Entrevista a Bruno Fonseca: 30 anos de música

Entrevista a Bruno Fonseca: 30 anos de música abordados na primeira pessoa, mostrando que há ainda muito por fazer.

Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: Vasco Abranches

Este ano, 2025, Bruno Fonseca celebra 30 anos de percurso musical. Nesse sentido, sairá um novo trabalho discográfico que abordará as diferentes sonoridades que o foram influenciando.

Com formação em design de comunicação gráfico, é também professor de guitarra portuguesa e viola de fado, além de músico, produtor, fotógrafo e videógrafo, entre outras valências.

Por isso, dados os 30 anos de percurso musical, concedeu uma entrevista ao Infocul.pt, na qual aborda o seu percurso, o novo trabalho discográfico, as mudanças que foram ocorrendo no seio musical e ainda desvenda a marca que gostaria de deixar como músico e homem.

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Assim, de uma forma emocional, abordou também as amizades que foi fazendo na música e de como outros artistas foram importantes no seu percurso.

Por isso, convidamos o leitor a ler a entrevista e a descobrir também o que é a marca Sons da Bica:

Bruno Fonseca: “na realidade o que me fascina é mesmo o percurso, as experiências, a partilha”

Bruno, 30 anos de percurso na música. O que mudou nestes 30 anos e na valorização dos artistas?

Como alguém dizia, o caminho faz-se caminhando. E na realidade o que me fascina é mesmo o percurso, as experiências, a partilha e o convívio com pessoas amigas. A minha perspectiva nunca foi, nem será a da procura pelo sucesso imediato, a qualquer custo.

Tendo por base estes princípios que me definem, enquanto músico e ser humano, creio que o que mudou foi o meu crescimento. Ao nível do mercado de trabalho, o que penso ter mudado, com o conceito de globalização, foi um acesso mais democrático à produção musical. Hoje em dia qualquer pessoa pode gravar um álbum em casa. Porém, este acesso fácil à produção e edição, faz com que tudo se torne ainda mais efémero. Lançamos um single e no dia seguinte já foi esquecido, porque as pessoas foram bombardeadas por milhares de coisas novas. E as redes sociais são o reflexo disso mesmo. Faz um like e esquece que aquilo existiu. Assim, e respondendo de forma directa à questão, os artistas parece que têm de andar em bicos de pés para que reparem neles, que o seu trabalho seja valorizado. Neste percurso percebi que tem de ser o artista a valorizar-se a si próprio e acreditar no seu propósito, mesmo que isso implique não vender um único disco ou não ter um único concerto. Porque na realidade o que acontece, cada vez mais, é que os agentes da “1ª liga” absorvem o mercado todo e não permitem que haja espaço para outras expressões fora do mainstream. Já dizia o José Afonso “eles comem tudo e não deixam nada…”

Bruno Fonseca: “a grande maioria das vozes que convidei para o disco são fadistas da nova geração”

Este ano terá um trabalho em que abordará diferentes sonoridades que foi explorando ao longo dos anos. O Fado é o ponto de partida ou chegada?

Sim, de facto pensei que poderia aproveitar a efeméride para reunir num trabalho com composições minhas, letras e músicas, à excepção de uma colaboração com um colega e amigo André Baptista. Este trabalho tem de ser um reflexo das minhas vivências musicais pelo Fado e não só.

O Fado é um ponto de partida, na medida em que trabalho diariamente com essa forma de expressão, quer seja a dar aulas de guitarra portuguesa e viola de fado, ou a tocar à noite, nas casas de fado. E se formos a ver, a grande maioria das vozes convidadas para o disco são fadistas da nova geração, com quem tenho o privilégio de partilhar o oficio nesses momentos de entrega emocional e artística. Contudo, sempre viajei por muitas linguagens musicais e nunca quis colocar rótulos.

Bruno Fonseca: “Fui aprendendo a esperar, de modo a poder concretizar os meus objectivos”

Encara a música como algo sem fronteiras ou barreiras. Isto não é complicado, numa altura em que as pessoas tentam colocar cada género numa “espécie de gaveta”?

Diria que é fundamental. A sociedade apresenta a urgência de nos sabermos aceitar e criar  empatia uns pelos outros. Que melhor forma para o fazer se não através da expressão artística? Seja ela a música ou outra forma de expressão.

Compreendo que para os programadores, para as editoras e para quem negoceia e comercializa a música, necessite dessa organização por géneros, mas um artista não o deve fazer. Um músico tem de ser livre para criar.

A vida não é fácil e se eu quisesse ter uma vida fácil, não vinha para músico [sorri]. Porém, é este o meu caminho e com o tempo fui aprendendo a saber esperar, de modo a poder concretizar os meus objectivos e produzir os meus trabalhos musicais, quer através da música, propriamente dita, quer através da fotografia e do design, em que sou licenciado. Ou até mesmo numa outra forma de expressão, que me permita estar em contacto permanente com a música.

Creio que o músico tem um dever social. Quando cria está a fazer algo que vai chegar a outras pessoas, através das suas emoções. Se tem esse foco sobre si, ainda para mais alguns artistas com maior visibilidade, têm mesmo uma obrigação para com a sociedade. Dever de formar opiniões, de colocar as pessoas a pensar e de quebrar essas mesmas barreiras, que aqui refere na pergunta.

Bruno Fonseca: “Espero poder crescer ainda mais como músico e pessoa.”

Ao longo percurso, partilhou palco com vários artistas. Algum que o tenha marcado em especial? Se sim, porquê?

Creio que todas as pessoas me têm marcado, cada uma da sua forma. Algumas pela positiva e outras pela negativa. Mas faz parte, somos todos diferentes e não podemos conseguir ter afinidades com todas elas. Isso, a meu ver, seria falta de personalidade. Mas dizia eu, que todos me marcaram, porque me fizeram crescer e ser a pessoa que sou hoje e certamente serei amanhã. Fui aprendendo com todas elas, fui crescendo. Espero poder crescer ainda mais como músico e pessoa.

Posso mencionar nomes que me têm acompanhado e apoiado desde sempre, como o caso do Edu Miranda, o Tiago Machado, que conheço desde os tempos do liceu, e o amigo e músico André Mota. E porque me marcaram? Pelo facto de terem sempre disponibilidade para me fazer ver um ponto de vista diferente do meu e me mostrarem, através da sua experiência, caminhos que eu desconhecia. A par dos conhecimentos técnicos e musicais que dominam, cada um à sua maneira.

Queria ainda referir as pessoas que me fizeram entrar no mundo da música. O meu primeiro palco foi aos 6 anos de idade a tocar cavaquinho com o grupo “Romanças”, actualmente com o nome “Real Companhia”. Foi lá que descobri e iniciei o meu caminho. E apesar das pessoas seguirem o seu caminho, não poderia deixar de referir o Fernando Pereira, a Mena, o José Salgueiro, o Pedro d´Orey, o Fernando Molina e tantos outros que me ajudaram a crescer naquele ponto de encontro que foi a Taverna dos Trovadores em S. Pedro de Sintra.

Bruno Fonseca: Edu Miranda “é uma peça chave no meu crescimento enquanto músico e ser humano”

Falando de Edu Miranda, com quem tem uma boa cumplicidade artística, questiono o que trouxe Edu à forma como Bruno vê e sente a música?

Falar do Edu é recuar no passado os 30 anos e dizer que foi ele que me mostrou a riqueza da linguagem da MPB, como se faziam os acordes e qual o seu contexto. A par disso, e aquilo que me interessa mais, o Edu tem sido um amigo, que me tem acompanhado e apoiado nestas loucuras de produzir álbuns, mas uma loucuras boas 🙂 Tem sido ele a partilhar comigo as produções dos discos e auxiliado nos arranjos, gravações e na mistura e masterização dos trabalhos produzidos nestes últimos 15 anos. Por isso, posso seguramente afirmar, que é uma peça chave no meu crescimento enquanto músico e ser humano.

Bruno Fonseca: “A música como a vida, tem as suas diferentes fases”

Com 30 anos de percurso na música, começa-se a pensar no fim de carreira e de como isso será gerido emocionalmente?

Ainda sou muito novo! Claro que pensamos sempre no que virá a seguir, e de que forma nos podemos reinventar, para não perdermos o “barco”. A lucidez daquilo que conseguimos e devemos fazer, pode ser uma das nossas maiores virtudes. Principalmente, porque não nos queremos afundar e sentir perdidos na vida. A música como a vida, tem as suas diferentes fases, e um dia, espero que ainda muito longe, o fim terá de acontecer. Não sou crente, por isso acredito mesmo que é o fim, fica cá o trabalho que produzimos, para as novas gerações continuarem e seguirem o seu percurso.

Regressando um pouco ao trabalho que está a preparar, tem ideia de quando será lançado?

Tudo isto depende dos apoios, é sempre a mesma questão. Porque o trabalho poderia estar pronto até Abril do corrente ano, contudo é preciso pagar aos convidados. Costumo dizer que sou músico e pretendo, sempre, tratar as pessoas que comigo colaboram, da mesma forma que gostaria que me respeitassem. Ou seja, é um pouco difícil indicar uma data em concreto, mas creio que seguramente no decorrer deste ano de 2025. Pelo menos assim o desejo…

Bruno Fonseca: “A criação da marca Sons da Bica foi a forma que eu encontrei de fazer representar todas as minhas valências”

Entretanto, fale-nos da marca Sons da Bica. O que é? Como nasceu e quais os objetivos?

A criação da marca SONS DA BICA foi a forma que encontrei de fazer representar todas as minhas valências como músico, produtor, professor, fotógrafo / videógrafo / designer, numa mesma identidade. E assim como a água corre numa bica, pretendo que as ideias continuem sempre a acontecer.

Com formação em design de comunicação (gráfico), sempre tive uma preocupação estética e de organização dos conteúdos, em criar uma unidade, uma mesma linha de pensamento.

Com esta marca, SONS DA BICA, pretendo que fique impresso o meu cunho pessoal, daquilo que eu considero um trabalho cuidado e com qualidade. Assim, espero que num futuro, as pessoas, que me possam contratar ou receber as minhas propostas, pensem sempre que o trabalho produzido dentro desta marca terá sempre um carimbo de qualidade. Mas se formos visitar o website – www.sonsdabica.com – que também foi criado por mim, podemos encontrar os grupos que tenho desenvolvido nas várias linguagens musicais – o Fado, a Bossa Nova, a música instrumental dita “clássica” ou erudita e da música improvisada e claro a música popular, tradicional e das raízes da nossa cultura primordial.

Bruno Fonseca: ” a minha preocupação é a de educar o meu filho e fazê-lo crescer e ser uma pessoa íntegra e bondosa”

Por fim, talvez a pergunta mais pessoal. Que marca gostaria de deixar enquanto músico e ser humano?

É uma pergunta difícil, porque nunca sabemos se o caminho que escolhemos é o mais adequado. Contudo, posso dizer que a minha preocupação é a de educar o meu filho e fazê-lo crescer e ser uma pessoa íntegra e bondosa. Uma boa pessoa, como costumamos dizer. Creio poder dizer, que tenho cumprido bem essa tarefa. E porque falo nela? Porque vejo a música como uma partilha e como um crescimento, tanto da minha parte, como das pessoas com quem tenho tido o privilégio de privar, partilhar momentos e experiências musicais.

Durante estes 30 anos, percebi, que o que me importava mais, era trabalhar com pessoas com quem pudesse desenvolver afinidades, cumplicidades, e para isso é preciso respeito e dedicação, assim como para com um filho.

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