os filhos e netos (…) que não haviam de querer andar a ter de aturar histórias porcas de foi assim ou assado“, confessou.

A escritora descreveu ainda como este trauma provocou um afastamento progressivo daqueles que lhe eram próximos, algo que só reconheceu muito tempo depois.


“Fiquei traumatizada até ao mais fundo do meu coração”

No mesmo testemunho, Clara Pinto Correia admitiu que o impacto do crime se prolongou durante anos e afetou áreas essenciais da sua vida pessoal.

“Pelo contrário, vejo agora, passados mais cinco anos, que o meu desaparecimento das nossas festas, das nossas conversas, e das nossas intimidades mais profundas, magoou de certeza toda a gente que esperava de mim a pessoa que eu era dantes“, escreveu, antes de assumir:
“Fiquei traumatizada até ao mais fundo do meu coração por um janado que me violou na Malorada, numa noite de chuva.”

A cronista relatou que, após uma festa na Malorada, tentou regressar a Estremoz, mas perdeu-se nas indicações dadas. Um homem, acompanhado de um guarda, ofereceu boleia — gesto que se revelou trágico.


“Só agora é que reparo que fiquei mal, mas mesmo muito mal”

Na parte final da crónica, a investigadora foi clara quanto às consequências que aquele episódio deixou no seu quotidiano.

“Só agora é que reparo que não, que fiquei mal, mas mesmo muito mal, depois do que aconteceu. Diga-se que fiquei traumatizada, por que não – a palavra existe para uso em casos como este”, reconheceu.

Clara admitiu ainda que nunca mais conseguiu viver o Natal como antes:
“Nunca mais passei nenhum Natal com aqueles ajuntamentos ciclópicos de família (…) Instintivamente, é como se me acontecesse alguma coisa horrível.”

Pode ler o texto na íntegra AQUI.

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